A ORIGEM DOS CONHECIMENTOS HUMANOS NO CONTEXTO DOS ESTUDOS INFORMACIONAIS

 

 

Luciana Gracioso [1]

Universidade Federal de São Carlos - UFSCar

luciana@ufscar.br

 

 

______________________________

Resumo

Historicamente os estudos da informação se relacionam diretamente com os estudos da linguagem. Recentemente, entra nesse cruzamento, a tecnologia. Procurando identificar caminhos que possam servir aos estudos informacionais para refletir e construir suas estruturas de linguagem para mediação do conhecimento, é desenvolvido um ensaio sobre qual seria o lugar da linguagem na obra “Ensaio sobre a origem dos conhecimentos humanos” (1746), de Étienne Bonnot de Condillac (1715 – 1780). Procura-se, ao final, defender as perspectivas do filósofo como um dos pontos de partida prévios que poderiam também ser assumidos pela Ciência da Informação para distinguir aquilo que atualmente concebemos como linguagem, conhecimento e uso da informação.

 

Palavras-chave: Filosofia da linguagem. Epistemologia da informação. Filosofia moderna.

 

 

ABSTRACT

 

Abstract: Historically, information studies relate directly to the study of language. More recently, technology enters this intersection. Seeking to identify ways that can serve to the informational studies to reflect and to construct its structures of language mediation of the knowledge, an essay is developed on the place of language in the work Essay on the Origin of human knowledge (1746) by Étienne Bonnot de Condillac (1715-1780) in order to extend this understanding to the study of information and its signification. At the end, is proposed that other previous starting points can be considered as to what is currently thought of as language, information, knowledge and information use.

Keywords: Philosophy of language. Information epistemology. Modern philosophy.

 


 

A invenção, o imaginário e a memória são uma coisa só. Não se pode separar a memória da invenção, a fantasia da realidade.

Lygia Fagundes Telles

 

1 INTRODUÇÃO

 

A linguagem e a informação podem ser entendidas como sendo compostas pelas mesmas entidades elementares: signos e sujeitos. Os limites e alcances dos estudos da linguagem são também, em parte, os da informação. Compreender as relações entre a linguagem, o pensamento, a construção do conhecimento, a sua comunicação (seu registro), sua compreensão, assimilação e aplicação, são também os desafios dos estudos da informação.

Guedes (2016) vai defender que a linguagem é a mediação entre o que é assimilável e o ser humano e na medida em que estudamos as relações de sentido promovidas via linguagem estamos ao mesmo tempo atuando com o que é mais essencial da natureza da informação.  Saldanha em sua tese “Uma filosofia da ciência da informação: organização dos saberes, linguagem e transgramáticas” (2012) recupera as relações da retórica e da filologia com os estudos da Organização dos Saberes. A linguagem, para o autor, é o elemento comum de análise destes domínios do conhecimento. Sua pesquisa “se propôs demonstrar que a Organização dos Saberes, tanto pela sua caracterização histórica remota, como pela sua construção científica no mundo moderno a partir do século XIX e, ainda, pelas suas tendências contemporâneas, pode ser reconhecida como uma ciência da linguagem, tendo a noção de “gramática” como conceito estrutural” (SALDANHA, 2012, p.11).

A relação da linguagem no âmbito da Ciência da Informação não tem fronteira fixa. Concepções, teorias, correntes e escolas variadas são assumidas em detrimento do problema informacional que se analisa e investiga. Temos notadamente a presença majoritária da Linguística, enquanto ciência da linguagem, como aporte conceitual e metodológico para os estudos informacionais, especialmente no contexto da Organização do conhecimento e da informação. Machado, Simões e Rocha (2017) confirmam isto, após analisarem os principais textos publicados na área (entre 1960 e 2000) que explicitam sua a trajetória histórica e teórica. A Linguística, enquanto disciplina científica que se ocupa de investigar as estruturas da linguagem humana confirma-se como área que esta intimamente relacionada a este campo, desde sua gênese:Borko (1968); Mikhailov (1971); Brookes (1980); Le Coadic (1994). Em 2000 Mendonça identifica e sistematiza as intersecções entre a linguístisca e a CI, analisando categoricamente as publicações sobre o assunto nas três primeiras décadas de constituição do campo, no Brasil. Antes disto, Baranow (1983) desenha as primeiras contribuições da linguística na CI. Em um contexto mais específico, que diz respeito a Organização do conhecimento, temos o trabalho de Cintra (1983) que pode ser considerado pioneiro. Já nas duas últimas décadas, a Linguística documentária (LARA, TÁLAMO, 2006) tem se firmado enquanto disciplina da CI. Mas as abordagens sobre a linguagem nos estudos informacionais não se esgotam nesta já consolidada relação interdisciplinar.

Em outra perspectiva, ora com maior ou menor ênfase, as relações da Ciência da Informação com a Semiótica, desde Coelho Netto, (1990) e mais recentemente a partir dos trabalhos de Moura, (2006), Almeida (2009), Barros e Café, (2012), e com o Discurso (confirmado na revisão de literatura feita por Silva e Baptista, em 2015) são estabelecidas, com diferentes abordagens, cada qual com sua justificação e apropriação ajustada a demandas específicas do campo e de suas práticas. Kobashi (2017) irá confirmar, após intensa analise de literatura cientifica francesa sobre os estudos informacionais, que “(...) problemas de pesquisa na Ciência da informação e as operações técnicas e práticas sociais de compartilhamento de saberes requerem compreensão das teorias infocomunicacionais e linguísticas”. Acrescentamos a estas teorias sugeridas pela autora, a filosofia da linguagem, enquanto categoria aberta que acomoda recortes analíticos, hermenêuticos, pragmáticos.

Em diferentes momentos, buscamos apoio filosófico para compreender os mecanismos que regem a relação entre a linguagem, o conhecimento e a comunicação, e nesta busca, nos apoiamos especialmente na Filosofia da Linguagem Pragmática, entendendo-a com a filosofia do sujeito informacional, a filosofia do uso da linguagem e da informação. E diante destes movimentos de busca para entender os mecanismos que constituem, formatam e acionam a linguagem, a informação e os seus usos, é que enveredamos por caminhos cujos entroncamentos com a Ciência da Informação nem sempre estão explícitos. Assim o propósito do ensaio que aqui se apresenta é conjecturar sobre o que poderia vir a ser mais uma possível aproximação dos estudos filosóficos da linguagem com os estudos da informação, mas sem ainda arriscar a explicitar quais seriam estas relações, deixando ainda em aberto, todas as possibilidades. O propósito inicial seria então, procurar reconhecer caminhos que nos levam a desvendar a constituição e o incremento da linguagem, transitando posteriormente, em outro momento, mas seguindo o mesmo princípio analítico, para pensar a constituição da informação. Uma informação que não seria apenas pensada sob o plano configurado de sistemas e processos de recuperação da informação, como também, e principalmente, como produtora e produto das práticas cotidianas de comunicação, sendo que seriam estas práticas, estes usos, esta sofisticação dinâmica e social de usos e de trocas informacionais, os principais recursos para constituição de nossa condição humana.

Assim, considerando a hipótese de que a ampliação do escopo e da abrangência de diferentes perspectivas de compreensão sobre a linguagem, poderia ampliar a matriz gnosiológica da Ciência da Informação, é que vislumbramos, como objetivo deste estudo, identificar e apresentar uma perspectiva de compreensão filosófica da linguagem ainda pouco explorada no referido campo, e que podemos sugerir nominar como proto-pragmática, mas que tem reverberado em diferentes áreas do saber, como a Ciência da computação, a Psicologia, Letras, dentre outros.  Mais pontualmente trataremos da filosofia empirista e sensualista do francês Étienne Bonnot de Condillac (1715-1780)[2], que, teria como ponto articulador  sua obra “Ensaio sobre a origem dos conhecimentos humanos" (1746).

 

2 OS LUGARES DA LINGUAGEM NA FILOSOFIA DA CONDILLAC

 

O programa filosófico de Condillac teria tido o intuito retraçar a gênese do espírito humano, tendo como ponto de partida as sensações, que seria o princípio de todo conhecimento. Condillac se propõe a fazer um itinerário para encontrar as origens do conhecimento humano, e neste percurso, encontra a linguagem.  Todavia o alcance do pensamento deste filósofo esta muito além do que iremos esboçar neste texto. O que se almeja, ao final deste ensaio, é apenas ponderar sobre outras possibilidades de compreensão sobre as origens e os alcances da linguagem, arriscando ao final, sugerir que se trata do mesmo percurso da informação.

Étienne Bonnot de Condillac (1715 – 1780) foi um filósofo francês, que teve sua produção desenvolvida durante o iluminismo, tendo sido amigo próximo de grandes pensadores deste período, como Rousseau. Chegou a ser ordenado padre, por isto, é tratado ora como abade. Tem como suas principais publicações: Tratado dos sistemas, Tratado das sensações, Tratado sobre os animais, Língua dos cálculos e também, Ensaio sobre a origem dos conhecimentos humanos. A obra a que nos deteremos é o Ensaio (1746).

O projeto de Condillac foi explicitado por ele mesmo no Ensaio e recuperado por Derrida, em seu texto “Arqueologia do frívolo”. Seu projeto era o de ter mostrado o quanto os progressos do espírito humano dependem da linguagem, mas, os signos teriam lhe tomado maior tempo e atenção no decorrer de suas reflexões. Desde a primeira parte do Ensaio (Dos materiais dos nossos conhecimentos e particularmente das operações da alma) o seu “programa semiológico” foi estabelecido e seria mais pontualmente na segunda parte de seu livro (Da linguagem e do método) que Condillac se ocuparia então de seu programa por completo. (DERRIDA, 1979).

O Ensaio, até o limite de nossa leitura, configuraria como uma obra que intenta apresentar um princípio único para a construção e o entendimento de todos os saberes, sendo este princípio, a experiência. No texto de sua apresentação, o autor alerta seus leitores que o seu objetivo maior é “[...] o estudo do espírito humano, não para descobrir sua natureza, mas para conhecer suas operações, observar de que modo elas se combinam, e como devemos conduzi-las a fim de adquirirmos toda a inteligência de que somos capazes” (CONDILLAC, 1979, p. 91). Contudo, foi preciso não só “[...] seguir as operações da alma em todos os seus progressos, mas ainda procurar como contraímos o hábito dos signos de toda a espécie, e qual o uso que deles devemos fazer.” (p. 92).

O percurso do pensamento é refeito e apresentado nesta obra até chegar à percepção, situando-a como a primeira operação da alma e considerando que é dela que decorrem todas as demais operações.  Neste percurso, em um dado momento, o desenvolvimento dos signos e da linguagem tanto será decorrência do avanço desta cadeia de atividades como também se tornará o eixo articulador de certas operações da alma. Este estatuto da linguagem participante das ações de criação de novas operações também é exposto por Condillac já no texto de apresentação do Ensaio:

Por outro lado, comecei pela linguagem de ação. Ver-se-á como ela produziu todas as artes que são próprias para exprimir os nossos pensamentos; a arte dos gestos, a dança, a palavra, a declamação, a arte da composição musical, a arte da pantomina, a música, a poesia, a eloqüência, a escrita e os diferentes caracteres das línguas.  (CONDILLAC, 1979, p. 92).

 

Ao final de sua obra, o filósofo mostrará então como evitar erros de raciocínio a partir das várias possibilidades e maneiras em que se pode analisar a linguagem e, com isto, corrigi-la. Derrida já nos antecipa em alguma medida como isto é possível:

[...] o desenvolvimento de nossas ideias e das nossas faculdades se faz por intermédio de signos, e que não se faria sem eles; que em conseqüência não se pode corrigir a nossa maneira de raciocinar desde que não se corrija a linguagem, e que toda a arte se reduz a elaborar corretamente a língua de cada ciência. (DERRIDA, 1979, p. 21).

 

Colocando a linguagem nestes termos, ela teria origem nas sensações e percepções e se desenvolveria a ponto de se configurar como o grande instrumento potencializador do raciocínio humano, sendo que a sua sofisticação e o seu aperfeiçoamento último se manifestaria na criação da linguagem aritmética, algébrica, dos cálculos. Com isto, Condillac tentará argumentar a favor de que a metafísica deveria ser pensada com a precisão de uma linguagem matemática. Mas não avançaremos neste texto, neste ponto. Ficaremos no meio do caminho procurando compreender minimamente onde e quando a linguagem aparece em Condillac, refletindo sobre a estrutura metodológica que possibilitou a sua identificação e localização no percurso da construção dos saberes humanos.  Intentaremos de modo muito provisório e sem maiores pretensões, apresentarmos, na sequencia, um recorte frívolo sobre como se daria a progressão das operações do espírito e como isto se enlaçaria com a linguagem.

 

3 A LINGUAGEM ENTRE A PERCEPÇÃO E A REFLEXÃO

 

A gênese das operações do espírito percorreria, tal como exposto no Ensaio, a percepção, a impressão, a atenção consciente, a reminiscência, a imaginação, a contemplação, a memória e a reflexão. As operações da alma variam de acordo com as sensações a que somos expostos. Não teríamos faculdades pré-definidas. Tanto a vontade como o entendimento seriam operações da alma, sendo que a origem primeira do entendimento é a percepção, que seria a impressão causada na alma pela ação dos sentidos; seria a primeira operação de entendimento. Quando estes movimentos de percepções são parcialmente percebidos, temos a consciência. Contudo nem todas as percepções se desdobram em consciência.

A atenção seria a operação pela qual a nossa consciência, com relação a certas percepções, aumenta até o ponto de não ser possível identificar que haveriam outras percepções. Condillac explica, no Cap. III, § 28: “[...] as coisas não atraem a nossa atenção senão pela relação que têm com o nosso temperamento, com as nossas paixões, com o nosso estado, ou para dizer tudo em uma palavra, com as nossas necessidades; é uma conseqüência o fato da mesma atenção englobar ao mesmo tempo as ideias das necessidades e as das coisas que com ela se relacionam e o fato de as ligar.” Não haveria nenhuma impressão nos sentidos que não seja comunicada ao cérebro e que não produza, por conseguinte, uma percepção na alma.  “Todas as nossas necessidades estão ligadas umas às outras e nelas se poderiam considerar as percepções como uma série de ideias fundamentais com as quais se relacionaria tudo aquilo que faz parte de nossos conhecimentos.” (CONDILLAC, 1979, § 29).

A consciência seria o fundamento da experiência e a reminiscência, o reconhecimento do que já foi experimentado, memórias inconscientes, mas que podem ser trazidas a consciência a qualquer momento. São ligações que conservam uma série de nossas percepções. Primeiro acionaríamos a percepção simples (impressão que se recebe acerca dos objetos), depois a impressão, que seria a advertência para a alma, para a consciência, e a reminiscência, momento em que a consciência afeta a alma e a atenção é a operação essencial para que ela ocorra. Condillac evoca que o progresso das operações que acabamos de descrever é de natureza sensível. No § 16, ele diz:

[...] primeiramente apenas existe na alma uma simples percepção, que não é senão a impressão que ela recebe da presença dos objetos: daí nascem na sua ordem outras três operações. A impressão considerada como um aviso à alma da sua própria presença,  é o que eu denomino consciência. Se o conhecimento que dela tomamos é tal que parece a única percepção de que temos consciência, tratar-se-á da atenção. Por fim, quando ela se faz reconhecer como já tendo afetado a alma, teremos a reminiscência. A consciência fala de alguma maneira à alma: eis uma percepção; a atenção, eis uma percepção que é a única que se está a ter; a reminiscência, eis uma percepção que já teve.

 

Já a imaginação se daria quando o cérebro forma imagens de objetos que já não estão mais presentes, reproduzindo o que foi percebido mentalmente e que antes foi objeto de uma percepção. Ela é criadora e inovadora. A contemplação conserva continuamente a percepção, o nome das circunstâncias de um objeto que acaba de desaparecer. A memória recupera conceitos, contextos e circunstâncias, mas não traz de volta uma percepção. “Como capacidade de renovar as percepções sensórias, mesmo que na ausência dos respectivos objetos, de maneira que se tornem pontos de partida para a associação de ideias, a imaginação necessita do direcionamento feito por formas superiores de raciocínio que resultam delas”. (RICKEN, 2000, p. 227).  Portanto, a imaginação, a contemplação e a memória terão seus progressos somente a partir do uso dos signos.  Ricken nos auxilia a situar pontualmente este lugar e esta função da linguagem: “Condillac considera a imaginação, isto é, a percepção interna de impressões sensórias e, principalmente, da sua recordação, mesmo na ausência dos objetos dos quais a impressão sensória se origina, como condição na qual a atividade dos sentidos se fundamenta para o surgimento, o desenvolvimento e o funcionamento da linguagem e do raciocínio. [...] Imaginação e uso dos sinais estabelecem pontes entre os processos de percepção e raciocínio. Desta maneira a linguagem torna-se um método analítico do raciocínio [...]” (RICKEN, 2000, p. 226).  A linguagem torna-se a lente necessária para enxergarmos os processos, as ligações que propiciam a construção do raciocínio humano.

Caberia aqui trazer a ressalva feita por pelo filósofo sobre o fato de que o mau uso da linguagem é também o que poderá provocar equívocos de raciocínio. Para o abade, a relação entre uso de sinais e o raciocínio deveria ser preciso.  Neste ponto se manifestaria o significado de análise para Condillac. A correspondência entre o signo e o significado resultaria na linguagem perfeita almejada pelo pensador. Tal relação, quando perfeita, promoveria ações perfeitas e consequentemente uma ciência perfeita, evidentemente havendo a necessidade de haver uma correspondência da linguagem com os fenômenos que ela representa. (FERRATER MORA, 2001, vol. 1, p. 529).

Este posicionamento situaria Condillac em uma vertente que sugere e expõe a fragilidade das filosofias anteriores. As outras filosofias que desconstruíram este “solo originário do saber” teriam arquitetado e modelado seus sistemas com desvios, diria Monzani (1993, p. 8). Não passariam de uma quimera. E nesta perspectiva é que a filosofia de Condillac coloca-se em outra via, que não a da filosofia clássica, rebatendo então a proposta metafísica de Descartes, Leibniz, Spinoza e Malebranche. 

A metafísica clássica derivaria, segundo Condillac, do mau uso da linguagem. Deste modo, corrigir a metafísica demandaria antes corrigir a linguagem, e conforme exposto por Ricken: “Em Descartes, a temática da origem da linguagem fica excluída, e Locke havia desistido de incorporá-la como importante em seu sensorialismo”. (RICKEN, 2000, p. 220). Derrida nos explica ainda que “Locke falhou o signo, porque lhe faltou ordem. Ele não reconheceu o princípio de desenvolvimento do gérmen [...] porque não analisou radicalmente esse gérmen”. (1979, p. 50). Na verdade, a linguagem bem formada, decorrente das constituições sistemáticas (tal como sugerido por Descartes e Spinoza), não teria sido aceita, ou ainda, incorporada por Condillac, que defenderia que a linguagem satisfatória seria analítica. (FERRATER MORA, 2001, vol. 1, p. 529).

O modelo de uma linguagem bem formada, almejado por Condillac, não foi necessariamente alcançado em seu projeto filosófico, até onde pudemos compreender. Sobre esta compreensão analítica da linguagem, temos algumas ressalvas, uma vez que estamos inclinados a considerar que não há univocidade na descrição de conceitos, e seguimos na defesa de que é o uso da linguagem que irá definir e redefinir, de modo dinâmico, seu significado. Mas o propósito deste ensaio não seria contrapor teorias, neste momento. Pretensiosamente almejamos introduzir um panorama filosófico de estudos da linguagem que sugerem percursos originais para compreendermos sua origem e funcionamento.

Até aqui, arriscaríamos dizer que um dos lugares da linguagem na filosofia da Condillac é o de conferir como instrumento que possibilitará a reconstrução da metafísica. O filósofo irá se ocupar então da linguagem procurando analisá-la e resignificá-la para então atender as exigências do que seria a verdadeira metafísica. A nova metafísica de Condillac tem propósitos muito claros, sobre os quais diz Derrida:

[...] articulará em si as duas metafísicas, não a boa nem a má, desta vez, mas a boa sob a forma da origem pré-linguística, do “instinto”, do “sentimento”, e a boa sob a forma da elaboração lingüística extrema, da nova linguagem, e da “reflexão”. De l’art de raisonner organiza este sistema duplo, fornece a regra que deve relacionar uma com a outra, a metafísica do instinto natural com a metafísica, ciência segunda que cura. Esta deve desenvolver e não degradar aquela, deve mesmo reproduzir na língua a relação que ela tem, como língua, com o que precede toda a linguagem. (DERRIDA, 1979, p. 16).

 

Esta metafísica sensualista, diria Derrida, seria também de um extremo ao outro uma metafísica do signo e uma filosofia da linguagem. (1979, p. 21). Mas esta recolocação da linguagem exigiu a compreensão de toda a cadeia de construção de saberes humanos que a suscitou e dos quais decorreu sua criação. Ao mesmo tempo em que Condillac irá analisar os percursos, as unidades, as operações que deram origem ao conhecimento humano, chegando até a compreensão sobre a criação da linguagem, o autor irá revelar também ser ela a responsável por todo o avanço deste conhecimento. E eis mais alguns lugares da Linguagem na filosofia de Condillac.

Derrida nos esclarece ainda que este projeto será desenvolvido por Condillac em sua obra “A linguagem dos Cálculos” (1798), na qual buscará defender a “[...] constituição de uma língua rigorosamente arbitrária, formal, convencional” (DERRIDA, 1979, p. 15), sendo que a “Linguagem do cálculo é uma teoria matemática, cujos dados e regras também são deduzidas das experiências dos sentidos”. (RICKEN, 2000, p. 218). A língua é um método analítico ao mesmo tempo que um método analítico também é uma língua.

O Capítulo VII do Ensaio trata da Digressão sobre a origem dos princípios e da operação que consiste em analisar. Nele, é apresentado o paradoxo entre o método da síntese, oriundo da filosofia clássica, e o novo método da análise, proposto por Condillac. E sendo este método um dos fatores que propulsionam todo o mecanismo que movimenta a filosofia de Condillac, nos dedicaremos brevemente a ele. A síntese e a análise seriam excludentes na medida em que a síntese configura como método de exposição, e não como método de raciocínio; inscreve-se na abstração e a dedução sugere a progressão dos princípios gerais, e a isto Condillac se opõe frontalmente. “Há ainda mais uma diferença entre o método de Descartes e o que eu tento estabelecer. Segundo ele, é preciso começar por definir as coisas e considerar as definições como princípios próprios para nos levarem a descobrir as suas propriedades; pelo contrário, eu penso que é preciso começar por procurar as propriedades e isso parece-me que tem fundamento. Se as noções que somos capazes de adquirir não passam, como já mostrei, de diferentes coleções de ideias simples que a experiência nos fez reunir sob determinados nomes, é muito mais natural formá-las, procurando as ideias na mesma ordem em que são dadas pela experiência, do que começar pelas definições, deduzindo seguidamente as diferentes propriedades das coisas.” (CONDILLAC, Seção II, § 35).

O método analítico de Condillac deduz de axiomas as suas consequências. Uma proposição geral é o resultado de nossos conhecimentos particulares e estaria longe de ser um princípio geral. A análise seria então o método em Condillac, cujas ações de compor e decompor as ideias e noções nos permite desvendar e descobrir as relações que existem entre elas e, deste modo, nos remonta à origem das coisas e dos fatos. Parte-se do complexo para o simples. Assim, a percepção, como operação primeira da alma, pode ser identificada como resultado de uma análise. E ao destrinchar estes progressos foi possível localizar a linguagem e sua arqueologia. A linguagem é instituída, arbitrária e necessária. É adquirida pela necessidade.

Os diferentes graus de necessidade do homem que vive em sociedade demandariam diferentes espécies de signos, que se sofisticariam conforme determinados graus de necessidade fossem atendidos e satisfeitos com a instauração de determinada fase dos signos. Os signos foram classificados por Condillac, no § 35 como “[...]1º signos acidentais, ou os objetos que certas circunstâncias particulares ligaram a algumas das nossas ideias, de modo que certas circunstâncias particulares ligaram a algumas das nossas ideias, de modo que eles as conseguem despertar; 2º os signos naturais, ou os gritos que a natureza estabeleceu para os sentimentos de alegria, de medo, de dor, etc. 3º os signos de instituição, ou sejam, aqueles que nós próprios escolhemos e que apenas têm uma relação arbitrária com as nossas ideias”. E seria apenas a partir da existência e do uso dos signos de instituição que seria possível criar novos signos. São os signos de instituição que propiciarão ao cérebro o instrumental para a reflexão.

Os signos teriam uma função estruturante sobre as nossas formas de pensar.  A reflexão só existiria porque a linguagem existe. Raciocinar seria quase uma sequência natural de ideias que derivaria de análises bem feitas. Deste modo a razão, o entendimento seria o resultado de uma combinação de operações da alma e não uma faculdade.

Como dito, em Condillac, toda a noção intelectual superior seria um composto de noções simples, sendo que estas seriam as sensações e delas, sucessivamente, decorreriam modificações de diferentes naturezas, sendo uma delas, a linguagem. Todos os processos da consciência (inclusive o desenvolvimento, o uso e a sofisticação da linguagem) são decorrências de sensações, de modo em que estas, em um processo gradativo, vão se ligando, concatenando, expandindo e se especializando. (FERRATER MORA, 2001, vol. 1, p. 529). A meta final de Condillac, nos avisa Derrida (1979, p. 61), é que, ao retomar à “[...] camada pré-semiótica da necessidade prática, ele pretende instituir ou restaurar todas as linguagens científicas, todos os discursos teóricos [...]”.

Estas cadeias de operações irão municiar o homem, com os elementos que irão lhe possibilitar, a partir de então, refletir, que seria [...] “Esta maneira de, por nós próprios, prestarmos a nossa atenção alternadamente a diversos objetos, ou as diferentes partes de um só [...]” (CONDILLAC, 1979, § 48).

A partir do efeito dos sinais, que são ao mesmo tempo cognitivos e comunicativos, explica Ricken, [...] diversos níveis de procedimentos intelectuais advindos da percepção sensória puderam, gradativamente, desenvolver-se em processo de mútua relação”.  (RICKEN, 2000, p. 220-221). Esta explicação de Ricken confirma a síntese feita por Monzani (1993), a saber, de que Condillac, ao estudar minuciosamente a formação da linguagem, mostrará que:

[...] através de um jogo de operações elementares (percepção, imaginação, memória etc.), os homens, primeiro, estabelecem uma linguagem prática e utilitária estruturada única e exclusivamente em função de suas necessidades e, segundo, que, progressivamente, passam à invenção de signos não-naturais. E, nesse momento, produz-se uma verdadeira reviravolta já que, nesse nível de linguagem, é possível tratar sucessivamente o simultâneo, torna-se assim possível a análise, a qual implica um desdobramento do ato. Nasce então a possibilidade de reflexão. (MONZANI, 1993, p. 13-14).

Ainda a partir da Arqueologia de Derrida podemos entender que, para Condillac, “[...] a sua teoria dos signos e da linguagem [seria] o sistema daquilo que desenvolve ou ‘põe em ação’ o gérmen sensível e elementar, material que é objeto da primeira parte. [...] O princípio da analogia, a analítica analógica, assegura a passagem, a unidade, o poder sintético entre os dois termos desta oposição.” (DERRIDA, 1979, p. 22).

E eis que um elemento determinante é identificado por Condillac enquanto dispositivo para toda e qualquer cadeia de ligação de ideias que ser irá estabelecer: a combinação. Para Condillac, no Ensaio, será partindo da combinação entre ideias simples e destas com outras ideias mais complexas e destas com outras que se dará a sucessão da ligação que promoveria a sofisticação do raciocínio. Será a cadeia de combinações que propiciará a criação de novas ideias, de novos signos e novos saberes. Assim, não criaríamos ideias, simplesmente as combinaríamos de modo diferente a partir de composições e decomposições, sendo que a origem da primeira, a ideia original, partiria sempre das sensações. Diz Condillac, cap. XI, § 104: “Nós não criamos ideias, a única coisa que fazemos é ligar as composições e decomposições, as ideias recebidas, por meio dos sentidos. A invenção é saber formar novas ligações”.

Esta orientação construída por Condillac visa uma nova Lógica, sugere Derrida, que é a de que a “adição do novo surge unicamente da associação ou complicação – ligação analógica – dum número finito de dados simples”. (grifo nosso, 1979, p. 33).

O signo é dispositivo necessário para que haja a ligação de ideias e tudo que será decorrente delas. Condillac, no § 39 da segunda seção do Ensaio, pergunta-se:

 

Eu disse que a análise é o único segredo das descobertas, mas perguntar-se-á, qual o segredo das análises? A ligação de ideias. Quando quero refletir sobre um objeto, reparo primeiramente que as ideias que dele tenho estão ligadas às que não possuo e que procuro. Seguidamente, observo que tanto umas como as outras se podem combinar de muitas maneiras, e que consoante variem as combinações, existe entre as ideias maior ou menor ligação. Posso, portanto, supor uma combinação em que a ligação é tão grande quanto pode sê-lo; e várias outras em que a ligação vai diminuindo, de tal maneira que cessa por fim de ser sensível. Se perspectivo um objeto sob um ponto de vista que não tem qualquer ligação sensível com as ideias que procuro, nada encontrarei. [...] Mas desde que considere um objecto pelo lado que tem maior ligação com as ideias que procuro, então descobrirei tudo.

 

Daí advém que o uso da linguagem é que possibilitará a criação de novos pensamentos por meio de novas combinações e ligações de ideias, que tem por base, os sinais, que, por sua vez, estão condicionados à imaginação e também à ligação entre as ideias (RICKEN, 2000). Mas a origem dos percursos que culmina na possibilidade de ligação de ideias, está na necessidade. Derrida (1979, p. 57) acentua que “Força, analogia, significação, serão sempre ordenadas numa teoria da necessidade”. 

Outra hipótese de Condillac é que a evolução da linguagem, assim como a do pensamento e a da sociedade, se deu de modo comum, compartilhado e gradual.  A capacidade de comunicação pertence a todos os seres vivos, mas a de reflexão caberia apenas ao homem, pelo fato deste ter desenvolvido a linguagem. Ao mesmo tempo em que esta capacidade de refletir torna-se possível a partir do uso da linguagem em sociedade, é também este uso que permitirá à linguagem evoluir e se sofisticar e, com isto, subsidiar novos saberes. A linguagem também se torna um recurso social que possibilita ao homem permutar e comercializar saberes em diferentes tempos tornando-se concomitantemente uma “[...] condição para o desenvolvimento histórico da sociedade”. (RICKEN, 2000, p. 222).

Segundo tal concepção, a linguagem ocupará o lugar de conexão entre o cognitivo e o social e como decorrência disto, seguindo um percurso analítico, decorreriam todas as demais operações, habilidades e invenções humanas.

 

4 LINGUAGEM, INFORMAÇÃO, TECNOLOGIA

 

Uma justificativa para esta aproximação arriscada ao empirismo de Condillac e que sugere uma possível conexão do pensamento do filósofo com os estudos da informação e das tecnologias de mediação, tem como um de seus pontos de partida a obra Language, Action, and context: the early history of pragmatics in Europe and America 1780–1930, de Brigitte Nerlich e David D. Clarke (1996), da Universidade de Nottingham, que apresenta uma das possíveis trajetórias dos estudos proto-pragmáticos e pragmáticos. Ao mesmo tempo toma como um de seus pontos de apoio às discussões apresentadas no texto “The Hume machine: can association networks do more than formal rules?” de Geneviève Teil e Bruno Latour (1995).  Na obra de Nerlich e Clarke (1996), são apresentadas perspectivas históricas e filosóficas sobre as origens e as formalizações possíveis da Pragmática, que por sua vez mereceriam melhores detalhamentos em estudos futuros. Mas o destaque que damos a esta obra diz respeito ao percurso apresentado da proto-pragmática, isto é, dos estudos e das teorias preliminares que posteriormente convergiram em correntes que teriam dado origem a pragmática e também ao pragmatismo. O recorte geográfico e temporal feito pelos autores (Europa e América de 1780 a 1930) nos colocou ainda mais em contato com um dos principais filósofos e pensadores proto-pragmáticos da linguagem, que foi Étienne Bonnot de Condillac (1715 – 1780). A protopragmática é apresentada, principalmente no contexto Alemão, Frances e Inglês. Para Nerlich e Clarke (1996), em algum nível a teoria dos atos de fala, estariam implícitos já na obra Condillaquiana e que suas premissas teriam sido fundamentais para a constituição da pragmática do século XX. Para a proposta deste artigo, este livro foi decisivo para contextualizar o pensamento de Condillac na trajetória dos estudos proto-pragmáticos e para servir como ponto de partida, para buscarmos compreender de modo mais ampliado a sua filosofia.

Passamos tangencialmente pela obra de Teil e Latour (1995). Neste trabalho os autores reconhecem na filosofia de Hume e de Condillac, outras possibilidades de compreensão sobre as formas de construção e refinamento do pensamento e do conhecimento e procuram formular uma modelagem computacional que contemplaria também estas possibilidades de associação – que se estabelecem no nível da linguagem – para construção, organização e identificação de conteúdos. Assim, o processo de construção dos saberes, sugerido por Hume em uma perspectiva, e em Condillac por outra, é a base do que Tiel e Latour seguiram para propor um novo modelo computacional de busca e recuperação da informação contextual The Hume machine.

Na Ciência da Informação nacional, identificamos apenas um único trabalho sobre a obra Condillaquiana que sinaliza, de modo mais concreto, o quanto a estrutura analítica de compreensão da linguagem proposta pelo abade, interferiu e pode ainda influenciar a constituição de sistemas de representação do conhecimento. Saldanha e Silva (2017) traçam a influência de pensamentos de Condillac em Peignot, na construção e configuração de “sistemas bibliográficos”. Para os autores, Peignot buscará a compreensão da estruturação das ciências a partir da própria constituição do método analítico da linguagem, e para tanto, recorre a Condillac (como também a Bacon, Diderot, D’Alembert).

Almejou-se com este ensaio, apenas descrever, mesmo que de modo muito fragilizado, uma explanação sumarizada sobre o entendimento obtido sobre a proposta filosófica de Condillac, entendendo-a como uma filosofia potencial aos estudos informacionais uma vez  que serviria para a ampliação sobre nossa compreensão das origens daquilo que concebemos hoje como linguagem, como signo, como informação.

 

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS SOBRE OS LUGARES DA LINGUAGEM

 

Até o presente momento, nos deparamos com raros estudos em Ciência da Informação, dedicados ao pensamento de Condillac e de modo nominado, a própria protopragmática, que ainda requer melhor definição e demarcação conceitual. Mas mesmo não sendo possível afirmar categoricamente que o projeto filosófico de Condillac teria sido o de promover uma teoria da linguagem, ou ainda, uma ciência semiótica, é perceptível que a linguagem é central em sua filosofia, e sendo a linguagem, central aos estudos da informação, Condillac passa também a nos interessar.

O filósofo teria dado seguimento, em certa medida, ao sensorialismo de John Locke e teria deflagrado um debate contra o racionalismo de sua época. “Uma nova fundamentação da origem, isto é, de que todas as idéias provêm das experiências sensórias, levou a extensas conseqüências nos campos da antropologia, da teoria social e da teoria científica”, afirma Ricken (2000, p. 215).  Neste percurso, Condillac assumiria veementemente uma “crítica radical à teoria racionalista das idéias inatas” e defenderia “a tese de que todas as nossas ideias se originam a partir da experiência” (MONZANI, 1993, p. 8).

À primeira vista poderíamos então dizer que Condillac se dedicou a trilhar o percurso que origina o conhecimento procurando identificar e mapear todas as operações e as possibilidades de ligações que permitem suas realizações, considerando que o ponto de partida para tal programa é a experiência, as percepções primeiras e elementares. Em Condillac, “[...] tudo o que conhecemos são sensações transformadas”. (MONZANI, 1993, p. 17).

Em um processo de derivação, Condillac estrutura um trajeto que culmina na decupagem e posterior reordenação de processos que possibilitam recolocar o papel da linguagem como dispositivo central dos saberes humanos construídos. A reflexão então, enquanto operação essencial que irá amalgamar o desenvolvimento do conhecimento, tem como pré-requisito a existência e a articulação da linguagem. “O ato de pensar é, com auxílio de sinais, uma percepção sensória transformada”, explica Ricken (2000, p. 221). Seria então, “[...] o ‘uso dos signos’, não uma função secundária do espírito, mas a causa das mais altas operações do pensamento” sumariza Leroy, tendo sido citado por Monzani (1993, p. 14); e eis que aqui identificamos mais um lugar da linguagem na filosofia de Condillac. É neste ponto que acreditamos estar o lugar central da linguagem na filosofia de Condillac, mas existiriam outros...

Ao longo deste texto, tentamos apenas e de modo ainda fragmentado, pincelar o percurso concebido por Condillac para apresentar a linguagem no percurso da cadeia de operações da alma que possibilitam a criação e a comunicação dos conhecimentos humanos e a partir das breves discussões estabelecidas arriscaríamos dizer que a linguagem, enquanto “[...] sistemas de signos arbitrários” (DERRIDA, 1979, p. 70) ocupa alguns lugares na filosofia de Condillac: o de condição para a correção da metafísica; o de resultado de uma sucessão de operações da alma humana que tem como ponto de partida os sentidos e a percepção; o de ser um recurso utilizado pelo cérebro humano para ligar as ideias, construir reflexões, entendimento e conhecimento; o de recurso comunicativo essencial para o avanço da vida em sociedade já que as construções linguísticas são lugares que exprimem aspectos culturais e políticos de um povo. Terá a linguagem também o lugar de protagonista da construção das ciências e das artes. Terá ela o lugar determinante na construção dos homens de talento. Mas também a linguagem ocupará o lugar do desvio, do erro e do pensamento equivocado, da loucura. Ao mesmo tempo será ela o próprio antídoto sobre os males que pode causar. Será da linguagem o lugar de criação da própria linguagem, a partir de seu uso constante, de seu apuramento e de sua sofisticação. Caberá a ela, o lugar da descoberta, da criação e da inovação.

Ao final deste breve percurso as margens do pensamento condillaquiano, seguido por leituras paralelas a obra Language, Action, and context: the early history of pragmatics in Europe and America 1780–1930 de Brigitte Nerlich e David D. Clarke, 1996,  e as orientações e leituras compartilhadas na disciplina História da Filosofia Moderna (PPGFIL/UFSCar), é que nos foi plausível entender porque Tiel e Latour recorrem a Condillac quando se propõem a pensar a modelagem de um sistema de informação contextual.

Ainda que Condillac não tenha se ocupado especificamente da Informação, evidentemente até pelo contexto histórico em que seu pensamento e duas obras foram produzidas, seu pensamento nos sugere pensar a informação enquanto um procedimento da linguagem, que por sua vez, irá se sofisticar a partir de suas trocas e usos sociais, sendo que este comércio informacional, será também determinante para refinar as estruturas individuais e coletivas de produção, significação da informação. A informação esta na relação do homem com o mundo, como instrumento para objetivação deste mundo, mas também é matéria prima para modelar as próprias faculdades humanas.

Seja para lançar luz sobre o processo de formação da linguagem seja para sinalizar os limites de seu apuramento e controle, vislumbramos ao menos reconhecer, de modo agora mais evidenciado, que temos, na Ciência da informação, um objeto hibrido de pesquisa - linguagem/informação – e se almejamos lidar com os fluxos que regem sua produção, seu registro e seu uso, precisaremos reconhecer cada vez mais como se dá a sua concepção e os seus usos.

REFERENCIAS

 

CONDILLAC, Etienne Bonnot de. Ensaio sobre a origem dos conhecimentos humanos. Lisboa: Via Editora, 1979.

DERRIDA, J. Arqueologia do frívolo. In: CONDILLAC, Etienne Bonnot de. Ensaio sobre a origem dos conhecimentos humanos. Lisboa: Via Editora, 1979.

FERRATER MORA, J. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Edições Loyola, 2001, 4 vols.

GUEDES, R. de M. MOURA, M. A. The Principle of Semantic Warrant and the Study of Language: Conceptual Reflections. Knowledge. Organization. v. 43, n. 2, 2016.

MONZANI, L. R. “O empirismo na radicalidade”. In: CONDILLAC, É. Tratado das sensações. Campinas: Ed. Unicamp, 1993, pp. 7-23.

NERLICH, B. CLARKE, D. D. Language, Action and Context: the early history of pragmatics in Europe and America 1780-1930.  Amsterdam: John Benjamins Publishing Company, 1996.

RICKEN, U. Etienne Bonnot de Condillac: Iluminismo como antropologia sensorialista e filosofia da linguagem. In: KREIMENDAHL, L. (org). Filósofos do século XVIII: uma introdução. São Leopoldo, RS: Editora Unisinos, 2000.

SALDANHA, Gustavo Silva. Uma filosofia da Ciência da Informação: organização dos saberes, linguagem e transgramáticas. 2012. 438 f. Tese (Doutorado em Ciência da Informação) - Universidade Federal do Rio de Janeiro / Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia, Rio de Janeiro, 2012.

SALDANHA, G. S.; SILVA, L. K. R. Os sistemas bibliográficos em gabriel peignot: uma metabibliografia científica.Perspectivas em Ciência da Informação, v. 22, p. 96-119, 2017.

TIEL, G. LATOUR, B. The Hume-Machine can association networks do more than formal rules?  Stanford Humanities Review. v.4, n.2, 1995, p. 47-66.

 



[1] Professora Adjunto da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), vinculado ao Departamento de Ciência da Informação. Docente do programa de Pós-Graduação em Ciência, Tecnologia e Sociedade na mesma instituição. Atuação em Ciência da informação, Organização do Conhecimento, Filosofia da informação.

[2] O conteúdo ora apresentado sobre Condillac é resultado das reflexões desenvolvidas junto ao Programa de Pós-Graduação em Filosofia da UFSCar, durante a disciplina “História da filosofia moderna 2”, ministrada pelo Dr. Fernão de Oliveira Salles dos Santos Cruz, um dos principais pesquisadores brasileiro que tem se dedicado ao filósofo francês e que tem, atualmente, como Projeto de Pesquisa: “Teoria da linguagem e empirismo em Condillac”.  O Ensaio obra foi integralmente traduzido e publicado em 2018, pela editora Unesp, em língua portuguesa, garantindo a ampliação e aceleração de sua inserção nas pesquisas brasileiras.

Apontamentos

  • Não há apontamentos.


URL da licença: https://creativecommons.org/licenses/by/3.0/br/

 
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons Atribuição 4.0 Internacional (cc BY 4.0)
 
 Logeion: Filosofia da Informação - e-ISSN 2358-7806, IBICT.