Inclusão Social, Vol. 1, No 1 (2005)

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O cuidado

O cuidado essencial: princípio de um novoethos

Leonardo Boff

Professor emérito de ética e ecologia da UERJ, professor visitante em Harvard, Salamanca, Basel e Heideberg, autor de mais de 50 livros na área da teologia, filosofia, ética e ecologia.

E-mail: cristianomiranda@leonardoboff.com.br

Resumo

Este artigo analisa o conceito de cuidado, em sua origem filológica, desde os tempos dos gregos e latinos. Trabalho está intimamente relacionado ao conceito de cuidado. Pelo trabalho a razão constrói seres simbióticos. Pelo cuidado se chega a uma sintonia com as coisas, a uma convivência amorosa. Trabalho é plasmação da natureza, atividade criativa. Cuidado é pathos, introspecção, emoção, um sentimento que permanece indelével.

Palavras-chave

Ethos; Filologia de cuidado; Conceito de cuidado;

Modo-de-ser-no-mundo do trabalho; Modo-de-ser do cuidado.

Essential care: principle of a new ethos

Abstract

This article analyzes the concept of care, in its philological origin, since the ancient times of Greek and Latin cultures. The concept of work is intimately related to the one of care. By the work reason builds up symbiotic beings. By care one comes to a syntonization with things, to a side-by-side love living. Work is remodeling of nature, creative activity. Care is pathos, introspection, emotion, a sentiment that lasts forever.

Keywords

Ethos; Philology of care; Concept of care; Way-of-being-in the labor world; Way-of-being of care.

 

Mais e mais hoje, na crise ecológica e civilizacional, recorre-se ao cuidado como categoria matricial, capaz de inspirar um novo acordo entre os seres humanos e uma nova relação para com a natureza. Nós mesmos, em um estudo mais alentado sob o título Saber Cuidar: ética do humano-compaixão pela Terra (Vozes, Petrópolis, 1999), procuramos dar corpo a essa demanda. Estamos convencidos da fecundidade dessa categoria, pois ela implica uma nova definição do ser humano e de sua missão no conjunto dos seres. A famosa fábula 220 do filósofo romano Higino definia exatamente o ser humano como um ser-de-cuidado, coisa que foi assumido com profundidade por Martin Heidegger em Ser e Tempo.

Vamos aprofundar um pouco esta questão, começado por traçar os contornos desta categoria matricial do cuidado. Comecemos pela fenomenologia do cuidado.

Por femenologia entendemos a maneira pela qual o cuidado se torna um fenômeno para a nossa consciência, mostra-se em nossa experiência e concretiza-se em nossas práticas. Não se trata, em fenomelogia, de pensar e falar sobre o cuidado como um objeto independente de nós, mas de pensar e falar a partir do cuidado como ele se realiza e se desvela em nós mesmos.

Nós não temos apenas cuidado. Nós somos cuidado. Isto significa que cuidado possui uma dimensão ontológica*, quer dizer, entra na constituição do ser humano. É um modo-de-ser singular do homem e da mulher. Sem cuidado, deixamos de ser humanos. Martin Heidegger (1889-1976), o filósofo do cuidado, por excelência, mostrou que realidades tão fundamentais como o querer e o desejar se encontram enraizadas no cuidado essencial (Ser e Tempo, § 41, p. 258). Somente a partir da estrutura do cuidado, elas se exercem como dimensões do humano.

O cuidado, comenta adiante este filósofo, é “uma constituição ontológica sempre subjacente” a tudo o que o ser humano empreende, projeta e faz; “cuidado subministra preliminarmente o solo em que toda interpretação do ser humano se move” (§ 42, p. 265). Quando diz “constituição ontológica”, significa: entra na definição essencial do ser humano e determina a estrutura de sua prática. Quando fala do cuidado como “solo em que toda a interpretação do ser humano se move”, significa: o cuidado é o fundamento para qualquer interpretação que dermos do ser humano. Se não tomarmos o cuidado por base, não conseguiremos compreender o ser humano. Ele funda um novo ethos, no sentido originário da palavra ethos na filosofia grega: a forma como organizamos nossa casa, o mundo que habitamos com os seres humanos e com a natureza.

A FILOLOGIA DA PALAVRA CUIDADO

Talvez uma primera abordagem do núcleo central de cuidado se encontre na filologia da palavra. Como os filósofos sempre nos advertem, as palavras estão grávidas de significados existências. Nelas os seres humanos construíram uma acumulação de infindáveis experiências, positivas, negativas, experiências de busca, de encontro, de certeza, de perplexidade e de mergulho no Ser. Precisamos desentranhar das palavras essa riqueza escondida. Normalmente as palavras nascem dentro de um nicho de sentido originário. A partir daí, desdobram outras significações afins. Assim parece ser com a origem da palavra cuidado. Consultando clássicos dicionários de filologia*, chegamos ao seguinte resultado:

Em latim, donde se derivam as línguas latinas e o português, cuidado significa Cura. Cura é um dos sinônimos eruditos de cuidado, utilizado na tradução do famoso Ser e Tempo, de Martin Heidegger. Em seu sentido mais antigo, cura se escrevia em latim coera e se usava em um contexto de relações humanas de amor e de amizade. Cura queria expressar a atitude de cuidado, de desvelo, de preocupação e de inquietação pelo objeto ou pela pessoa amada Outros derivam cuidado de cogitare-cogitatus e de sua corruptela coyedar, coidar, cuidar. O sentido de cogitare-cogitatus éo mesmo de cura: cogitar e pensar no outro, colocar a atenção nele, mostrar interesse por ele e revelar uma atitude de desvelo, até de preocupação pelo outro. O cuidado somente surge quando a existência de alguém tem importância para mim. Passo então a dedicar-me a ele; disponho-me a participar de seu destino, de suas buscas, de seus sofrimentos e de suas conquistas, enfim, de sua vida.

* Para a filologia da palavra cuidado, é útil consultar as seguintes fontes: cura, em Thesaurus Linguae Latinae vol. 4, Leipzig 1909, col. 1451-1476; Paulys Realencyclopediae der classischen Altertumswissenschaft vol. 8, Stuttgart 1901, col. 1773; A. Ernout e A. Meillet, Dictionnaire Ethymologique de Ia Langue Latine, Paris 1939, 245-246; cuidado, Caldas Aulete, Dicionário Contemporâneo da língua portugesa, Edições Delta, Rio de Janeiro 1985; Antenor Nascentes, Dicionário Etimológico resumido, Instituto Nacional do Livro, Rio de Janeiro 1966; Antônio Geraldo da Cunha, Dicionário Etimológico Nova Fronteira da língua portuguesa, Nova Fronteira, Rio de Janeiro 1991.

Cuidado significa, então, desvelo, solicitude, diligência, zelo, atenção, bom trato. Trata-se, como se depreende, de uma atitude fundamental. Como dizíamos anteriormente, cuidado implica um modo-de-ser mediante o qual a pessoa sai de si e se centra no outro com desvelo e solicitude. Temos, nas línguas latinas, a expressão “cura d’almas” para designar o sacerdote ou o pastor cuja incumbência reside em cuidar do bem espiritual das pessoas e acompanhá-las em sua trajetória religiosa. Tal diligência não se faz sem fino trato, sem zelo e dedicação, semesprit definesse, como convém às coisas espirituais.

A atitude de cuidado por uma pessoa pode provocar preocupação, inquietação e sentido de responsabilidade por ela. Assim, por exemplo, dizemos: “essa criança é todo o meu cuidado (preocupação)”; ou como escreveu o Padre Antônio Vieira, clássico de nossa língua: “estes são, amigo, todos os meus cuidados (minhas inquietações)”. Um antigo adágio rezava: “quem tem cuidados não dorme”; ou “entreguei meu filho aos cuidados do diretor da escola” (coloquei-o sob sua responsabilidade). Os latinos conheciam a expressão dolor amoris (dor de amor) para expressar a cura e o cuidado para com a pessoa amada.

Cuidado, pois, por sua própria natureza, inclui duas significações básicas, intimimamente ligadas entre si. A primeira designa a atitude de desvelo, de solicitude e atenção para com o outro. A segunda nasce desta primeira: a preocupação e a inquietação pelo outro, porque nos sentimos envolvidos e afetivamente ligados ao outro.

Com razão, o grande poeta latino Horácio (65-8 a.C.) podia finamente observar: “O cuidado é o permanente companheiro do ser humano”. Quer dizer: o cuidado sempre nos acompanha, porque nunca deixaremos de amar alguém e nos desvelar por ele (primeiro sentido); nunca também deixaremos de nos preocupar e nos inquietar por essa pessoa amada (segundo sentido). Se assim não fora, não nos sentiríamos envolvidos com ela. Mostraríamos negligência e incúria por sua vida e destino. No limite, revelaríamos indiferença, que é a morte do amor.

DOIS MODOS DE SER-NO-MUNDO: TRABALHO E CUIDADO

Os dois significados básicos que colhemos da filologia de cuidado nos confirmam a idéia de que ele é mais que um ato singular ou uma virtude ao lado de outras. É um modo-de-ser, isto é, a forma como a pessoa humana se estrutura e se realiza no mundo junto com os outros. Melhor ainda: é uma forma de ser-no-mundo e, a partir daí, de relacionar-se com as demais coisas.

Quando dizemos ser-no-mundo não expressamos uma determinação geográfica como estar na natureza, junto com plantas, animais e outros seres humanos. Isso pode estar incluído. Mas ser-no-mundo é algo mais abrangente. Significa uma forma de estar presente, de navegar pela realidade e de relacionar-se com todas as coisas do mundo. Nessa navegação e nesse jogo de relações, o ser humano vai construindo o próprio ser, a autoconsciência e a própria identidade.

Podemos dizer que há dois modos básicos de ser-no-mundo: o trabalho e o cuidado. Consideremos cada um deles e suas mútuas implicações. Ai emerge o processo de construção da realidade humana.

a) O modo-de-ser do trabalho

O modo de ser-no-mundo pelo trabalho se dá na forma de interação e de intervenção. O ser humano é um ser por natureza criativo. Não vive em uma sesta biológica com a natureza. Pelo contrário: intervém nela, procura conhecê-la, identifica suas leis e ritmos, tira vantagens dela e torna seu modo de viver mais cômodo. É pelo trabalho que faz tudo isso. Por ele constrói o seu habitat. Adapta o meio ao seu desejo e conforma seu desejo ao meio. Pelo trabalho ele prolonga a evolução e introduz realidades que, possivelmente, a evolução jamais iria produzir, como um castelo, uma cidade, uma máquina, uma rede de comunicação. Pelo trabalho, ele co-pilota o processo evolutivo que se faz, então, co-evolutivo, vale dizer, a natureza e as sociedade humanas com suas organizações, sistemas, máquinas e cidades entram em simbiose e co-evoluem juntas.

De certa forma, o trabalho está presente no dinamismo da própria natureza. Uma planta ou um animal também trabalham, na medida em que interagem com o meio, trocam informações, mostram-se flexíveis e adaptam-se em vista à sobrevivência. No ser humano inteligente, porém, o trabalho se transforma em modo-de-ser consciente e assume o caráter de um projeto e de uma estratégia com suas táticas de plasmação da natureza.

Primitivamente o trabalho era mais uma interação do que uma intervenção na natureza. O ser humano mantinha uma relação de veneração e de comunhão com ela e somente utilizava aquilo de que precisava para sobreviver e tornar cômoda a vida. Podemos dizer que, desde o surgimento do homo habilis, entre 2 milhões a 1,6 milhão de anos atrás, quando se inventou o instrumento, começou o processo de intervenção do ser humano na natureza. Transformou-se em uma constante a partir do homo sapiens (do qual somos descentens diretos) cerca de 150 mil anos atrás. E instituíu-se como um processo orgânico a partir do neolítico, há cerca de 10 mil anos, quando o ser humano deixou as cavernas e começou a construir casas, vilas e sistemas de domesticação de animais e de plantas, processo que culmina com a tecnociência de nos nossos dias.

Foi pelo trabalho que os seres humanos formaram as culturas como modelação da natureza em consonância com seus projetos e valores. Nesse processo se revelava já a vontade de poder e de dominação sobre a natureza. Ela se reforçou quando o ser humano se sentiu desafiado pelos obstáculos que encontrava. Então aumentou sua agressividade e exasperou sua indústria e ingênio. Começou a utilizar um tipo de razão, a instrumental-analítica, pois essa é apropriada para a intevenção profunda na natureza. Esta faz com que o modo-de-ser do trabalho exija “objetividade”. Quer dizer, imponha um certo distanciamento da realidade a fim de estudá-la, acumular experiências com ela e assenhorear-se dela.

Cumpre enfatizar que os “objetos” não são objetos em si. São feitos objetos pelo ser humano, pois ele isola os seres de seu meio, separa-os de outros companheiros de existência e os reduz a meros objetos do interesse humano, coisa que a natureza não faz. A “objetividade” é uma projeção da razão. Como veremos logo a seguir, os ditos objetos, na verdade, são sujeitos, pertencem à comunidade cósmica e terrenal junto com os seres humanos.

Mas, à medida que foi avançando neste afã objetivista e coisificador, o ser humano criou os aparatos que lhe dispensam o desgaste das energias e aumentam as potencialidades de seus sentidos. Hoje mais e mais o trabalho é feito por máquinas, computadores, autômatos e robôs que substituem, em grande parte, a força de trabalho humano. Surge o que se convencionou chamar de cibionte: o superorganismo híbrido, feito de seres humanos, máquinas e redes de informação, portanto, a articulação do biológico, do mecânico e do eletrônico que formam nossas sociedades atuais com seres humanos simbióticos (relacionados com essas realidades).

A lógica do ser-no-mundo na forma de trabalho é o situar-se sobre as coisas para dominá-las e colocá-las a serviço dos interesse pessoais e coletivos. No centro está o ser humano, o que deu origem ao antropocentrismo. O antropocentrismo configura aquela atitude mediante a qual somente se vê sentido nas coisas à medida que elas se ordenam ao ser humano e satisfazem seus desejos. Esquece-se da relativa autonomia que cada coisa possui. Mais ainda olvida-se a conexão que o próprio ser humano guarda, quer queira quer não, com a natureza e com todas as coisas. Ele não deixa de ser também natureza e parte do todo. Por fim, ignora-se que o sujeito da vida, da sensibilidade, da inteligibilidade e da amorização não somos nós, mas é o próprio universo, no caso, a própria Terra, que por nós e em nós manifesta sua capacidade de sentir, de pensar, de amar e de venerar. O antropocentrismo desconhece todas estas imbricações.

Essa atitude de trabalho-poder-dominação do mundo corporifica a dimensão masculina no homem e na mulher. É aquela dimensão que, como vimos anteriormente, compartimenta a realidade para melhor conhecê-la e subjugá-la; usa de poder e até de agressão para alcançar seus objetivos utilitaristas; lança-se para fora de si na aventura do conhecimento e da conquista de todos os espaços da Terra e, nos dias de hoje, do espaço exterior celeste. Ele começou a predominar a partir do neolítico e atualmente chegou ao seu ponto culminante, na ocupação e hominização de toda a Terra.

b) O modo-de-ser do cuidado

A outra forma de ser-no-mundo se realiza pelo cuidado. O cuidado não se opõe ao trabalho, mas lhe confere uma modalidade diferente. Pelo cuidado não vemos a natureza e tudo que nela existe como objetos. A relação não é sujeito-objeto, mas sujeito-sujeito. Experimentamos os seres como sujeitos, como valores, como símbolos que remetem a uma realidade fontal. A natureza não é muda. Ela fala. Evoca. Emite mensagens de grandeza, beleza, perplexidade e força. O ser humano pode escutar e interpretar esses sinais. Coloca-se junto às coisas, ao pé delas e sente-se unido a elas. Não existe apenas. Co-existe com todos os outros. A relação não é de domínio, mas de convivência. Não é pura intervenção, mas principalmente interação e comunhão. É de cuidado das coisas.

Cuidar das coisas implica ter intimidade com elas, senti-las dentro, acolhê-las, respeitá-las, dar-lhe sossego e repouso. Cuidar é entrar em sintonia com as coisas. Auscultar-lhe o ritmo e afinar-se com ele. Cuidar é estabelecer comunhão. Não é a razão analítica-instrumental que é chamada a funcionar. Mas a razão cordial, o esprit de finesse (o espírito de delicadeza), o sentimento profundo. Mais que o logos (razão), éopathos (sentimento), que ocupa aqui a centralidade.

Este ser-no-mundo na forma do cuidado faz o homem e a mulher viverem a experiência fundamental daquilo que tem importância e definitivamente conta, em uma palavra, o valor. Não o valor utilitarista (só para o meu uso), mas o valor das coisas em si mesmas, oculto e revelado em sua natureza que irradia e se conecta com tudo e com todos. A partir do valor inerente às coisas, emerge a dimensão de alteridade, reciprocidade e complementariedade.

Todos nos sentimos ligados e religados uns com os outros, formando um todo orgânico único, diverso e sempre includente. Esse todo remete a um derradeiro Elo, que tudo religa, sustenta e dinamiza. Ele irrompe como Valor Supremo, que em tudo se vela e se revela. Esse Valor Supremo tem o caráter de Mistério, no sentido de sempre se anunciar em tudo e, ao mesmo tempo, recolher-se de tudo. Esse Mistério não é vivido como limite, mas como o ilimitado e o sem fronteiras do ser humano e do próprio mundo. Ele não mete medo. Fascina e se deixa experimentar como um grande Útero que, por ser Valor Supremo, realiza-nos supremamente. Ele também foi chamado de Deus.

Neste modo-de-ser do cuidado ocorrem também resistências e emergem também perplexidades. Elas, porém, são superadas pela paciência perseverante. No lugar da agressividade, há a convivência amorosa. Em vez da dominação, há a companhia ao lado e junto do outro.

Esse modo-de-ser do cuidado concretiza a dimensão feminina do ser humano, homem e mulher. Ela sempre esteve presente na história. Mas ganhou mais expressão histórica no paleolítico, quando as culturais eram matrifocais. Nesta época, vivia-se, como vimos anteriormente, a fusão com a natureza. As pessoas sentiam-se incorporadas no todo. Eram sociedades marcadas pelo profundo sentido do Sagrado do universo e pela reverência em face da misteriosidade da vida e do planeta Terra. As mulheres possuíam a hegemonia histórico-social e davam ao feminino, que não é exclusivo delas (os homens são também portadores de feminino), uma expressão tão profunda, que ficou na memória permanente da humanidade através de grandes símbolos, sonhos e arquétipos do feminino na cultura e no inconsciente coletivo.

A DITADURA DO MODO-DE-SER DO TRABALHO

O grande desafio para o ser humano é combinar trabalho com cuidado. Eles não se opõem. Mas se compõem. Limitam-se mutuamente e, ao mesmo tempo, complementam-se. Juntos constituem a integralidade da experiência humana, por um lado ligada à objetividade e por outro à subjetividade. O equívoco consiste em opor uma dimensão à outra, e não vê-las como modos-de-ser do único e mesmo ser humano.

A história, a partir das revoluções do neolítico, mostra-nos um drama de perversas conseqüências: a ruptura entre o trabalho e o cuidado. Lentamente começou a predominar o trabalho como afã nervoso, busca frenética de eficácia, de produção e de dominação crescente da Terra. Mas os últimos séculos, especialmente, a partir do processo industrialista do século XVIII, caracterizam-se pela ditadura do modo-de-ser trabalho como intervenção e produção. O trabalho não é mais relacionado com a natureza (modelação), mas com o capital (confronto capital-trabalho, analisado por Marx e Engels). O trabalho agora é trabalho assalariado, e não atividade de plasmação da natureza. As pessoas, homens e mulheres, vivem, então, escravizadas pelas estruturas do trabalho produtivo, racionalizado, objetivado e despersonalizado, e submetidas à lógica da máquina.

Um fino analista colombiano Luiz Carlos Restrepo diz, com razão, que todos nos fizemos herdeiros de Alexandre, o Grande (336-323 a.C.), o arquétipo do guerreiro e do conquistador (O direito à ternura, p. 21-24) Ora, a ideologia latente no modo-de-ser-trabalho é a conquista do outro, do mundo, da natureza, na forma da dominação pura e simples. Esse modo-de-ser mata a ternura, liquida o cuidado e distorce a essência humana.

Por isso, a dominação do modo-de-ser trabalho masculinizou todas as relações, abriu espaço para o antropocentrismo (dominação do ser humano, homem e mulher), o androcentrismo (dominação do homem), o patriarcalismo e o machismo. Estamos às voltas como expressões patológicas do masculino desconectado do feminino, o animus sobreposto à anima.

O cuidado foi difamado como feminilização das práticas humanas, como empecilho à objetividade da compreensão e como obstáculo à eficácia.

A ditadura do modo-de-ser trabalho está atualmente conduzindo a humanidade a um impasse crucial: ou pomos limites à voracidade produtivista, associando trabalho e cuidado, ou vamos ao encontro do pior. Pela exasperação do trabalho produtivo se exauriram recursos não renováveis e se quebraram os equilíbrios físico-químicos da Terra. A sociabilidade entre os humanos se rompeu pela dominação de povos sobre outros e pela luta renhida das classes. No ser humano não se vê outra coisa que sua força de trabalho a ser vendida e explorada ou sua capacidade de produção e de consumo. Mais e mais pessoas, na verdade dois terços da humanidade, são condenadas a uma vida insustentável. Perdeu-se a visão do ser humano como ser-de-relações ilimitadas, ser de criatividade, de ternura, de cuidado, de espiritualidade, portador de um projeto sagrado e infinito.

O ser-no-mundo exclusivamente como trabalho pode destruir o mundo. Daí a urgência atual de resgatar o modo-de-ser do cuidado essencial, como o seu corretivo indispensável. Então pode surgir o cibionte, aquele ser que entra em simbiose com a máquina, para melhorar sua vida, e não para desvirtuá-la.

O RESGATE DO MODO-DE-SER DO CUIDADO

O regate do cuidado não se faz às custas do trabalho. Mas mediante uma forma diferente de entender e de realizar o trabalho. Para isso, o ser humano precisa voltar-se sobre si mesmo e descobrir seu modo-de ser-cuidado.

Precisamos retomar a reflexão sobre a natureza do cuidado essencial. A porta de entrada não pode ser a razão calculatória, analítica e objetivística. Ela nos leva ao trabalho-intervenção-produção e aí nos aprisiona. Tanto é assim que as máquinas e os computadores mostram, melhor que os seres humanos, o funcionamento deste tipo de razão-trabalho.

Mas há algo nos seres humanos que não se encontra nas máquinas. Algo que surgiu há milhões de anos no processo evolucionário quando emergiram os mamíferos, dentro de cuja espécie nós nos inscrevemos: o sentimento, a capacidade de emocionar-se, de envolver-se, de afetar e de sentir-se afetado.

Um computador ou um robô não tem condições de cuidar do meio ambiente, de chorar sobre as desgraças dos outros e de rejubilar-se com a alegria do amigo. Um computador não tem coração.

Só os seres vivos, especialmente nós humanos, sim, podemos sentar à mesa com o amigo frustrado, colocar-lhe a mão no ombro, tomar com ele um copo de cerveja e trazer-lhe consolação e esperança. Construímos o mundo a partir de laços afetivos. Esses laços tornam as pessoas e as situações preciosas, portadoras de valor. Preocupamo-nos com elas. Tomamos tempo para dedicarmo-nos a elas. Sentimos responsabilidade pelo laço que cresceu entre nós e os outros. A categoria cuidado recolhe todo esse modo-de-ser. Mostra como funcionamos na condição de seres humanos.

Em conseqüência desta reflexão, evidencia que o dado originário não é ologos (a razão, as estruturas de significação). Mas o pathos (o sentimento, a capacidade de simpatia, de empatia, dedicação, cuidado e de união com o diferente). Tudo começa com o sentimento. É o sentimento que nos faz sensíveis a tudo o que está a nossa volta. Que nos faz gostar ou desgostar. É o sentimento que nos une às coisas e nos envolve com as pessoas. É o sentimento que nos produz o encantamento em face da grandeza dos céus, a veneração diante da complexidade da mãe Terra e o enternecimento diante da fragilidade e da vitalidade de um recém-nascido. Recordemos a frase do Pequeno Príncipe,de Antoine de Saint Exupéry, que fez fortuna na consciência coletiva dos milhões de leitores:” É com o coração (sentimento) que se vê corretamente; o essencial é invisível aos olhos”. É o sentimento que torna pessoas, coisas e situações importantes para nós. Esse sentimento profundo, repetimos, chama- se cuidado. Somente aquilo que passou por uma emoção, evocou-nos um sentimento profundo e provocou cuidado em nós deixa marcas indeléveis e permanece definitivamente em nós.

Toda a reflexão contemporânea, especialmente a partir da psicologia profunda de Freud, Jung, Adler, Rogers e Hillman, e hodiernamente, a partir da biologia genética, da teoria do caos, das estruturas dissipativas (Ilya Prigogine) e das implicações antropológicas da física quântica à la Niels Bohr (1885-1962) e Werner Heisenberg (1901-1976), resgatou a centralidade do sentimento, a importância da ternura, da compaixão e do cuidado.

Mais do que o cartesiano cogito ergo sum (penso, logo existe), vale o sentio ergo sum (sinto, logo existo). O livro de Daniel Goleman Inteligência Emocional se transformou em um best-seller mundial, porque, à base de investigações empíricas sobre o cérebro e a neurologia, mostrou aquilo que já Platão (427-347 a.C.), Santo Agostinho (354-430), a escola franciscana medieval (com S. Boventura e Duns Scotus), Pascal (1623-1662), Schleiermacher (1768-1834) e Heidegger (1889-1976) ensinavam há muito tempo: a estrutura básica do ser humano é opathos, é o sentimento, é o cuidado, é a lógica do coração. “A mente racional”, conclui Goleman (1995, p. 309), “leva um ou dois momentos mais para registrar e reagir do que a mente emocional; o primeiro impulso....é do coração, não da cabeça”.

O cuidado expressa execelentemente o caráter primacial do pathos e da emoção. O cuidado se encontra antes, está na origem da existência do ser humano. E essa origem não é apenas um começo temporal. A origem tem o sentido de fonte donde brota permanentemente o ser. Portanto, significa que o cuidado constitui uma presença ininterrupta, em cada momento e sempre, na existência humana. Cuidado é aquela energia que continuamente faz surgir o ser humano.

Um psicanalista atento ao drama da civilização moderna, como o norte-americano Rollo May, podia comentar: “Nossa situação é a seguinte: na atual confusão de episódios racionalistas e técnicos, perdemos de vista e nos despreocupamos do ser humano; precisamos agora voltar humildemente ao simples cuidado....; é o mito do cuidado – e creio, muitas vezes, somente ele – que nos permite resistir ao cinismo e à apatia, que são as doenças psicológicas do nosso tempo” (Eros e repressão, p.338; 340).

Nossa civilização precisa é superar a ditadura do modo-de-ser-trabalho. Ela nos mantém reféns do mundo das máquinas produtivas, escravos de uma lógica que hoje se mostra agressiva e destrutiva, da Terra e de seus recursos, das relações entre os povos, das interações entre capital e trabalho, da espiritualidade e de nosso sentido de pertença a um destino comum. Libertados dos trabalhos estafantes e desumanizadores, agora feitos pelas máquinas automáticas, recuperaríamos o trabalho em seu sentido antropológico originário, como plasmação da natureza e como atividade criativa, trabalho capaz de realizar o ser humano e de construir sentidos cada vez mais integradores com a dinâmica da natureza e do universo.

Importa colocar em tudo cuidado. Para isso, urge desenvolver a dimensão de anima, que está em nós. Isso significa: conceder direito de cidadania fundamental à nossa capacidade de sentir o outro; ter compaixão com todos os seres que sofrem, humanos ou não-humanos; obedecer mais à lógica do coração, da cordialidade e da gentileza do que à lógica da conquista e do uso utilitário das coisas. Dar centralidade ao cuidado não significa deixar de trabalhar e de intervir no mundo. Significa renunciar à vontade de poder que reduz tudo a objetos, desconectados da subjetividade humana. Significa impor limites à obsessão pela eficácia a qualquer custo. Significa derrubar a ditadura da racionalidade fria e abstrata para dar lugar ao cuidado. Significa organizar o trabalho em sintonia com a natureza, seus ritmos e suas indicações. Significa respeitar a comunhão que todas as coisas têm entre si e conosco. Significa colocar o interesse coletivo da sociedade, da comunidade biótica e terrenal acima dos interesses exclusivamente humanos. Significa colocar-se junto e ao pé de cada coisa que queremos transformar para que ela não sofra, não seja desenraizada de seu habitat e possa manter as condições de se desenvolver e co-evoluir junto com seus ecosistemas e com a própria Terra. Significa captar a presença do Espírito para além de nossos limites humanos, no universo, nas plantas, nos organismos vivos, nos grandes símios (gorilas, chimpanzés e orangotangos), portadores também de sentimentos, de linguagens e de hábitos culturais semelhantes aos nossos.

Estes são os antídotos ao sentimento de abandono que os pobres sentem e à percepção de descuido que os desempregados, aposentados, idosos e também jovens denunciam em todas as instituições sociais que já não se ocupam e preocupam com o ser humano, mas com a economia, com as bolsas, com os juros, com o crescimento ilimitado de bens e serviços materiais, apropriados pelas classes privilegiadas ao preço da dignidade e da compaixão necessária pelas carências das grandes maiorias. Este é o remédio que poderá impedir a devastação da biosfera e comprometer o frágil equilíbrio de Gaia. Este é o modo-de-ser que resgata nossa humanidade mais essencial, cuja força pode servir de plataforma para um novo ensaio civilizatório.

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