ARTIGO
criação, a socialização, a manutenção e a subjetivação de seres humanos e é essencial não só
para a reprodução da vida, mas também para a manutenção da força de trabalho no sistema
capitalista. O trabalho assalariado realizado em fábricas, minas e escritórios é subsidiado pelo
trabalho de reprodução social, que, em grande parte, ocorre nos lares e, via de regra, não é
remunerado. Esse trabalho foi feminilizado e sentimentalizado, sendo visto como “cuidado”
em vez de “trabalho” e, portanto, realizado sem remuneração, movido pelo “amor”, e não por
dinheiro (Arruzza et al., 2019, p. 109). Essa estrutura permitiu que alguns – especialmente
homens – fossem isentados da responsabilidade de cuidar, já que essa tarefa foi atribuída
principalmente às mulheres. Joan Tronto (2007, p. 292) descreve esse fenômeno como
“irresponsabilidade privilegiada”, conforme a qual certos grupos se beneficiam da delegação
desse trabalho sem arcar com suas obrigações:
[...] o trabalho de produção de pessoas é, na verdade, vital e complexo. Essa
atividade não apenas cria e mantém a vida no sentido biológico; ela também cria e
mantém nossa capacidade de trabalhar – ou o que Marx chamou de “força de
trabalho”. E isso significa moldar pessoas com atitudes, disposições e valores,
habilidades, competências e qualificações “certas”. Em resumo, o trabalho de
produção de pessoas supre algumas das precondições – materiais, sociais e culturais
– fundamentais para a sociedade humana em geral e para a produção capitalista em
particular (Arruzza et al., 2019, p. 52).
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Nesse sentido, a reprodução social no capitalismo se diferencia de outras sociedades
pela separação institucional entre a produção econômica e a reprodução social. Em sociedades
pré-capitalistas, o trabalho de reprodução – como a criação e o cuidado de pessoas – era
reconhecido como parte integrante do funcionamento social, mesmo que houvesse distinções
de gênero no trabalho58. No capitalismo, essa separação torna o trabalho de reprodução
invisível e desvalorizado relegando-o à esfera privada, principalmente como uma
responsabilidade das mulheres.
Enquanto o trabalho produtivo, realizado em fábricas, minas e escritórios, é
remunerado e reconhecido economicamente, o trabalho reprodutivo, necessário para a
manutenção da força de trabalho, é desconsiderado como “trabalho” e não é remunerado. Essa
separação reflete a lógica capitalista, que concentra valor apenas na produção voltada ao
mercado, enquanto o trabalho de reprodução social, crucial para sustentar a sociedade e o
próprio sistema capitalista, é tratado como uma função natural e privada das mulheres, sem o
devido reconhecimento econômico ou social.
Com essa argumentação, Fraser não pretende descredibilizar as conquistas emancipatórias das demandas de gênero no capitalismo, mas sim chamar a atenção para as contradições internas do
sistema, que tende a desestabilizar suas próprias bases ao explorar e desvalorizar o trabalho reprodutivo, expropriando-o. O foco não está em idealizar o passado, mas sim em reconhecer como
o capitalismo, apesar de seus avanços, depende de estruturas que geram crises, especialmente no que diz respeito à reprodução social e às condições de vida humana (Fraser; Jaeggi, 2020, pp.
50-51).
LOGEION: Filosofia da informação, Rio de Janeiro, v. 11, ed. especial, p. 1-17, e-7381, nov. 2024.