SEMIÓTICA DAS FAKE NEWS

a manipulação de dados e informação na era digital

Etefania Cristina Pavarina[1]

Universidade Estadual Paulista

e.pavarina@unesp.br

Valdirene Aparecida Pascoal[2]

Universidade Estadual Paulista

valdirene.pascoal@unesp.br

Alexandre Robson Martines[3]

Universidade Estadual Paulista

alexandre.martines@unesp.br

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Resumo

A Era Digital proporciona a rápida disseminação de informações e trouxe consigo desafios sem precedentes para a veracidade e para a confiabilidade dos dados compartilhados. As fake news se espalham ligadas a fatores como algoritmos de recomendação, bolhas informacionais e o comportamento dos usuários na web. Assim, é o objetivo desta pesquisa investigar os processos semióticos que sustentam a propagação e a aceitação de fake news em ambientes digitais como as redes sociais, analisando como signos, discursos e estratégias narrativas influenciam sua disseminação e distribuição. Aplicou-se uma metodologia de natureza qualitativa, do tipo exploratória, bibliográfica e de caráter interdisciplinar. Essa análise permite confrontar as nuances entre informação verídica e desinformação, destacando os desafios que essas questões impõem à sociedade e à pesquisa científica. Por isso, apresenta-se uma visão geral da teoria semiótica, que serve como aporte teórico-conceitual e metodológico para a construção dos resultados. Essa abundância, associada à rapidez com que os conteúdos são propagados e disseminados promove um ambiente propício para a manipulação dos usuários. Em suma, as fake news atuam como ruídos que comprometem a clareza e a integridade dos processos de significação, interferindo na formação e validação dos significados. Enquanto diferentes linhas da semiótica (peirceana, francesa ou a da cultura) oferecem perspectivas variadas sobre o que constitui informação, todas convergem para a ideia de que a manipulação de dados e de signos impede a construção de um sentido autêntico e verificável.

Palavras-chave: informação; fake news; teorias semióticas; veracidade informacional; manipulação de usuários.

 

 

 

 

 

SEMIOTICS OF FAKE NEWS

the manipulation of data and information in the digital age

Abstract

The Digital Age enables the rapid dissemination of information and has brought unprecedented challenges to the truthfulness and reliability of shared data. Fake news spreads due to factors su  ch as recommendation algorithms, informational bubbles, and user behavior on the web. Thus, this research aims to investigate the semiotic processes that support the propagation and acceptance of fake news in digital environments such as social networks, analyzing how signs, discourses, and narrative strategies influence their dissemination and distribution. A qualitative, exploratory, and bibliographic methodology with an interdisciplinary character was applied. The applied semiotic analysis method was used, allowing for the confrontation of nuances between truthful information and misinformation, highlighting the challenges these issues pose to society and scientific research. Therefore, an overview of semiotic theory is presented as a theoretical-conceptual and methodological framework for constructing the results. This abundance, combined with the speed at which content is propagated and disseminated, fosters an environment conducive to user manipulation. In short, fake news acts as noise that compromises the clarity and integrity of meaning-making processes, interfering with the formation and validation of meanings. While different branches of semiotics (Peircean, French, or cultural semiotics) offer varied perspectives on what constitutes information, they all converge on the idea that the manipulation of data and signs hinders the construction of an authentic and verifiable meaning.

Keywords: Information; fake news; semiotic theories; informational veracity; user manipulation.

SEMIÓTICA DE LAS FAKE NEWS

la manipulación de datos e información en la era digital

Resumen

La Era Digital proporciona la rápida diseminación de información y ha traído consigo desafíos sin precedentes para la veracidad y la confiabilidad de los datos compartidos. Las fake news se propagan vinculadas a factores como los algoritmos de recomendación, las burbujas informacionales y el comportamiento de los usuarios en la web. Por ello, el objetivo de esta investigación es examinar los procesos semióticos que sustentan la propagación y aceptación de fake news en entornos digitales como las redes sociales, analizando cómo los signos, discursos y estrategias narrativas influyen en su diseminación y distribución. Se aplicó una metodología de naturaleza cualitativa, de tipo exploratoria, bibliográfica e interdisciplinaria. Este análisis permite confrontar las nuances entre información verídica y desinformación, destacando los desafíos que estas cuestiones imponen a la sociedad y a la investigación científica. Por ello, se presenta una visión general de la teoría semiótica, que sirve como base teórico-conceptual y metodológica para la construcción de los resultados. Esta abundancia, asociada a la rapidez con la que los contenidos se propagan y diseminan, promueve un ambiente propicio para la manipulación de los usuarios. En resumen, las fake news actúan como ruidos que comprometen la claridad e integridad de los procesos de significación, interfiriendo en la formación y validación de los significados. Mientras que diferentes líneas de la semiótica (peirceana, francesa o de la cultura) ofrecen perspectivas variadas sobre lo que constituye información, todas convergen en la idea de que la manipulación de datos y signos impide la construcción de un sentido auténtico y verificable.

Palabras clave: Información; fake news; teorías semióticas; veracidad informacional; manipulación de usuarios.

 

1  INTRODUÇÃO

A Era Digital, caracterizada pela rápida disseminação de informações e pela ubiquidade das redes sociais, trouxe consigo desafios sem precedentes para a veracidade e para a confiabilidade dos dados compartilhados.  O crescimento exponencial no uso de plataformas sociais em escala global ampliou significativamente a quantidade de dados disponíveis para monitorar e prever tendências em diversas áreas da sociedade, como na economia (Teixeira; Jorge, 2021), nos negócios (Parchen; Freitas; Baggio, 2021), na política (Souza Júnior; Petroll; Rocha, 2023; Kim, 2023) e na saúde (Meirelles; Teixeira, 2022). Paralelamente, transformou profundamente a forma como a informação é produzida, disseminada e consumida.

Atualmente, as redes sociais consolidaram-se como a principal fonte de notícias sobre assuntos globais (Kim, 2023; Hamed; Aziz; Yaakub, 2023), mas também como um terreno fértil para a circulação de informações falsas, conhecidas como fake news. Esse fenômeno complexo e multifacetado tem o potencial de influenciar opiniões públicas, manipular comportamentos e até mesmo alterar resultados políticos (Pinheiro, 2021).

A velocidade com que as fake news se espalham está intrinsecamente ligada a fatores como algoritmos de recomendação, bolhas informacionais e o comportamento dos usuários na web (Prado, 2022). No entanto, a disseminação de notícias falsas vai além dos aspectos tecnológicos, constituindo-se como um processo semiótico complexo que envolve a construção de sentidos, a manipulação de signos e estratégias discursivas que reforçam ou negam sua veracidade.

Nesse contexto, a semiótica, como ciência que estuda os signos e os processos de significação na natureza e na cultura, emerge como uma ferramenta analítica poderosa para desvendar os mecanismos utilizados na construção e propagação de informações falsas. A interpretação dos signos, a análise dos códigos comunicacionais e a forma como os receptores atribuem significados à informação são elementos essenciais para compreender a estruturação e a persuasão das fake news.

A detecção de notícias falsas é um dos temas mais relevantes na pesquisa acadêmica contemporânea, podendo ser abordada sob múltiplas perspectivas disciplinares (Li; Lei, 2022). Embora os estudos que buscam soluções para mitigar a disseminação de fake news ainda estejam em estágios iniciais, observa-se um crescimento constante no volume de pesquisas dedicadas ao tema (Hamed; Aziz; Yaakub, 2023). No entanto, a complexidade do fenômeno exige a exploração de diversas vertentes de investigação, bem como o desenvolvimento de modelos de detecção que integrem abordagens interdisciplinares, considerando tanto aspectos técnicos quanto humanos.

A análise humana, guiada por uma compreensão profunda dos processos semióticos, desempenha um papel crucial na capacitação dos usuários para identificar nuances e intenções que máquinas não conseguem capturar plenamente, fortalecendo, assim, a resistência à manipulação informacional.

Nesse sentido, parte-se da hipótese de que a propagação de fake news na Era Digital não se deve apenas à automação dos algoritmos e à visualização impulsionada pelas plataformas, mas também à falta de estratégias semióticas que capacitam os usuários a reconhecer e resistir à manipulação das informações. Usuários que compreendem melhor os mecanismos de produção e interpretação dos signos têm maior capacidade de identificar informações falsas, além de desenvolverem uma postura crítica mais apurada, que contribui para a redução da propagação de fake news.

Dessa forma, esta pesquisa tem como objetivo investigar os processos semióticos que sustentam a propagação e a aceitação de fake news em ambientes digitais como as redes sociais, analisando como signos, discursos e estratégias narrativas influenciam sua disseminação e distribuição, com o intuito de debater estratégias eficazes de combate às fake news.

A justificativa para este estudo reside no fato de que a propagação de informações falsas não se limita a erros pontuais, mas envolve estratégias sofisticadas de manipulação semiótica, que exploram códigos visuais, linguísticos e emocionais para enganar e persuadir os usuários. Assim, a contribuição desta pesquisa não se restringe ao campo teórico da semiótica aplicada, mas estende-se à prática cotidiana de usuários que navegam em um ambiente cada vez mais saturado de desinformação, oferecendo ferramentas para fortalecer a integridade do ecossistema informativo digital.

 

2  REVISÃO DE LITERATURA

Esta seção tem como objetivo realizar uma revisão da literatura sobre os conceitos centrais que permeiam esta pesquisa, buscando estabelecer um alicerce teórico consistente para a compreensão dos fenômenos investigados. Para tanto, inicia-se com a definição do que se entende por dado. Em seguida, avança-se para a caracterização de informação, destacando-se que, diferentemente do dado, a informação não se define de forma estanque, mas se constrói a partir de contextos e interpretações.

No percurso dessa discussão, aborda-se um tipo específico de informação que ganhou relevância nos debates contemporâneos: as informações falsas, popularmente conhecidas como fake news. Essa análise permite confrontar as nuances entre informação verídica e desinformação, destacando os desafios que essas questões impõem à sociedade e à pesquisa científica. Por fim, apresenta-se uma visão geral da teoria semiótica, que serve como aporte teórico-conceitual e metodológico para a construção dos resultados desta pesquisa.

 

2.1  DADOS E INFORMAÇÃO

No contexto da Ciência da Informação e áreas correlatas, os conceitos de dado e informação são fundamentais para compreender os processos de coleta, organização, análise e disseminação do conhecimento. Embora frequentemente utilizados como sinônimos, esses termos possuem significados distintos e complementares, como será discutido a seguir.

A distinção fundamental reside na natureza e no grau de processamento. Dados são elementos brutos, fatos ou observações que, isoladamente, não possuem significado claro ou relevância. Assim, os dados são a matéria-prima que, quando processados, podem gerar informação (Oliveira, 2002).

Setzer (1999, p. 1) caracteriza os dados como “[...] uma sequência de símbolos quantificados ou quantificáveis” que “[...] podem ser totalmente descritos através de representações formais, estruturais”. Nesse sentido, os dados são representações simbólicas, como números, textos, imagens ou signos, que ainda não foram processados e/ou contextualizados.

Boell (2017) destaca que, em um nível amplo, duas concepções principais orientam a compreensão da informação na Ciência da Informação. A primeira adota uma visão simbólica, compreendendo a informação como dados que foram processados, organizados e contextualizados, adquirindo significado e utilidade. A segunda concepção posiciona a informação como um elemento intermediário entre dados e conhecimento, inserindo-a em uma hierarquia composta por níveis decrescentes de compreensão ou ordem. Nessa hierarquia, a informação é fundamentada em dados, o conhecimento é construído a partir da informação, e a sabedoria emerge do conhecimento.

Kettinger e Li (2010, p. 415) complementam essa perspectiva ao definir a informação como "[...] o significado produzido a partir de dados com base em uma estrutura de conhecimento que está associada à seleção do estado de prontidão condicional para atividades direcionadas a objetivos". Para esses autores, dados por si só não produzem informações para uma ação ou decisão, pois não têm associação inerente com as possíveis consequências de uma ação além da condição existente. Para gerar informações e reduzir a incerteza, o conhecimento é necessário. Nessa perspectiva, eles definem conhecimento como crença verdadeira justificada por uma elite qualificada, com implicações de generalização e verificável por evidências adicionais.

Mingers e Standing (2018) propõem uma taxonomia semiótica da informação, organizando-a em níveis sintático, semântico e pragmático. No nível sintático, a informação deve ser bem formada e estruturada; no nível semântico, deve ser significativa e compreensível dentro de um sistema linguístico apropriado; e no nível pragmático, deve ser correta em termos de veracidade e normas sociais. Desse modo, deve ser acrescido os aspectos de como afetam o usuário em suas escolhas e em sua forma de relacionar o conhecimento.

Nessa linha de pensamento, Mingers e Craing (2018) destacam que a informação deve ser verdadeira ou correta para ser considerada como tal. Informação falsa não é informação, mas desinformação ou misinformação. Para os autores, a informação é, portanto, o conteúdo proposicional verdadeiro ou verídico dos signos, independentemente de seus receptores ou observadores. Um signo falso, por exemplo, não transmite a informação que parece transmitir, mas ainda pode carregar informações sobre as reais razões de sua ocorrência.

Em contraposição, a informação também pode ser vista como uma abstração informal, associada à mente de um indivíduo e representando algo que possui significado para essa pessoa (Setzer, 1999). Essa caracterização, no entanto, não constitui uma definição precisa, pois, termos como "algo", "significativo" e "alguém" não são claramente delimitados. A informação, nesse sentido, transcende a formalização lógica ou matemática, estando intrinsecamente ligada à subjetividade humana.

Nesse sentido, McKinney e Boell (2023) reforçam que a informação não é um conceito estático ou singular, mas dinâmico que varia dependendo de contextos situacionais, temporais e culturais, bem como de suposições epistemológicas e do domínio de aplicação.

 

2.2  FAKE NEWS

A propagação de fake news, notícias fabricadas ou distorcidas que se apresentam como reportagens legítimas, representa um fenômeno complexo que desafia diversas áreas do conhecimento. Esta subseção explora a evolução histórica e conceitual de fake news, destacando como o ambiente digital intensificou sua circulação e como essa prática afeta não apenas o jornalismo, mas também os campos da comunicação, sociologia e ciência política. Ao mesmo tempo que a superabundância de informação exige o desenvolvimento da Competência em Informação, as fake news colocam em xeque as estruturas tradicionais de confiança e o debate público, influenciando comportamentos e decisões políticas.

O termo "fake news" emergiu com força no léxico global durante as eleições dos Estados Unidos (2016) e do Brasil (2018), quando conteúdos falsos foram instrumentalizados para manipulação política. Contudo, suas raízes remontam a reflexões anteriores sobre a relação entre verdade e poder. Hannah Arendt (2016), no século XX, já alertava para a erosão da verdade factual em regimes autoritários. Com a internet, o fenômeno ganhou escala inédita: notícias falsas passaram a ser produzidas em formato jornalístico, mas sem aderir a processos editoriais de verificação, distorcendo a realidade para fins ideológicos ou econômicos.

Acadêmicos como Wardle (2017) criticam a vagueza do termo "fake news", argumentando que ele simplifica um espectro complexo de práticas. Para superar essa limitação, o autor propõe-se a categoria "desordem informativa" que abrange três dimensões:

       Desinformação (disinformation): Conteúdos falsos criados intencionalmente para causar dano.

       Misinformação (misinformation): Informações enganosas compartilhadas sem má-fé.

       Malinformação (malinformation): Fatos verdadeiros divulgados de forma seletiva para prejudicar indivíduos ou grupos.

A ambiguidade do termo "fake news” também foi explorada politicamente, como no caso de Trump, que o usou para descredibilizar críticas midiáticas. Essa apropriação levou instituições jornalísticas a adotarem alternativas como "informação falseada", buscando maior precisão sem reforçar narrativas manipulativas. Outro ponto de destaque é que as fake news geralmente são financiadas, ou seja, a busca por lucro passa ser mais importante que a verdade e a ética. No que segue:

Quando a notícia e a informação se tornam produtos que visam lucro e o número de leitores e usuários produtos que vendem espaços de publicidade, o compromisso com a verdade e a ética são afrouxados, dando espaço para as conveniências comerciais, como aponta Serrano (2010) e Allcott e Gentzkow (2017). Esse modelo prepara terreno para as fake news, porque quem as produz não tem as barreiras de preocupação com a credibilidade, acionistas, anunciantes que sustentam o lucro a longo prazo e sim um interesse lucrativo de curto prazo e de velocidade (Brisola; Bezerra, 2018, p. 3326).

A explosão de dados digitais, prevista por Zurkowski em 1974, exigiu novas habilidades para filtrar informações, daí o conceito de Competência em Informação, promovido pela UNESCO. Contudo, a desintermediação (quebra de barreiras tradicionais, como editores e bibliotecas) permitiu que conteúdos não verificados circulassem livremente. Redes sociais como Facebook e WhatsApp, guiadas por algoritmos que priorizam engajamento emocional, tornaram-se vetores de viralização, alimentando bolhas informacionais e dicotomias. A combinação de desinformação e tecnologia fragiliza o debate público: usuários são expostos a conteúdos que reforçam vieses cognitivos, minando a confiança em instituições e na ciência. Casos como a campanha antivacina e a insurreição no Capitólio dos EUA (2021) ilustram como fake news podem ter consequências tangíveis, desde saúde pública até a estabilidade democrática.

Enquanto estudiosos do tema divergem sobre terminologias, como Allcott e Gentzkow (2017) e Serrano (2010), há consenso de que o fenômeno exige respostas sistêmicas: regulação de plataformas, educação midiática e reforço ao jornalismo crítico. A desordem informacional não é apenas um desafio técnico, mas um sintoma de crises mais profundas, como a desigualdade de acesso à informação e a desvalorização do espaço público. Combater suas raízes demanda, portanto, não apenas tecnologia, mas um projeto ético coletivo.

 

2.3  SEMIÓTICA E INFORMAÇÃO: SUAS VERTENTES TEÓRICAS

A informação se materializa em linguagem e, assim, ganha peculiaridades de sentido e significação. No processo de análise de sua veracidade, é preciso atentar-se aos fatores da cultura, aos aspectos correlacionados ao discurso, por conseguinte a fatores que envolvem o posicionamento do sujeito social e a constituição temática, bem como a situação e a intencionalidade, como ainda à conexão do simbólico com a realidade, através de instrumentos lógicos de representação e mediação dessa realidade a fim de analisar como afeta uma mente e estabelece sua conduta.

Nesse sentido, a informação modela as condições de compreensão da realidade e de como os símbolos culturais atuam na dinâmica sociedade e indivíduo, já que fatores cognitivos refletem e refratam os códigos sociais e os transformam em bases de atuação. Desse modo, a ação deliberada é decorrente de um conjunto de comandos e validações que efetivam e confirmam uma atuação ética frente ao outro. Assim, na constituição da legitimidade de comportamentos, a lógica ampara a mente na formação de conhecimentos que permitem a validação, o julgamento, a autocorreção e estratégias de interação com o devir.

Frente à complexidade acerca da constituição do sentido e da significação, teorias voltadas para o estudo da informação buscam instrumentalização nas teorias da linguagem e na filosofia da linguagem. Diante disso, a semiótica ganha espaço nessas discussões e estudos devido à sua natureza científica voltada para a semiose, ou seja, além de ser uma ciência que estuda os signos, a semiótica também se encarrega da significação e de como seus efeitos afetam uma mente, proporcionando-lhe novos conhecimentos.

Nessa linha, é válido destacar que a semiótica é uma ciência desenvolvida pelo estadunidense Charles Sanders Peirce (1839-1914), fundamentada em uma sistemática denominada arquitetura filosófica, em que a semiótica cumpre parte dessa teoria, atuando com um terceiro nível fenomenológico das ciências normativas, em que o objetivo central é estudar como a lógica atua na constituição de um hábito mental (Silveira, 2007).

Contudo, no início do século XX, outra linha de estudos se debruçou sobre as fundamentações do signo, denominada semiologia. Esse estudo foi explorado pelo linguística genebrino Ferdinand de Saussure (1857-1913). Em seu Curso de Linguística Geral, publicado em 1916, decorrente aos esforços de seus antigos discípulos, sua teoria preocupa-se em discutir a língua como sistema, portanto trazia o signo linguístico como veiculador do valor semântico constituído no âmago da interação social (Milani, 2016).

Somado a isso, é importante destacar uma terceira linha da semiótica, a qual se inspirou nos dois primeiros trabalhos e direcionada pelas diretrizes do formalismo russo, constituiu-se à base das trocas culturais e dos fundamentos que envolvem a informação, a comunicação e o simbólico. Nesse aspecto, Iuri Lótman (1922-1993) apresenta sua semiótica russa, ou também denominada semiótica da cultura (Schnaiderman, 1979).

Embora as três abordagens teóricas sejam denominadas semiótica, não devem ser confundidas, visto que cada uma apresenta um escopo teórico diferente das outras, como também se ajustam a epistemologias distintas.

A semiótica peirceana é de natureza sistêmica, organizada a partir das categorias fenomenológicas e apresenta uma instrumentalização para analisar o signo, aspectos que se enquadram na gramática especulativa (Peirce, 2017).  Nessa perspectiva, a tricotomia do signo se efetiva em representamen, objeto e interpretante. Cada elemento possui a sua própria tricotomia, sendo estas correlacionadas às categorias fenomenológicas: primeiridade (qualidade); secundidade (confronto; resistência); terceiridade (lei) (Peirce, 2017). Desse modo, a tricotomia do representamen é composta por qualissigno, sinsigno e legissigno; enquanto a tricotomia do objeto se efetiva por ícone, índice e símbolo; já a tricotomia do interpretante se apresenta por rema, dicente e argumento (Peirce, 2017).

A correlação das tricotomias gera a semiose. É através da semiose que se constitui o hábito mental, o qual estabelece a conduta frente ao devir (Silveira, 2007). Somado a isso, é importante destacar o papel da lógica pura, pois sua articulação incide na atuação do interpretante, já que é resultado de como a relação de representação entre representamen e objeto gera a mediação entre o signo do objeto e o signo do interpretante em uma mente que aprende (Peirce, 2017).

A lógica pura se constitui pela abdução, dedução e indução. Sua aplicação aos fatores que constituem o interpretante é estudada pela retórica especulativa ou também denominada metodêutica (Peirce, 2017). Assim, ocorre a constituição da informação no signo dicente e como efetiva a configuração do argumento, o qual conduz a semiose na formação do hábito. Somado a isso, à semiótica peirceana, ainda se aplica o pragmatismo, como método de inquirição e verificação da informação em confronto com a realidade a fim de garantir o autoajuste e a autocorreção (De Waal, 2007).

Já a semiótica francesa, proposta por Algirdas Julius Greimas (1917-1992) é decorrente da semiologia de Saussure. Como influência direta, essa abordagem é de natureza estrutural, organizada sob o percurso gerativo e aplica como elementos fundamentais o plano da expressão, o plano do conteúdo e o plano da imanência, conceitos apresentados pelo linguista Louis Hjelmslev (1899-1965) (Nöth; Santaella, 2017).

A semiótica francesa busca compreender o processo de significação que promove a transição do sentido manifestante no plano da expressão para a significação manifestada no plano do conteúdo, para isso verifica elementos inerentes a imanência do texto, fatores lógicos, elementos narrativos e sua performance no discurso, assim evidenciando elementos de isotopia, os quais se constituem através da aspectualização de temas e figuras que garantem a congruência do texto, oriundos da conexão de redes semânticas (Fontanille, 2008).

Para a sua efetivação, há a aplicação de elementos modais, os quais efetivam aspectos como querer, fazer, saber, poder e ser (Greimas; Fontanille, 1993). Esses aspectos, aplicados na Semiótica das paixões, obra de Greimas em conjunto com seu discípulo Jacques Fontanille, promoveram-se aspectos de composição como a fidúcia e a veridicção, que confere a validação do sentido do texto conforme os elementos presentes nas práxis enunciativas e discursivas, assim confrontando as modulações de sentido que se apresentam no enunciado com a composição dos elementos modais nas camadas de composição do texto, ou seja, na elaboração do enunciado, nas articulações da enunciação e nas categorizações do discurso (Greimas; Fontanille, 1993).

Por fim, a semiótica da cultura, por sua vez é de natureza formalista, organizada para atestar o valor do simbólico na configuração da produção cultural, assim é desenvolvida sob aspectos marxistas, em que predominam fatores do materialismo dialético na contemplação da verdade, que se efetivam entre a construção da linguagem cultural que se manifesta através de códigos que são pertinentes a um determinado grupo (Velho, 2009).

Sob esse aspecto, a análise da cultura é o ponto central das articulações propostas por essa linha da semiótica. Desse modo, estabelece-se uma semiosfera como condutora dos efeitos de sentido, ou seja, como a natureza faz parte de uma biosfera, a vida social, comandada por signos, constitui-se em uma semiosfera (Lotman, 1979).

Nesse sentido, cultura é compreendida como conjunto não genético de informações, o qual tramita por toda a vida, já que a construção da informação é decorrente do simbólico e este evidencia comportamentos, crenças e ações. Além disso, efetiva uma inteligência coletiva que efetiva mecanismos de relações sociais, as quais se confirmam em uma espécie de continuum semiótico, ou seja, as ações e os signos efetivam o que pertence a uma determinada cultura e aquilo que deve ser refutado (Velho, 2009).

A semiótica da cultura aceita o outro como regulador das ações sociais, isto é, a construção do conhecimento é oriunda das trocas que se estabelecem no confronto e no reconhecimento do outro como participante da cultura, portanto os valores não se constroem na crença do indivíduo, mas, sim, na complexidade de sua cooperação. Com isso, a memória da cultura cria o cosmo sígnico de cada grupo, no qual o outro se revela como participante da construção do saber a partir das trocas de experiências, ou seja, os integrantes de um grupo social constroem seus símbolos através de trocas e, não, sobrepondo verdades através de estratégias de dominação (Velho, 2009).

O contato entre culturas diferentes, por conseguinte informações diversas não gera a sobreposição, mas, sim, uma troca constante em que é possibilitado que essas informações sejam incorporadas ou refutadas a depender do contraste do conjunto de códigos disponibilizados em cada cultura. Dessa maneira, é possível aprender e evoluir quando há contato com outras informações, no entanto estabelecendo limites de seus valores, permitindo a acomodação e a assimilação conforme suas tradições, necessidades e relevância.

Em suma, cada corrente da semiótica apresenta fundamentos teóricos e metodológicos diferentes para tratar a informação, contudo observa-se que há preocupações basilares com a verificação do seu conteúdo, assim a semiótica permite que uma análise voltada para o conteúdo, portanto não presa apenas à forma, consequentemente demonstra que o processo de tratamento da informação deve ser ancorado na relação lógica com a realidade, na verificação das condições que constituem o discurso e na apresentação do simbólico que legitima as configurações de uma determinada cultura em sua semiosfera.

 

3  PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS

Esta pesquisa adota uma abordagem qualitativa, de natureza teórica, caracterizando-se, quanto aos objetivos, como exploratória. Para a fundamentação teórica, foi conduzida uma revisão bibliográfica nas bases de dados Google Scholar e Scopus, utilizando os seguintes termos-chave: "semiótica", "fake news" e "desinformação".  O método empregado para a análise foi a semiótica peirceana, que atua tanto como instrumento quanto como método de investigação (SANTAELLA, 1989).

Conforme Simões (2004), a semiótica, enquanto ciência e método, permite ao investigador compreender e organizar os esquemas disponíveis para a formulação de raciocínios relacionados à primeiridade (percepção), secundidade (sensação) e terceiridade (reação). Esses conceitos, aliados a aportes lógicos e filosóficos, possibilitam o redirecionamento da capacidade de captação dos signos e significações presentes na estrutura textual.

 

4  CAMINHOS SEMIÓTICOS PARA ANÁLISE DE FAKE NEWS

Como destacado nas seções anteriores, os dados, na Era Digital, quando entendidos como elementos brutos, são produzidos em uma escala sem precedentes. Essa abundância, associada à rapidez com que os conteúdos são propagados e disseminados pelas redes sociais (tais como Instagram e TikTok), promove um ambiente propício para a manipulação dos usuários. Alguns eixos podem ser estruturados para a análise e minimização do impacto das fake news conforme descritos no Quadro 1:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Quadro 1 Eixos de análise semiótica

Eixo

Descrição

Construção de Significados

A semiótica, enquanto ciência dos signos, permite analisar como os conteúdos são estruturados e interpretados. Por meio da análise dos elementos constituintes do signo, é possível identificar como determinados códigos visuais e linguísticos são manipulados para conferir uma aparência de veracidade a conteúdos falsos.

Estratégias Discursivas e Manipulação

A produção e a circulação de fake news dependem da manipulação intencional dos signos. Estratégias discursivas são empregadas para criar sentidos que, muitas vezes, distanciam-se da realidade factual. Quando os processos semióticos são distorcidos, por exemplo, ao utilizar símbolos que evocam confiança ou autoridade sem a devida fundamentação, a validação do conteúdo se torna ilusória, favorecendo a aceitação e propagação de informações manipuladas.

Resistência e Competência Crítica

Uma análise semiótica bem fundamentada pode empoderar os usuários, dotando-os de uma competência crítica que os torna capazes de identificar incoerências e manipulações nos discursos. Essa capacidade de interpretação dos signos é essencial para combater a desinformação, uma vez que possibilita diferenciar entre uma informação construída com base em uma estrutura de conhecimento validada e outra que apenas simula veracidade para fins manipulativos.

Integração entre Aspectos Técnicos e Humanos

Embora os algoritmos possam amplificar determinados conteúdos, a resistência à manipulação depende da interpretação humana dos signos. Usuários que compreendem os mecanismos de construção de sentido têm maior probabilidade de questionar e desconstruir narrativas manipuladoras, contribuindo para a redução da propagação de fake news.

Desenvolvimento de Estratégias Interdisciplinares

O desafio imposto pela manipulação dos dados exige abordagens que integrem tanto soluções tecnológicas quanto metodologias semióticas. Enquanto as ferramentas digitais podem identificar padrões de disseminação de informações, a análise semiótica fornece a base para entender como e por que determinados conteúdos são considerados legítimos ou manipulados em diferentes contextos comunicacionais.

Fonte: Elaboração própria.

Nos eixos de análise apresentados, é premente compreender que a manipulação dos dados, na Era Digital, insere-se em um contexto em que a produção de sentidos (mediada pelos processos semióticos) desempenha um papel determinante na validação ou invalidação dos conteúdos divulgados. Desse modo, a compreensão crítica dos signos e a integração de estratégias interdisciplinares se apresentam como ferramentas essenciais para atenuar os efeitos da desinformação e fortalecer a integridade do ecossistema informativo digital.

Na análise semiótica, uma fake news pode representar ruído na comunicação, limitando o processo de aprendizagem e a experiência cognitiva. Esse ruído emerge quando conteúdos distorcidos invadem o fluxo normal de signos, comprometendo a clareza e a integridade do sinal que, segundo a teoria peirceana, deve mediar a relação entre representamen, objeto e interpretante (Peirce, 2017; Silveira, 2007). Ao interromper esse processo, as fake news prejudicam a capacidade dos indivíduos de construir significados confiáveis, resultando em uma compreensão fragmentada e ambígua da realidade.

No entanto, a manipulação de dados pode configurar um novo sistema de comunicação, no qual os dados são deliberadamente organizados e reconfigurados para favorecer determinados interesses. Nesse cenário, a manipulação transforma os elementos brutos em signos com significados artificiais, ou seja, um signo em que a semiose não se completa, alterando as relações tradicionais estabelecidas na semiose. Assim, o processo interpretativo deixa de ser uma simples decodificação de informações autênticas e passa a envolver a análise crítica de um discurso moldado por estratégias de manipulação, o que desafia os mecanismos abduzidos, dedutivos e indutivos de construção do sentido (Prado, 2022).

Assim, é possível que uma nova dinâmica comunicacional se estabeleça, já que a comunicação ocorre apenas no plano do interpretante energético e emocional, na perspectiva da semiótica peirceana, ou se configure no plano da expressão, na semiótica francesa, como ainda, corrompa a correlação dos signos, na semiótica da cultura.

Tal dinâmica interfere diretamente na experiência cognitiva dos usuários, pois o sistema tradicional de validação de significados torna-se obsoleto diante de conteúdos que se apresentam como verídicos, mas que foram estruturados para desorientar ou manipular a percepção. Como resultado, o aprendizado deixa de se basear na assimilação de informações objetivamente verificáveis e passa a depender de uma constante verificação crítica dos sinais disponíveis (Hamed, Aziz; Yaakub, 2023).

A discussão apresentada evidencia que, na análise semiótica, as fake news atuam como ruídos que comprometem a clareza e a integridade dos processos de significação, interferindo na formação e validação dos significados. Enquanto diferentes linhas da semiótica (peirceana, francesa ou a da cultura), oferecem perspectivas variadas sobre o que constitui informação, todas convergem para a ideia de que a manipulação de dados e de signos impede a construção de um sentido autêntico e verificável.

O quadro 2 a seguir sintetiza essas abordagens, demonstrando, para cada linha semiótica, como se define a informação, de que forma as fake news se configuram e por que, em cada contexto, o conteúdo veiculado pode ser considerado não informativo:

 

 

 

Quadro 2 - Fake news, informação e semiótica

Linha semiótica

Possível caracterização da informação

Fake news

Justificativa da interrupção do processo informativo

Semiótica Peirceana 

A informação emerge da relação dinâmica entre os três componentes do signo: representamen, objeto e interpretante. Deve refletir um conteúdo proposicional verdadeiro que permite a redução da incerteza à medida que gera uma nova cadeia interpretativa e possibilita a formação de novos significados. (Peirce, 2017; Silveira, 2007).

Fake news se configuram como signos interrompidos que simulam a aparência de veracidade, mas cuja mensagem proposicional não corresponde à realidade dos fatos. Atuam apenas no plano do interpretante emocional e energético.

Na semiótica peirceana, a validade de um signo está vinculada à sua capacidade de produzir um interpretante que se alinhe com a verdade. Como as fake news manipulam ou distorcem os elementos do signo, elas não geram o significado verdadeiro esperado, comprometendo a integridade do processo semiótico.

Semiótica Francesa

A informação é produzida na articulação entre o plano da expressão, o plano do conteúdo e o plano da imanência, onde o sentido é construído a partir das estruturas linguísticas e dos discursos. O conteúdo informacional deve ser coeso, coerente e fundamentado em uma representação legítima da realidade (Nöth; Santaella, 2017).

Fake news atuam como distorções discursivas, utilizando códigos visuais e linguísticos manipulados para criar uma mensagem que aparenta ser legítima, mas que atua na forma e desvirtua o conteúdo e o que lhe é imanente.

Na semiótica francesa, a informação requer a congruência entre os níveis de expressão, conteúdo e imanência. Como as fake news interrompem essa congruência ao introduzir elementos manipulados e incoerentes, elas falham em produzir um sentido autêntico e verificável, afastando-se do que se considera informação.

Semiótica da Cultura

A informação é entendida como um elemento integrante da construção cultural, fundamentada em códigos, valores e práticas compartilhados por um grupo social, denominado semiosfera. Ela reflete a memória e a legitimidade simbólica que emergem da interação e da troca cultural (Velho, 2009).

Fake news são produzidas a partir de estratégias que exploram e distorcem os códigos culturais para manipular percepções, quebrando os vínculos de confiança e a validade dos símbolos que legitimam a cultura, ou seja, são veiculadas por signos que não foram construídos no âmbito social, frente à alteridade

Na semiótica da cultura, a informação é validada por meio da correspondência com os valores e os códigos compartilhados de uma comunidade. Fake news, ao violarem esses códigos e introduzirem elementos artificiais para fins manipulativos, não se integram à estrutura cultural legítima, falhando em transmitir uma verdade reconhecida socialmente.

Fonte: Elaboração própria.

 

 

 

5  CONSIDERAÇÕES FINAIS

As fake news não constituem signos monolíticos, mas sim fenômenos complexos que variam em graus de intencionalidade e impacto. Essa complexidade está diretamente relacionada às variações semânticas presentes nas fake news, que podem oscilar desde aquelas aparentemente "inofensivas" até as mais enganosas e destrutivas. A veracidade ou falsidade da relação entre o signo e o fato que ele representa é passível de verificação e diagnóstico, o que permite identificar diferentes níveis de manipulação e intencionalidade.

Nesse sentido, é possível identificar graus distintos de fake news. Em um extremo, encontram-se aquelas em que ocorre a manipulação de uma informação verdadeira, falseada com o intuito de enganar os intérpretes. Nesses casos, há uma distorção da realidade, porém ainda com algum vínculo, mesmo que tênue, com fatos reais. No outro extremo, estão as fake news que apresentam signos decididamente mentirosos, nas quais a informação é deliberadamente fabricada com o propósito de desinformar. Esse tipo de fake news representa o sentido mais legítimo do fenômeno, atingindo sua potência máxima ao ser criada exclusivamente para benefício próprio de seus fabricantes, seja para ganhos políticos, econômicos ou sociais.

Esse gradiente de fake news evidencia a importância de uma análise semiótica aprofundada, que permita não apenas identificar a falsidade intrínseca ao signo, mas também compreender as intenções por trás de sua produção e disseminação. Nesse sentido, esta pesquisa demonstrou fundamentos que explanam a concepção de informação, fake news e semiótica, assim demonstrando como a informação é fundamental para o processo cognitivo, por conseguinte para a construção do conhecimento.

Ademais, esta pesquisa também demonstrou as linhas epistemológicas das semióticas peirceana, francesa e da cultura, com isso evidenciando como cada uma se sistematiza para tratar a informação, conhecimento e semiose. Sendo assim, fica claro que as fake news não são reconhecidas como informação por nenhuma das linhas da semiótica, devido à necessidade de representação e mediação da realidade, através da lógica, dos discursos e da semiosfera.

Em síntese, fake news não são informações, pois sua composição não se realiza frente ao confronto com o objeto ou fenômeno, além disso sua aplicação necessita de dispositivos de poder presentes no discurso, o que acaba deturpando sua natureza, ou ainda corrompe os símbolos culturais em suas trocas sociais, visto que não exercem ampliação da experiência, mas, sim, um processo de usurpação do valor construído socialmente, que apenas afeta o plano da expressão, contudo não vigora no plano do conteúdo.

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[1] Professora substituta no curso de Biblioteconomia na Universidade Estadual Paulista (UNESP). Doutoranda em Ciência da Informação na Universidade Estadual Paulista (UNESP/Marília). Mestra em Ciência da Informação e Bacharel em Biblioteconomia e Ciência da Informação pela Universidade Federal de São Carlos.

[2] Doutora em Ciência da Informação pela UNESP. Mestre em Filosofia pela UNESP. Possui especialização em Processos Didático-Pedagógico para Cursos na Modalidade a Distância pela UNIVESP. Possui graduação em Licenciatura Plena e Bacharelado em Filosofia pela UNESP.

[3] Doutor em Ciência da Informação Unesp/Marília-SP (FFC). Mestre em Ciências da Informação pela UNESP. Graduado em Letras - Inglês - Faculdades Integradas Regionais de Avaré e graduado em Pedagogia para Licenciados pela Universidade Nove de Julho. Professor de Língua Portuguesa, Literatura, Filosofia e Sociologia.