INTELIGÊNCIA
ARTIFICIAL
COMO
NOVO
MARCO
EPISTÊMICO
À
CIÊNCIA
DA
INFORMAÇÃO
interseções conceituais para a Insurreição da Linguagem
Solange Puntel Mostafa
1
1
Professora Doutora Sênior do Departamento de Educação, Informação e Comunicação (DEDIC) da Faculdade
de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FFCLRP/USP).
Universidade de São Paulo
deisesabbag@usp.br
Ednéia Silva Santos
2
2
Professora
Doutora
no
Departamento
de
Educação,
Informação
e Comunicação
(DEDIC)
da
Faculdade
de
Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FFCLRP/USP). Atua na graduação
em Biblioteconomia e Ciência da Informação e na pós
-
graduação em Ciência da Informação (ECA/USP).
Universidade de São Paulo
emailAutor1@dominio.com
Deise Sabbag
3
3
Professora
Doutora
no
Departamento
de
Educação,
Informação
e Comunicação
(DEDIC)
da
Faculdade
de
Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FFCLRP/USP). Atua na graduação
em
Biblioteconomia
e
Ciência
da
Informação
e
na
pós
-
graduação
em
Ciência
da
Informação
(ECA/USP).
Também na pós
-
graduação em Ciência da Informação da UNESP em Marília.
Universidade de São Paulo
deisesabbag@usp.br
______________________________
Resumo
O artigo explora as ideias de Michel Foucault e sua aplicação ao contexto contemporâneo da inteligência artificial
(IA). Com o objetivo de elaborar teoricamente, criticamente e filosoficamente o que nominamos de novo marco
epistêmico
para
a
inteligência
ar
tificial.
O
método
é
de
ensaio
acadêmico
de
cunho
teórico,
com
pesquisa
bibliográfica. Começa discutindo a importância da História, conforme abordada por Foucault em seu livro "As
palavras e as coisas", destacando a evolução do conhecimento ao longo dos sé
culos, desde a Renascença até o
século XIX. As elaborações das ideias de Foucault sobre as forças e formas, como a "forma
-
Homem", e como
essas formas são influenciadas por forças externas. Aborda também a crítica de Foucault ao humanismo e sua
preferência
pelas noções de força e forma em vez de funções psicológicas superiores. Além disso, menciona a
importância de Deleuze na interpretação e expansão das ideias de Foucault, especialmente no que diz respeito à
morte de Deus e à criação de novas formas de huma
nidade. No contexto da IA, argumenta
-
se que essa tecnologia
representa um novo marco epistêmico, desafiando a relação tradicional entre vida e morte e criando formas de
existência. A IA é vista como uma força externa que ameaça as formas humanas tradiciona
is, abrindo caminho
para novas possibilidades e desafios éticos. Conclui
-
se com reflexões sobre a insurreição da linguagem como uma
resposta possível ao domínio crescente da IA e do capitalismo financeiro, sugerindo que a poesia e a literatura
podem ser
meio de resistir a essas novas formas de controle e abstração tecnológica, na teorização de Franco
Bera
r
di e Félix Guattari.
Palavras
-
chave:
Michel Foucault; inteligência artificial; insurreição da linguagem; finito ilimitado; Deleuze e
Guattari.
ARTIGO
DOI: https://doi.org/10.21728/logeion.2026v13n1e-7939
Data de submissão: 10/04/2026 Data de aprovação: 26/06/2026 Data de publicação: 02/11/2026
Esta obra está licenciada sob uma licença
Creative Commons Attribution 4.0 International (CC BY-NC-SA 4.0)
.
LOGEION: Filosofia da informação, Rio de Janeiro, v. 13, n. 1, p. 1-20, e-7939, jul./dez. 2026.
ARTIFICIAL INTELLIGENCE AS A NEW EPISTEMIC FRAMEWORK FOR
INFORMATION SCIENCE:
Conceptual Intersections for the Insurrection of Language
Abstract
The
article
explores
Michel
Foucault's
ideas
and
their
application
to
the
contemporary
context
of
artificial
intelligence (AI). It begins by discussing the importance of History, as addressed by Foucault in his book "Words
and Things", highlighting the evolution of knowledge over the centuries, from the Renaissance to the 19th century.
An analysis of Foucault's i
deas about the forces and forms, such as the "Man
-
form", and how these forms are
influenced by external forces. It also addresses Foucault's criticism of humanism and his preference for the notions
of force and form instead of higher psychological
functions. Furthermore, it mentions Deleuze's importance in
interpreting and expanding Foucault's ideas, especially with regard to the death of God and the creation of new
forms of humanity. In the context of AI, it is argued that this technology represent
s a new epistemic milestone,
challenging the traditional relationship between life and death and creating forms of existence. AI is seen as an
external force that threatens traditional human ways, paving the way for new possibilities and ethical challenges
.
It concludes with reflections on the insurrection of language as a possible response to the growing dominance of
AI and financial capitalism, indicating that poetry and literature can be means of resisting these new forms of
control and technological abs
traction, as theorizing by Franco Bera
r
di and Félix Guattari.
Keywords:
Michel Foucault; artificial intelligence; language insurrection; the unlimited limit; Deleuze e Guattari.
LA INTELIGENCIA ARTIFICIAL COMO NUEVO MARCO EPISTEMOLÓGICO
DE LA CIENCIA DE LA INFORMACIÓN
intersecciones conceptuales para la insurrección del lenguaje
Resumen
El artículo analiza las ideas de Michel Foucault y su aplicación al contexto contemporáneo de la inteligencia
artificial (IA). Su objetivo es desarrollar, desde un punto de vista teórico, crítico y filosófico, lo que denominamos
un nuevo marco epistémico p
ara la inteligencia artificial. El método es el del ensayo académico de carácter teórico,
con investigación bibliográfica. Comienza discutiendo la importancia de la Historia, tal y como la aborda Foucault
en su libro «Las palabras y las cosas», destacando
la evolución del conocimiento a lo largo de los siglos, desde el
Renacimiento hasta el siglo XIX. Se analizan las ideas de Foucault sobre las fuerzas y las formas, como la «forma
-
Hombre», y cómo estas formas se ven influidas por fuerzas externas. También s
e aborda la crítica de Foucault al
humanismo y su preferencia por las nociones de fuerza y forma en lugar de las funciones psicológicas superiores.
Además,
menciona
la
importancia
de
Deleuze
en
la
interpretación
y
expansión
de
las
ideas
de
Foucault,
especi
almente en lo que respecta a la muerte de Dios y a la creación de nuevas formas de humanidad. En el contexto
de la IA, se argumenta que esta tecnología representa un nuevo hito epistémico, desafiando la relación tradicional
entre vida y muerte y creando fo
rmas de existencia. La IA se considera una fuerza externa que amenaza las formas
humanas tradicionales, abriendo el camino a nuevas posibilidades y retos éticos. Se concluye con reflexiones sobre
la insurrección del lenguaje como una posible respuesta al d
ominio creciente de la IA y del capitalismo financiero,
sugiriendo que la poesía y la literatura pueden ser un medio para resistir a esas nuevas formas de control y
abstracción tecnológica, según la teoría de Franco Bera
r
di y Félix Guattari.
Palabras clave:
Michel Foucault; Inteligência Artificial; Insurrección del lenguaje; Finito
-
Ilimitado; Deleuze y
Guattari.
ARTIGO
LOGEION: Filosofia da informação, Rio de Janeiro, v. 13, n. 1, p. 1-20, e-7939, jul./dez. 2026.
2
-
1
INTRODUÇÃO
A contemporaneidade, marcadamente por meio da revolução tecnológica, impulsionada
pela Inteligência Artificial (IA), desafia as concepções tradicionais de conhecimento, poder e
subjetividade. Nesse cenário, as ideias foucaultianas oferecem elementos e subs
ídidos
teóricos,
analíticos e epistêmicos para analisar criticamente essas transformações. Foucault (
1992
), em
sua obra, “As palavras e as coisas” propõem uma abordagem arqueológica e genealógica do
saber,
destacando
as
forças
e
as
formas
que
moldam
o
sujeito
e
a
organização
do
conhecimento
ao longo da história. No contexto da Inteligência Artificial (IA), essas noções
se tornam fundamentais, pois corroboram para a compreensão de como os modos de existência
maquínicos
desenvolvem
-
se impactando e reescrevendo, redefinindo e reorganizando práticas
informacionais e culturais.
Analisa
-
se a crítica de Foucault ao humanismo e suas consequências na subjetividade
nas
práticas
de
curadoria
digital
e
automação
da
informação.
E,
como
as
forças
e
formas,
conforme discutido por Foucault, e mais tarde desenvolvido por Bera
r
di (2020) e
Lazzarato
(2014), influenciam os sistemas algorítmicos que organizam o conhecimento na era da IA.
Propõem uma reflexão sobre a
insurreição da linguagem
e a
resistência cultural
diante do
crescente domínio tecnológico e suas implicações éticas na Ciência da Informação.
A relevância desta elaboração está em entender a IA não apenas como uma ferramenta
tecnológica, mas como um
novo marco epistêmico
que redefine as bases do conhecimento e
do poder. Ao conectar as ideias de Foucault com os desafios contemporâneos da Ciência da
Informação, este estudo pretende oferecer uma perspectiva crítica e reflexiva sobre como lidar
com as transformações que a IA
impõe à organização do saber, ao controle informacional e à
subjetividade.
Nesse cenário, o objetivo é a elaboração teoricamente, criticamente e filosoficamente à
luz foucaultiana do que nominamos como novo marco epistêmico para a inteligência artificial,
os objetivos foram modulados especificamente em: a) relações de força versu
s força
-
homem;
b) forças de fora e forças da finitude; c) forças do silício e forças do carbono; d) finitude e
infinitude: o rompimento da relação vida e morte produzido pela inteligência artificial; e e
)
informação
(substituição
de
coisas)
e
Corpo
(fora
da
existência,
excluído
do
campo
da
comunicação). A investigação tem como percurso metodológico ensaio acadêmico de cunho
teórico,
com
pesquisa
bibliográfica,
argumentação
e
análise
crítica
amparado
nos
a
tos
de
procedimentos da ruptura, da construção e verificação conceituais elaborando as ideias a partir
ARTIGO
LOGEION: Filosofia da informação, Rio de Janeiro, v. 13, n. 1, p. 1-20, e-7939, jul./dez. 2026.
3
dos teóricos Michel Foucault (1992
)
, Deleuze (1992, 1997), Guat
t
ari (2016,
2012),
Burton
et
al
(2017),
Blanchot (2005)
, Berardi (2020).
-
2
FALTOU FALAR DA HISTÓRIA
Quando Michel Foucault (1992) discute as palavras e as coisas no livro que o tornou
famoso em 1996, apresenta no final do livro que faltava falar da História. O autor se pergunta
por que a História só foi tematizada no século 19, já que ela é tão antiga qu
anto a memória
humana em sua função de “...
memória, mito, transmissão da Palavra e do Exemplo, veículo da
tradição, consciência crítica do presente, decifração do destino da humanidade, antecipação do
futuro ou promessa de retorno” (Foucault, 1992, p. 384
).
Conclui o autor que o homem não se constitui como sujeito da história, senão pela
superposição da história dos seres, da história das coisas, da história das palavras. Uma tese
revolucionária para uma concepção histórico
-
cultural, que tem no homem a sede d
e significação
dos seres, das coisas e das palavras.
O
autor
discute
a
produção
de
conhecimentos
nos
últimos
quatrocentos
anos,
começando
na
Renascença,
passando
pelo
período
clássico
dos
séculos
XVI
e
XVII,
até
desembocar na tomada de consciência da finitude do século XVIII; neste século encontramos,
de um
lado Kant, apresentando os limites da razão e de outro, as empiricidades como vida,
trabalho
e
linguagem,
agora
tomados
como
as
novas
forças
da
finitude
provocando
o
nascimento da biologia, da economia política e da linguística.
Não é pouco para um percurso arqueológico do saber, tanto mais que ainda veremos
surgir, na teorização foucaultiana, as Ciências Humanas no século XIX. E, como ainda está
fazendo uma ontologia do presente, irá lançar, no final do livro, indicações importan
tes da
composição das forças no seu século XX.
O percurso de quatro séculos cartografado em quase quatrocentas páginas contém várias
novidades teóricas, aqui destacamos as relações de força notadas por Deleuze (2005) no ano de
1996, na sua interpretação
-
homenagem a Foucault em livro homônimo.
No volume intitulado ‘Foucault’ Deleuze destaca o princípio geral do pensador que é:
toda forma é um composto de forças. A partir desta constatação, Deleuze escreve um capítulo
final
sobre
a
morte
do
Homem
e
o
Super
Homem,
onde
parece
-
nos
estar
a
chave
par
a
a
compreensão das teses sugeridas por Foucault em “As palavras e as coisas”.
ARTIGO
LOGEION: Filosofia da informação, Rio de Janeiro, v. 13, n. 1, p. 1-20, e-7939, jul./dez. 2026.
4
Por estarem fora do campo da psicologia e fora dos humanismos (aliás a crítica ao
humanismo constituirá a novidade teórica comum entre eles), esses autores preferem as noções
de força e forma às funções psicológicas superiores das abordagens histórico
-
cult
urais.
As
forças
agenciadas
produziriam
as
formas,
sempre
provisórias
do
mundo.
Daí
a
forma
-
Homem, em Foucault, ou a forma
-
prisão em Vigiar e Punir (Foucault, 1987) que por
extensão falará também na forma
-
escola ou na forma
-
hospital.
-
3
A CARTOGRAFIA DOS QUATRO SÉCULOS
Em um brevíssimo olhar na cartografia traçada por Foucault n’As palavras e as coisas’
aprendemos que o período renascentista concebe a produção de conhecimentos através das
quatro figuras da similitude, em que a semelhança até o final do século XVI, tem um
papel
construtor no saber da cultura ocidental. Na semelhança de tudo com tudo, o mundo desta época
se repete infinitamente. (Foucault, 1992, p. 36).
O conhecimento do século XVI é limitado e tem na adição a única forma possível entre
os elementos do saber. Daí sua monotonia, diz o gesto foucaultiano, e sua erudição. No final do
século 16 e início do século XVII o saber da semelhança articula quatro fig
uras (conveniência,
emulação, analogia e simpatia).
Deixemos para o leitor saborear a prosa do mundo quinhentistas, na erudição poética de
Michel
Foucault,
para
passarmos
agora
ao
século
XVII,
denominado
Barroco.
Aqui,
o
pensamento cessa de se mover no elemento da semelhança. Descartes já está aí para recus
ar a
figura solta da semelhança e para exigir a identidade dos seres, apenas quando for possível
identificar as diferenças dos seres, apenas quando for possível identificar as diferenças entre
eles. Desse modo, a hierarquia analógica do século XVI é substi
tuída pela análise cartesiana e
o jogo infinito das similitudes conta
agora com os limites da ordem
e da medida, as duas
categorias da ciência e do espírito cartesiano de todo o século seguinte.
Os arquivos, catálogos, repertórios e inventários no final do século XVIII representam
uma sensibilidade nova ao tempo, agora o tempo como passado ou história. O repertoriar o
mundo é a forma dos homens seis e setecentistas
de tocar o infinito. É quando o
conceito
deleuziano de forças entram em relação com as forças de elevação ao infinito. O composto das
forças clássicas no homem não é uma forma
-
Homem, mas é a forma
-
Deus.
A forma
-
Deus é composta por todos os autores do século XVII, pois todos eles tentaram
nos dizer algo sobre Deus. Por isso, a representação e a produção do conhecimento no século
XVII se fazem como a de uma representação infinita.
ARTIGO
LOGEION: Filosofia da informação, Rio de Janeiro, v. 13, n. 1, p. 1-20, e-7939, jul./dez. 2026.
5
Estamos mais próximos agora da síntese que queremos destacar na composição das
forças entre Foucault e Deleuze. Os autores possibilitam
-
nos entender que, a partir do século
19, as forças do Homem
entram em relação com
novas forças do fora, agora as forças
da
finitude. Lembremo
-
nos que a filosofia kantiana é uma analítica da finitude, pois, para Kant
podemos
pensar
no
Infinito,
desde
que
isto
não
se
confunda
com
o
pensamento
das
empiricidades, a única que a razão pode conhecer.
Contudo, o Eu transcendental se pensa
ao pensar as condições de possibilidades de
conhecer a experiência. O aparecimento das ciências humanas no século XIX deve
-
se ao fato
que essas estariam situadas em um espaço gerado entre a analítica da finitude de Kan
t e as
empiricidades consolidadas nesta época como biologia, economia política e filologia.
Portanto,
vida,
trabalho
e
linguagem
são
as
forças
da
finitude.
Deleuze
(2005)
as
considera como tripla raiz da finitude a provocar o aparecimento ou nascimento da biologia, da
economia política e da linguística nos oitocentos. Mas aqui vem
a
enorme novidade de Foucault
destacada por Deleuze (2005 p. 135):
[
...
]
enquanto
nos
diziam
apenas
que
o
homem
toma
consciência
de
sua
própria
finitude, sob causas historicamente
determináveis
, Foucault enfatiza a necessidade de
distinguir dois momentos fundamentais. Primeiramente, as
forças
externas ao Homem
capturam as forças da finitude, e somente então ele as reconhece como sua própria
condição finita. É nesse processo que o conjunto dessas forças se organiza para formar
o que Foucault chama de "forma
-
Homem".
Esse reconhecimento marca uma ruptura na ordem de representação infinita, que agora
se vê ameaçada. A partir do século XIX, nos encontramos submetidos às forças finitas do eu
empírico. "É a dobra que agora domina," segundo a terminologia de Foucault (Deleu
ze, 2005,
p. 137). Essa concepção da finitude humana, proposta por Foucault, provocou grande impacto
na
década
de
1960,
especialmente
entre
humanistas,
existencialistas
e
a
geração
de
fenomenólogos
seguidores da fenomenologia dos três H (Hegel, Husserl e Heidegger). Ao
pensar uma filosofia da história ou uma história da filosofia sem a teleologia hegeliana e sem
os
pressupostos
cientificistas
das
epistemologias,
Foucault
está
inaugurando
uma
nova
me
todologia na construção do saber humano: a arqueologia das ciências humanas pensada
agora via epistemes distintas, sem prolongamentos de uma episteme a outra.
Com a tese das forças do fora dobrada sobre nós, Deleuze parte para a formação do
futuro, dando mais cores às teses foucaultianas sobre a morte de Deus aos nos dizer que atribuir
a morte de Deus a Nietz
s
che (1844
-
1900) seria desfigurá
-
lo uma vez que Feuerbach (1804
-
1842) foi o último pensador da morte de Deus.
ARTIGO
LOGEION: Filosofia da informação, Rio de Janeiro, v. 13, n. 1, p. 1-20, e-7939, jul./dez. 2026.
6
Deleuze faz então um comentário muito interessante: “as próprias forças da finitude
fazem com que o homem só exista através da disseminação dos planos de organização da vida
(...)
incluindo
também
a
dispersão
das
línguas
e
a
disparidade
dos
modos
de
produç
ão”
(Deleuze, 2005, p. 139).
Como
mencionado
as
forças
do
homem
entram
em
relação
com
novas
forças,
as
chamadas forças de fora findando a cartografia dos quatros séculos trazendo o componente da
infinitude, não para o corpo, pois este aparentemente composto pelos conceitos de conjunto
e
conexão fica fora da experiência estética da existência; “estar com” não é “estar no”, fazer
“parte de”!
-
4
AS INDICAÇÕES DA REUNIÃO DO DISPERSO
Em suas páginas finais, Deleuze nos (re
)conduz às teses centrais do Foucault de “As
palavras
e
as
coisas”,
dizendo
-
nos
que
Foucault
como
Nietz
s
che
deixou
-
nos
indicações
discretas do que será o homem do futuro e que, de fato, não poderia ser mais que indicações.
Nietz
s
che sinalizou o super
-
homem como aquele que pode libertar a vida aprisionada pelo
homem; “(...) o super
-
homem é aquele que liberta a vida dentro do próprio homem, em proveito
de outra forma (...)”. (Nietz
s
che, 2007, p. 140).
Já Foucault sinaliza a literatura do século 19 como aquilo que poderia reunir o ‘ser da
linguagem’ para além do que ela designa e significa. Mas para Deleuze talvez fosse preciso
estender o privilégio que Foucault atribui à literatura também para a vida e
o trabalho. Deleuze
entenderá que o trabalho e a vida só puderam se reunir no desdobramento à economia e à
biologia. Deixamos para o leitor as últimas sínteses de Deleuze já presentes em Foucault, dada
a importância que elas têm para pensarmos o nosso sécu
lo 21 em sua multiplicidade midiática
-
informacional: a biologia salta para a biologia molecular, vale dizer, a vida dispersa se reúne
no código genético e o trabalho disperso se reúne nas máquinas de terceira geração, cibernética
ou informáticas.
É quando Deleuze fala das superdobras produzidas pelas forças do Homem com as
forças do fora. Em nossa contemporaneidade essas forças novas do fora ou da natureza com as
quais o Homem compõe as suas resultariam em uma nova forma
-
Homem. Seria o super
-
homem
de Nietz
s
che? Afinal o super
-
homem é um Homem que decorre de uma nova relação de forças.
Aquilo que estava presente em Foucault recebe, nas últimas páginas do livro de Deleuze,
um
tratamento
especial:
é
quando
Deleuze
menciona
as
forças
do
silício
de
nossa
contemporaneidade
(em
abundância
na
natureza)
se
vingando
das
forças
do
carbono
da
ARTIGO
LOGEION: Filosofia da informação, Rio de Janeiro, v. 13, n. 1, p. 1-20, e-7939, jul./dez. 2026.
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modernidade. Pensemos apenas nas possibilidades informáticas da contemporaneidade e nas
próteses transformando nossos sentidos, sentimentos e corpos para imaginarmos essa outra
forma
-
Homem em que estamos nos tornando. Da mesma forma, as forças dos componen
tes
genéticos de nossa contemporaneidade se vingam das forças do organismo moderno e as forças
dos agramaticais contemporâneo se vingando do significante.
A maneira como nos relacionamos com as forças do fora, hoje, não é mais através das
forças de elevação ao infinito como nos séculos 16 e 17, nem através das forças de finitude
trazidas pela alta modernidade, mas é, segundo Deleuze, as forças de um “...
fin
ito ilimitado,
onde um número finito de componentes produz uma diversidade praticamente ilimitada de
combinações” (Deleuze, 2005 p. 141).
Em
uma
pergunta que nos parece sábia, Deleuze lança sua flecha perguntando
-
nos se o
finito
-
ilimitado, ou a super dobra de nossa contemporaneidade, não seria o que Nietz
s
che já
delineava como o eterno retorno?
-
5
O FINITO ILIMITADO
Estudiosos da filosofia não tiveram dificuldade em identificar o finito ilimitado e a nova
forma
-
super
-
homem proposta por Deleuze com a propaganda recente da Volskwagem em que
a
cantora
brasileira
Elis
Regina
ressurge
viva
(Saflate
,
2023);
seguindo
a
premonição
de
Benjamin, na luta contra o capital, “Se perdermos, sequer os mortos estarão a salvo” Não por
acaso, Saflate intitula seu artigo Vampiros e capital gerando comentários importantes de Roca
(2023) ao dizer que as máquinas vam
pirizam a personalidade.
A inteligência artificial é o fora, é aquilo que está fora do pensamento. Não é mais a
forma
-
Deus ou a forma
-
Homem que nos afronta, agora são os combates e guerras no interior
da ilimitação possível. E como diz Orlandi (2000, p.5) “sem que se saiba de ante
mão se a
potência
de
ilimitar
se
dará
para
o
bem
ou
para
o
mal
do
ponto
de
vista
da
vida
em
sua
alterabilidade”.
A Inteligência Artificial rompe esta relação de vida e morte ao reproduzir infinitamente
a finitude da vida. A inteligência artificial e todo o automatismo a sua volta torna
-
se o mais
novo
marco
epistêmico
da
contemporaneidade.
Como
conviver
com
ele?
Guatt
ari
(2012)
Bera
r
di
(2020)
e
a
dupla
Foucault
-
Deleuze
oferecem
pistas
que
nos
conduzem
ao
‘ser
da
linguagem’. Antes de explorar a saída pela linguagem, tem
-
se experimentado também uma
volta ao cânone das três teorias éticas no quadro da filosofia ocidental, a exemplo de Bu
rton
et
al.
(2017).
ARTIGO
LOGEION: Filosofia da informação, Rio de Janeiro, v. 13, n. 1, p. 1-20, e-7939, jul./dez. 2026.
8
Professores de ética nos cursos americanos de IA, a exemplo de Burton
et al.
(2017)
propõem que analisemos, junte aos estudantes, a) a ética das virtudes de Aristóteles, bem como
b) a ética dos deveres na deontologia de Kant com o imperativo categórico e c) o utilitarismo
inglês nas figuras de Jeremy Bentham e Stuart Mill. De fato
, a análise das três éticas oportuniza
vantagens e desvantagens comparativas diante de temas contemporâneos como a IA. Os autores
utilizam três filmes (Robot & Frank, Ex Machina
e Terminator 2) nos quais pode
-
se discutir
sobre as responsabilidades dos sistemas de IA, junto a estudantes.
O filme Robot
& Frank exibe passagens curiosas e a grande questão é que o robô foi
programado para proteger e ajudar o idoso Frank em suas necessidades cotidianas. Eis que
Frank tem um passado de ladrão de joias e um presente de pequenos furtos em lojas que visita.
O R
obô não consegue perceber que ‘roubo’ fere a virtude aristotélica da honestidade. Que dirá
a virtude da justiça! Quando ambos realizam passeios e compras, e Frank não consegue furtar
alguma peça da loja, o Robô o faz por ele, sem que a lojista perceba. No
limite o Robô incentiva
Frank para os grandes roubos do passado. O filme termina com Frank se fazendo a grande
pergunta aristotélica da ética das virtudes: ‘que tipo de pessoa eu quero ser?’. Aristóteles (
apud
Cruz,
2020
p.
592)
divide
as
virtudes
em
intelectuais:
sabedoria,
inteligência,
bom
-
senso,
justiça e em virtudes morais que são a generosidade e a temperança.
A ética das virtudes (também conhecida como ética teleológica) é focada em fins ou
objetivos e diferencia
-
se da ética kantiana que está baseada nos deveres
,
portanto nas intenções
de nossas ações. A deontologia kantiana distingue
-
se do utilitarismo que despreza as intenções
e concentra
-
se nas consequências das nossas ações. A questão básica do utilitarismo é "o que é
o
maior
bem
possível
para
o
maior
número?"
.
Um
subconjunto
do
utilitarismo,
o
consequencialismo,
particularmente
o
“utilitarismo
de
regras”,
justifica
uma
norma
social
contra o roubo em termos das consequências a longo prazo para a sociedade. Recentemente o
ministro da justiça brasileiro Ricardo
Levandowiski, ao noticiar a captura de presos fugitivos
da prisão de segurança
máxima
no município de
Mossoró
(RN) demonstrou seu pesar para
noticiar a prisão dos fugitivos. No noticiário televisivo
,
o jornalista corrigiu o ministro dizendo
que a prisão dos detentos foi triste para os próprios detentos, mas foi bom para a sociedade. Se
há
acerto
na
lógica
usada
pelo
jornalista,
o
questionamento
sobre
prisões
brasileiras
superlotadas
de
jovens
predomin
antemente
negros
permanece
adiado
tanto
para
o
ministro
quanto para o jornalista.
A mesma argumentação do jornalista pode ser usada na análise do filme Robô & Frank,
pois há aspectos imperceptíveis para o Robô programado e preocupado apenas com o bem
-
estar
ARTIGO
LOGEION: Filosofia da informação, Rio de Janeiro, v. 13, n. 1, p. 1-20, e-7939, jul./dez. 2026.
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do idoso Frank. Mas claro que reabilitar a capacidade do roubo de Frank deixa
-
o satisfeito
embora tal infração desorganiza a sociedade como um todo.
A abordagem utilitarista oferece inúmeros insights e vantagens para algoritmos que são
comumente usados na web e na vida cotidiana. Mas, os estudiosos da economia política da
informação têm evidenciado que a captura de nossos dados em processos de navegaçã
o na web
não é honesta e nem justa favorecendo o desenvolvimento de uma subjetividade maquínica em
nós e aumentando enormemente o lucro das plataformas digitais nesta fase do capitalismo de
plataforma em que vivemos (Dantas
; Raulino
, 2020).
As
três
éticas
do
cânone
filosófico
ocidental
não
são
necessariamente
mutuamente
exclusivas e muito pode
-
se depreender da tradição filosófica no tema da Inteligência Artificial.
A pesquisadora
Burton
et al.
(2017) que estamos comentando sobre a trilogia ética apresenta
extensa bibliografia no tema com interessantes aportes também para os cursos de Ciência da
Informação.
-
6
O SER DA LINGUAGEM
O que Michel Foucault entendeu com a expressão ‘o ser da linguagem’ no item sobre a
reunião do disperso? A expressão vem de Blanchot (2005), autor comum nos textos de Foucault
e Deleuze, embora em cada um o ser da linguagem aparece em especificidades própr
ias, mas
em ambos só se atinge o ser da linguagem através da literatura. Ambos os filósofos rondam
textos literários como se ali houvesse algo fundamental para a compreensão do próprio pensar.
Almeida (2003) e Levy (2011) explicitam, cada uma
à
sua maneira
,
o ‘ser da linguagem’
em ambos os filósofos franceses. A primeira prefere expõem a individuação de Simondon para
analisar o impessoal na obra de Deleuze. A segunda aprofunda Maurice Blanchot, mas ambas
abrangem ‘o ser da linguagem’ tanto em Foucault quanto
em Deleuze.
O ser da linguagem refere
-
se, pois à ‘experiência do fora’ (Levy, 2011). Fora e longe do
sujeito que escreve; a morte do autor em Foucault e Barthes tem a ver com esse encontro da
linguagem com o seu ser. Pois a noção de autor e obra já tinham sido essenci
ais no período
clássico (após a longa indiferença do período medieval) mas agora no início do século XIX era
preciso reunir a dispersão de sentidos e funções da linguagem; linguagem essa que já não mais
representa ou designa o mundo, mas ao contrário, cria
seu próprio mundo. As palavras do texto
literário não são mais representativas; se a noção de episteme sugeria ordem que organiza e
sujeita
as
diferenças
de
uma
determinada
época,
será
a
literatura
com
seus
personagens
e
enredos que irão reunir o ser da l
inguagem no apagamento do sujeito
-
autor e na impessoalidade
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LOGEION: Filosofia da informação, Rio de Janeiro, v. 13, n. 1, p. 1-20, e-7939, jul./dez. 2026.
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que a noção de acontecimento trará ao enredo literário. Falaremos então da universalidade do
impessoal na literatura. Ou o ‘esplendor do impessoal’ como prefere Deleuze (1997, p. 13).
Neste enredo fictício, veremos os personagens desobedecerem ou
transgred
irem as normas
sociais, através de mundos fora do mundo real. A ficção toca no ser da linguagem pois faz
aparecer uma outra versão do mundo. “O fora é exatamente esse outro de todos os mundos que
é revelado na literatura” (Levy, 2011, p. 26). Não se trata
de um mundo além ou aquém do
nosso, mas de um mundo que se permite novo através da criação, da invenção. O fora não é um
lugar onde a literatura se constrói, mas é a própria literatura. Ao descrever a paixão do fora,
Levy (2011, p. 29) esclarece que a lite
ratura não se dá num espaço exterior ao mundo, mas ela
é um mundo ‘sem interior oculto onde o escritor é aquele que perdeu o mundo e que também
se perdeu’. Pois como diz Deleuze (1997, p. 13): “a literatura só começa quando nasce em nós
uma terceira pessoa
que nos destitui do poder de dizer EU (o ‘neutro’ de
Blanchot)”.
É que o fora como experi
ê
ncia estética funda
-
se no estremecimento do cogito cartesiano,
como esclarece Levy (2011, p. 39). Esse desaparecimento da primeira pessoa é a condição para
o escritor falar na terceira pessoa contando a
his
tória dele ou dela. Em nome de ‘um povo que
falta’ na expressão de Guattari (2016, p.25). Nem tanto falar para um povo, mas diante de um
povo que ainda está por vir. A experi
ê
ncia ‘do fora’ em Deleuze aproxima
-
nos de um ‘plano de
imanência’ que é sempre pré
-
individual e pré
-
subjetivo, antes das formas e, portanto, prenhe de
virtualidades. Blanchot vai falar na impossibilidade da literatura n’O livro por vir’ (Blanchot
,
2005
apud
Levy, p. 32) pois é como se tudo no romance ainda estivesse por acontecer. Portanto
‘o fora’ em Deleuze tem a ver com um plano virtual de pensamento e remete, em sua atualização
a uma travessia, a um caminhar, tanto mais que sua filosofia esboça sempre um
a geofilosofia
.
Almeida
(2003,
p.
121)
sugere
a
poesia
de
João
Cabral
de
Melo
Neto
para
evidenciar
a
impessoalidade do agenciamento formado pelo retirante e pela trajetória e suas vicissitudes.
‘Um trajeto é assim uma individuação sem sujeito que conduz personagem e mei
o por uma via
impessoal’. O poema descreve a viagem de um sertanejo chamado Severino, que sai de sua terra
natal em busca de melhores condições de vida e quase morre de tantos desafios no corpo a
corpo
com
a
natureza
seca
em
meios
a
rios
interrompidos
entr
emeados
por
mortes,
rezas,
enterros e cemitérios. Desanimado, Severino recupera as forças apenas com o nascimento de
um bebê, uma criança
-
severina renovando o espírito cansado de nosso herói. A saga severina
lembra o texto deleuziano “Imanência, uma vida”
em que nos é apresentado um personagem
-
canalha à beira da morte fazendo aparecer uma vida afastada do sujeito que ele é. Vida sem
sujeito,
vida
de
pura
imanência,
neutra,
para
além
do
bem
e
do
mal.
Nos
comentários
de
Almeida (2003, p. 123) a vida severina
é também ‘uma vida longe do indivíduo, da memória e
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LOGEION: Filosofia da informação, Rio de Janeiro, v. 13, n. 1, p. 1-20, e-7939, jul./dez. 2026.
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dos estados subjetivos’ fazendo atingir esse plano de imanência pré
-
subjetivo. E mais: ‘o poeta
é tomado por esta porção do mundo’ no qual todos os elementos como ‘os rios, as pedras, os
sertões, os bichos ...
o calor intenso, tudo são elementos que se pre
ndem neste agenciamento do
qual o escritor é apenas um agente mas não autor’ (Almeida, 2003, p. 125).
O início do poema ao relatar o Severino que fala de si e de muitos (‘O meu nome é
Severino...
como há muitos Severinos, fiquei sendo o da Maria do finado Zacarias. Mas isso
ainda diz pouco...’) suscita o comentário de Almeida (2003, p. 126) sobre tal colet
ividade.
Trata
-
se de um agenciamento coletivo que faz de Severino, ele mesmo uma população, uma
multiplicidade de gente em terra seca com seus barulhos, vozes e sensações que compõem o
texto poético. O impessoal aponta para uma ‘virtualidade que os extrapo
la e conecta para além
do individual e do meramente coletivo’.
Outro primor de impessoalidade na literatura é praticado por Menalton Braff (2020). O
espaço onde se desenrola o enredo é o Vale do Rio dos Sinos, (RS) lugar em que se dá o embate
entre o morro e a planície (várzea), cerne dos conflitos pois revela a luta
inglória dos solitários
habitantes do morro infértil, cravado de pedras, e o sonho de habitar a várzea, menos inóspita;
circunst
â
ncias levam Nicanor e Florinda habitarem o morro e com o tempo, Florinda se afeiçoa
ao lugar e não sairá mais de lá (mesmo quando o marido a abandona). E sozinha, se sentirá
acompanhada dos ventos, do cão que guarda o território enquanto o cavalo atravessa
o território,
conectando lugares distantes. Então os animais estão aí compondo este grande sertão do sul do
país. O autor nos faz ver as aves na chegada com picada de cobra coral e os bois da carroça na
viagem ao morro Caipora enquanto as galinhas vão caç
ando minhocas sem muita participação
humana em seu cotidiano. Enfim
,
a existência na terra supõe a existência de outros seres que
não apenas aquele ser, para muitos escolhido por Deus, o ser humano. É que o escolhido, o
animal humano, está destruindo o planeta o que fez com que prestássemos mais atenção a esses
outros sere
s semoventes. E, também, nas plantas e árvores que não se movem muito por fora,
mas se movem por dentro, retiram substâncias da terra, realizam fotossíntese e jogam no ar
outros ga
s
es que fazem toda a diferença em nosso planeta e em nossa existência. O final do
livro emociona porque a filosofia quando tornada uma geofilosofia
, ou seja, uma filosofia da
Terra (Deleuze ,1992, 113) explica que o morro de Caipora não é apenas um morro. Tanto
quanto Florinda não é apenas uma mulher. O angico onde ela quer ser enterrada não é apenas
uma
árvore.
Morro,
mulher,
árvore
e
animais
são
el
ementos
heterogêneos
que
fazem
uma
síntese,
ou
uma
relação,
que
não
é
uma
relação
qualquer.
Na
filosofia
chama
-
se
relação
disjuntiva, pois reúne elementos díspares. Relação disjuntiva e conectiva ao mesmo tempo.
Estes elementos estão ligados como numa rede
ou num rizoma. Portanto a lógica não é de uma
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LOGEION: Filosofia da informação, Rio de Janeiro, v. 13, n. 1, p. 1-20, e-7939, jul./dez. 2026.
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simples união. Algo se passa no meio deles. Este algo produz um excesso a tal ponto que
podemos dizer que Florinda é uma mulher, mas não apenas isto. Se ela sair dali ela se torna
outra coisa muito diferente do que quando está ali.
O mais interessante é que podemos dizer o mesmo do morro Caipora. O morro tampouco
será o mesmo se a
mulher sair dali. Pois o
morro também exprime à sua
maneira, todo o
universo
à
sua volta. Cada existente contém todo o infinito do mundo, mas só pode se expressar
por um ponto de vista. O morro é um ponto de vista do universo. Tanto quanto Florinda. O
corpo humano não é uma simples biologia e
a montanha ou do morro não é uma simples
geologia. Na relação, estes corpos humanos e não humanos, tornam
-
se outros diferentes de si
mesmos se estivessem fora desta relação.
Hoje estamos falando em decolonialismo: o corpo da mulher, do indígena, do negro,
dos imigrantes são corpos que estamos sempre querendo colonizar. Descolonizá
-
los é também
aceitar
outros
modos
de
vida
que
não
os
cristãos
quando
chegaram
nas
Américas.
Talve
z
quiséssemos que Florinda viesse morar na várzea, colonizando
-
a em um certo modo de vida. É
certo que Florinda não é mais uma mulher igual a mulher da várzea. São várias naturezas. E
por isto não precisamos lamentar que ela vai ficar sozinha, pois ela mes
ma explicou que ali ela
conversa com as plantas e os bichos. Ela não deixou de ser uma mulher. Mas agora, ‘não apenas
isto’ como é a expressão da antropóloga
Cadena (2014):
’human but not only’
. Florinda é ao
mesmo tempo, humana e não humana. Tanto quanto os pássaros com os quais conversa. Ou o
angico, a árvore que também agora integra uma rede de humanos e não humanos, ao mesmo
tempo.
-
7
A INSURREIÇÃO DA LINGUAGEM
Não é por acaso que a expressão cunhada por Berardi (2020) relaciona o capitalismo
financeiro como uma asfixia sugerindo como possível saída a insurreição da linguagem através
da
poesia.
A
poesia
excede
o
significado
das
palavras,
já
que
a
linguagem
não
co
nhece
restrições. Berardi (2020, p. 138) exalta a poesia de Hölderlin
, o filósofo do idealismo alemão
que, diferentemente de Hegel não procurou o conceito como unificador do mundo, mas as
palavras ritmadas em forma de poesia. Tendo o ritmo como categoria ontológica para significar
não
apenas
‘emissões
vocais
ou
som
dos
obje
tos,
mas
também
as
vibrações
do
mundo’.
Concluem que ‘o ritmo é a vibração mais interior do cosmo. E a poesia é uma tentativa de
harmonização com essa vibração, com essa vibração temporal que chega, chega e chega”.
ARTIGO
LOGEION: Filosofia da informação, Rio de Janeiro, v. 13, n. 1, p. 1-20, e-7939, jul./dez. 2026.
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A tese central de Franco Berardi é que o intelecto geral (expressão que podemos traduzir
como inteligência coletiva) esta inteligência coletiva está empobrecida por falta de corpo, de
corporificação, uma vez que a capitalismo atual se expressa por signos l
inguísticos, numéricos
e
imagéticos.
Portanto,
abstrações
ou
imaterialidades.
O
capitalismo
atual
entra
na
matematização da linguagem algorítmica. E, portanto, nos signos assignificantes.
Aqueles códigos que não nos dizem nada, mas mexem na nossa vida: são os índices da
bolsa de valores, os índices de risco das agências internacionais sobre os países, os valores
bancários que transferimos de uma conta para outra, índices inflacionários, enf
im, índices que
são impostos pela política econômica neoliberal. Portanto impostos pela violência e crueldade
das políticas neoliberais. O esvaziamento e quase destruição das universidades com pesquisas
voltadas
apenas
ao
mercado,
também
compõe
m
o
quadro
do
empobrecimento
do
‘
general
intelect’
.
Para fugir a isto, Berardi propõe que façamos a distinção entre conjunção e conexão.
Estamos conectados, mas não necessariamente conjuntos e o corpo importa, a voz importa, o
cheiro importa, as cores e as qualidades primárias importam, a vibração afetiva e
corporal, a
libido de todos nós importa na vida diária da raça humana e de outras raças.
Como trazer o corpo novamente à
existência. Seja o nosso corpo, seja o corpo dos
animais e das plantas com suas cores e sonoridades? E especialmente com uma temporalidade
adequada ao corpo, ao cérebro. Berardi passa um tempo no livro falando do tempo acele
rado
das
informações
abstratas
em
rede
e
o
ritmo
próprio
do
nosso
cérebro
que
roda
em
outra
velocidade. De tal maneira que quanto mais informações estiverem disponíveis naquela forma
indicial, abstrata e veloz menos sentido terá para nós que temos corpo e,
portanto, precisamos
de
mais
tempo
para
absorver
as
informações
abstratas
e
maquínicas
da
semiotização
do
capitalismo financeiro atual.
Se,
no
tempo
de
Marx,
a
abstração
capitalista
referia
-
se
ao
trabalho
abstrato
que
englobava todas as atividades humanas, fosse o trabalho de um ferreiro ou de um alfaiate,
Franco
Berardi
identifica
várias
camadas
da
abstração
por
meio
do
conceito
de
semioc
apitalismo; camadas adicionais de abstração no trabalho digital contemporâneo.
Destacamento aqui a interoperabilidade das máquinas informacionais; por exemplo, um
catálogo coletivo de bibliotecas precisa de protocolos comuns entre as máquinas para responder
em
qual
biblioteca
determinado
livro
está
disponível,
ou
uma
loja
como
a
Esta
nte
Virtual
precisa de protocolos comuns entre as livrarias para que possa relacionar onde o livro pode ser
comprado. Assim, a abstração digital envolve essa segunda camada de interoperabilidade entre
máquinas informacionais. Berardi então observa que, nes
se contexto, a informação substitui as
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LOGEION: Filosofia da informação, Rio de Janeiro, v. 13, n. 1, p. 1-20, e-7939, jul./dez. 2026.
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coisas, e o corpo é excluído do campo da comunicação. A terceira camada de abstração é a
matematização da linguagem financeirizada.
A noção de Caos está presente no filósofo italiano e seu vocabulário deriva da teoria do
caos, mas é importante que distingamos a noção científica do Caos da noção filosófica do Caos.
Por exemplo os fractais, o tempo fractalizado, a indecibilidade ou indet
erminação, a própria
caosmose de F
é
lix Guattari que Berardi explora tão bem através da análise dos ritornelos e dos
ritmos são traços de uma abordagem filosófica do caos.
Berardi (2020) recomenda que não é bom brigar tanto com o caos. Porque o caos é maior
que
a
ordem.
É
preciso
prudência
ao
nos
relacionarmos
com
o
caos.
E
nunca
pensar
que
podemos eliminar o Caos. Se consultarmos o verbete caos na Wikip
é
dia veremos que a teoria
do caos nasce nos anos 60 e o famoso efeito borboleta foi elaborado por um meteorologista que
estudava
as
massas
de
ar:
Lorenz
é
o
nome
do
americano
que
escreveu
as
equações
de
movimentos caóticos ou imprevisíveis. O caos tem a ver
com acaso ou imprevisibilidade ou
indeterminações. Como diz Deleuze e Guattari “o que caracteriza o caos
(...)
é a velocidade
infinita com que as determinações se esboçam e se apagam” (
1992
, p. 59). Dez anos após
Lorenz ter trazido as equações dos movimentos caóticos, um matemático polonês, Mandel Brot,
plotou os gráficos do caos, gráficos muito bonitos que impressionam pela beleza, parecendo
aqueles cavalos marinhos coloridos e cheios de mo
vimento pois trata
-
se de uma geometria
fractal (termo criado por ele), formas que se repetem de tamanhos variados. Há fractais na
natureza como as folhas de uma samambaia, ou o pinhão na pinha da
á
rvore do sul brasileiro
chamada Araucária. São estruturas que se repetem, dividindo
-
se de maneira quase idêntica, os
fractais.
Pois bem o Caos existe e nos ronda, quem sabe é tudo o que nos ultrapassa. A mesma
teoria do caos diz
-
nos que há uma ordem na desordem do Caos. Falamos que a teoria do caos
se
esboça
nos
anos
60
e
70
e
podemos
acrescentar
outro
nome,
o
de
um
químico
russo
naturalizado belga, Ilya Prigogine, Nobel de química em 1977, falando do fim das certezas e de
uma nova ordem que nasce da desordem.
Com esta noção de Caos como
algo equivalente
a incertezas ou
imprevisibilidades,
Franco
Berardi
adentra
o
livro
de
Felix
Guattari
‘Caosmose’
(
2012
)
para
explicar
que
a
caosmose é uma troca necessária que fazemos com o caos, através dos ritornelos ou gestos
repetitivos (gestos físicos ou linguísticos ou sonoros e musicais). O ritornelo é o nicho da
sensibilidade em que podemos criar o cosmos a partir
do caos.
Se pensarmos no jogo dos pratos como o ‘boomerang’, aquela repetição de jogar pratos
ao ar livre obedece a um ritmo de lançamento e retorno dos pratos. Uma pilha de pratos se vai
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e outra se forma na volta dos pratos. Mas o ir e o vir tem um ritmo que dá a ludicidade e graça
ao
jogo.
A
noção
do
ritornelo
guattariano
tem
esse
movimento
de
ir
e
vir.
Precisamos
de
ludicidade e graça no jogo da existência, no
dia a dia
da nossa vida. Ser ético para os autores
filosóficos
fora
do
cânone
da
tradição
ocidental
tratados
aqui
como
Blanchot,
Foucault,
Deleuze,
Guattari
e
Berardi
é
resistir
aos
automatismos
algorítmicos
na
insurreição
da
linguagem de nosso semiocapitalismo financeiro, o mais novo marco epistêmico da Inteligência
Artificial. Além das três teorias da ética apontadas por Burton
et al
.
(2017) seria produtivo
considerar também os autores fora da tradição filosófica como os apresentados aqui.
-
8
CONECTANDO À CRÍTICA DA IA NA CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO
A aproximação das ideias de Michel
Foucault ao
campo da Ciência da Informação
inspira outros teóricos, não apenas Deleuze em livro homônimo, mas como vimos, autores
italianos
na
expansão
daquelas
ideias.
Além
de
Franco
na
interpretação
de
Guattari,
encontr
aremos
Lazarrato
(2014,
p.
72)
numa
crítica
poderosa
para
compreender
as
transformações
provocadas
pelas
semióticas
das
práticas
informacionais
contemporâneas.
Foucault, ao explorar as relações entre poder, saber e discurso, fornece um framework teórico
para questionar co
mo as tecnologias de IA estão moldando novas formas de conhecimento e
organização da informação.
Em "As Palavras e as Coisas", Foucault traça a evolução dos sistemas de pensamento
ao longo dos séculos, destacando como as mudanças nas estruturas epistemológicas moldaram
a forma como o saber é produzido e organizado. No contexto atual, a IA representa u
m novo
marco epistêmico que desafia as categorias tradicionais de conhecimento ao introduzir formas
de processamento de informações que operam fora das capacidades humanas tradicionais. A
aplicação dessas ideias à Ciência da Informação pode contribuir ao m
apeamento crítico das
transformações que estão ocorrendo na organização, acesso e curadoria da informação em um
mundo cada vez mais digital e automatizado (Foucault, 1992).
A crítica foucaultiana ao humanismo também é relevante para a Ciência da Informação,
particularmente
no
que
diz
respeito
ao
papel
da
subjetividade
humana
na
mediação
da
informação. Principalmente se aproximarmos as semióticas mistas de Guattari discutidas
por
Lazzarato
(2014, p. 72); a sujeição social que nos dá identidade (sou cientista da informação,
sou diretor de escola, sou gerente financeiro e tantas outras profissões) e ao mesmo tempo,
quando navego na internet, torno
-
me servo ou peça de um maquinismo que me faz
objeto de
uma servidão maquínica com sua respectiva perda de identidade. Explica Lazzarato que são
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LOGEION: Filosofia da informação, Rio de Janeiro, v. 13, n. 1, p. 1-20, e-7939, jul./dez. 2026.
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duas
formas
de
subjetivação
que
operam
juntas.
À
medida
que
algoritmos
e
sistemas
automatizados
substituem
ou
suplementam
a
tomada
de
decisões
humanas
em
bibliotecas,
arquivos e centros de informação, navegamos entre ser e não ser quem somos.
A noção de "ontologia do presente" de Foucault, que busca entender as condições de
possibilidade do presente, pode ser utilizada para analisar como as tecnologias de IA estão
reconfigurando as realidades informacionais. Por exemplo, a maneira como os algor
itmos de
IA moldam a curadoria digital
–
como metadados e estruturas de banco de dados
–
reflete a
ideia foucaultiana de que "toda forma é um composto de forças". Essas formas digitais não são
neutras, mas sim moldadas por forças sociais, políticas e econô
micas que influenciam quem
tem acesso à informação e como essa informação é usada.
Além disso, a ‘insurreição da linguagem’ em Bera
r
di assim como ‘o ser da linguagem’
em
Foucault
podem
ser
vistos
como
uma
forma
de
resistência
às
estruturas
de
controle
algorítmico
e
à
abstração
tecnológica
na
Ciência
da
Informação.
A
defesa
da
diversidade
cultural
e
da
pluralidade
de
vozes
na
curadoria
informacional
é
crucial
para
evitar
a
uniformidade
imposta
pelos
sistemas
automatizados.
Assim,
práticas
que
promovem
a
preservação de formas alternativas de conhecimento, como poesia e literatura, podem ser vistas
como formas de resistência cultural que s
e opõem à lógica dominante da IA.
A aplicação da "arqueologia do saber" de
Foucault à análise de
algoritmos permite
desenterrar
as
bases
históricas
e
culturais
desses
sistemas,
revelando
os
pressupostos
ideológicos
embutidos
neles.
Essa
abordagem
crítica
é
essencial
para
entender
como
os
a
lgoritmos que governam as práticas de IA na Ciência da Informação influenciam o acesso ao
conhecimento e a maneira como a informação é organizada e disseminada.
Nesse sentido, a ética no uso da IA na Ciência da Informação deve ser problematizada
não apenas com o cânone filosófico de Aristóteles, Kant e Mil (Burton
et al.,
2017) mas também
com os autores que vão além do cânone, como os franceses e seus divulgadores italianos. A
incorporação de discussões sobre ética nas práticas de gestão da informação é crucial para
garantir que as tecnologias de IA sejam utilizadas de man
eira que respeite a dignidade humana
e promova a justiça social.
-
9
CONSIDERAÇÕES
FINAIS
Ao encadear a arqueologia do saber com as mudanças que a IA introduziu, o texto teve
a pretensão de expor uma análise teórica, crítica e filosófica da existência dessas tecnologias na
produção, organização e disseminação do conhecimento.
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17
Novas formas de poder e saber surgem a cada mudança da episteme. A IA, como nova
episteme,
se
desloca
contra
as
estruturas
convencionais
e
levanta
questões
relativas
à
subjetividade, o papel da intermediação humana e as novas formas de governo da informaçã
o.
Aponta que é crucial preservar e permitir o florescimento de formas de conhecimento
que não possam ser reduzidas ou homogeneizadas por processos técnicos. A poesia, a literatura
e todas as outras formas de cultura representam meios de preservação das forma
s de resistência
a processos abstratos e desumanizantes que são ainda preservados pela IA.
Desse modo, reforça
-
se a necessidade de abordar, crítica e reflexivamente, a aplicação
das tecnologias de IA na Ciência da Informação. É imperativo, em última análise, a integração
da ética no campo informacional e a retração epistemológica dos sistemas au
tomatizados como
passos críticos para orientar a aplicação da IA da maneira correta e em consonância com a
dignidade humana. Portanto, o pensamento filosófico apresentado mostra
-
se uma ferramenta
útil
para
a
revelação
das
várias
dimensões
de
poder
e
saber
que
estruturam
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ARTIGO
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