ARTIGO
Tendo como ponto de referência uma comunidade comunicativa alargada de forma
ideal, a teoria moral abandona também todos os conceitos pre-́ sociais de pessoa. A
individuação é apenas o reverso da socialização. Só por meio de relações de
reconhecimento recíproco é que uma pessoa pode constituir e reproduzir sua
identidade. Até o âmago mais interior da pessoa está́ internamente ligado à periferia
mais externa de uma rede extremamente ramificada de relações comunicativas. A
pessoa só se torna idêntica a si própria em proporção à sua exposição comunicativa.
As interações sociais que formam o Eu também o ameaçam, através das
dependências em que ele se implica e das contingências a que ele se expõe. A moral
atua como fonte de equilíbrio para essa susceptibilidade inerente ao próprio processo
de socialização. (Habermas, 2020, p. 96).
A era das redes, do Big Data e da E-Science, transmuta a concepção do político e
maximiza a crise da democracia, imersa no dilúvio de informações e de dados da cultura das
redes e da presença de elementos humanos e não humanos no cenário social, o que requer
reestruturações urgentes. É possível salientar o forte sentido da concepção habermasiana de
esfera pública como um espaço destinado a formar uma opinião coletiva radical. Embora seja
uma esfera pública com parâmetros diferentes de ocorrência do diálogo, Habermas já
reconhecia que formar uma opinião não é só “proteger a liberdade de expressão do poder do
Estado”, mas a de “como o fórum público de ideias pode ter êxito em permanecer um bem
público” (Habermas, 2020, p. 211-222) e atuar em seu papel de monitorar, conhecer, discordar
e produzir argumentos. A nova esfera pública, ampliada pelas redes digitais, tem possibilitado
debates públicos robustos, sem inibições, cada vez mais abertos para proteger a liberdade, as
normas e os procedimentos, porque, nesse espaço, as regras do jogo são amplas e cabe até
mesmo uma concepção normativa de democracia, visto que esses espaços guardam
características de contextos específicos Habermas e a democracia na ágora digital
Habermas, sessenta anos depois da sua obra seminal, Mudança estrutural de esfera
pública, já agora na esfera pública digital, traz a lume um novo texto, 2022, sobre a temática
da esfera pública, e depara-se com uma situação inversa daquela apontada acima, ou seja, uma
situação que decorreu de todo mundo poder fundar um jornal, de todo mundo ter um acesso
viável à opinião pública.
8
Habermas não faz um diagnóstico positivo do que ocorreu. Quiçá, ele tenha preferido
destacar os efeitos negativos, em vez dos positivos. Habermas (2023, p. 56) parece destacar
mais os aspectos regressivos do que positivos. Ele entende a digitalização como uma ruptura,
uma verdadeira revolução (p. 57). Não obstante, um dos principais pontos de sua análise
reside na formação de bolhas, ou seja, na fragmentação.
Para ele, na nova esfera pública digital, grandes redes de imprensa passaram a
concorrer com produtores individuais de informação. Isso alterou o sistema mediático que
LOGEION: Filosofia da informação, Rio de Janeiro, v. 11, ed. especial, p. 1-17, e-7359, nov. 2024.