ARTIGO
avançados processos de fabricação conhecidos como “inteligência de máquina” e
manufaturado em produtos de predição que antecipam o que um determinado
indivíduo faria agora, daqui a pouco e mais tarde. Por fim, esses produtos de
predições são comercializados num novo tipo de mercado para predições
comportamentais que chamo de mercados comportamentais futuros. Os capitalistas
de vigilância têm acumulado uma riqueza enorme a partir dessas operações
comerciais, uma vez que muitas companhias estão ávidas para apostar no nosso
comportamento futuro (Zuboff, 2020, p. 17-18).
A autora faz a ressalva de que “O capitalismo de vigilância não é tecnologia; é uma
lógica que permeia a tecnologia e a direciona numa ação. O capitalismo de vigilância é uma
forma de mercado que é inimaginável fora do meio digital, mas não é a mesma coisa que
‘digital’” (Zuboff, 2020, p. 26). Menciona, ainda, que a difícil análise do fenômeno
vivenciado hoje com o capitalismo de vigilância, deve-se ao seu caráter “sem precedentes” e
que as categorias teóricas/conceituais que existem são insuficientes para identificar e discutir
esse novo regime. “Aquilo que não tem precedentes é necessariamente irreconhecível”
(Zuboff, 2020, p. 23).
Esses mecanismos de predição, cada vez mais complexos e capazes, são utilizados
como fundação para a oferta de produtos e serviços, mas também para a indução à compra de
produtos e serviços (economias de ação) (Zuboff, 2020). A autora argumenta que:
O superávit comportamental precisa ser vasto e variado, porém a maneira
mais segura de predizer comportamento é intervir na sua fonte e moldá-lo. Os
processos inventados para alcançar essa meta são o que chamo de economias de
ação. Para conseguir tais economias, processos de máquina são configurados para
intervir no estado do jogo no mundo real entre pessoas e coisas reais. Essas
intervenções são projetadas para aumentar a certeza através de certas atividades: elas
incentivam, sintonizam, vigiam, manipulam e modificam o comportamento em
direções específicas ao executar ações sutis, tais como inserir uma frase específica
no Feed de Notícias do Facebook, programar o surgimento de um botão COMPRAR
na tela do seu celular, ou desligar o motor do seu carro quando um pagamento do
seguro está atrasado (Zuboff, 2020, p. 234).
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Esse potencial de modelagem de comportamentos tem sido utilizado por empresas e,
como pode-se observar, como parte de uma estratégia política, como exemplo, em relação ao
referendo Brexit, no Reino Unido e a candidatura de Trump, nos EUA (Pinto; Jacon; Moraes,
2020). Da mesma maneira, pode-se incluir a candidatura de Bolsonaro no Brasil. Todos esses
eventos são representativos do potencial dessas ferramentas para oferta, predição e
modelagem de comportamentos. A criação de anúncios personalizados de acordo com os
perfis de usuários (psychometric profiling), as sugestões para acesso a conteúdos similares
(que propiciam a manutenção da “bolha”), a viralização de mensagens sensacionalistas que
apelam a emoções no lugar de fatos, entre tantas outras estratégias, foram amplamente
empregadas nos eventos citados para veicular o discurso através do qual se pretendia alcançar
LOGEION: Filosofia da informação, Rio de Janeiro, v. 11, ed. especial, p. 1-22, e-7362, nov. 2024