ARTIGO  
A QUESTÃO ALGORÍTMICA  
a pós-verdade e a crise da democracia  
Grayce Lemos  
Universidade Federal de Santa Catarina  
Marina Bazzo de Espíndola  
Universidade Federal de Santa Catarina  
_____________________________  
Resumo  
Este artigo explora os desafios impostos pela implementação de sistemas algorítmicos e inteligência artificial  
(IA) em diversas plataformas que fazem parte da cultura digital hoje. O foco principal é analisar como a  
literatura científica recente relaciona a questão algorítmica com os fenômenos da pós-verdade e a crise da  
democracia, em um contexto onde a disseminação de fake news e a manipulação digital desempenham papeis  
centrais. A pesquisa mapeia artigos publicados nos últimos dois anos, pós-pandemia, identificando correlações  
entre a aparição do termo ‘pós-verdade’, o declínio da confiança social nas instituições democráticas e o colapso  
da verdade na esfera pública, o que tem configurado um cenário chamado de ‘crise da democracia’. Entre os  
temas abordados nos 13 artigos analisados, destacam-se a relação entre democracia e fake news, a crise da  
verdade na esfera pública e a manipulação algorítmica na era digital. Com base nesses estudos, o artigo esboça  
os desafios para a consolidação de uma política pública informada e democrática em um cenário cada vez mais  
influenciado por algoritmos e plataformas digitais. Em última análise, o trabalho contribui para a compreensão  
dos impactos das novas tecnologias na democracia, propondo caminhos possíveis para mitigar os riscos da pós-  
verdade e fortalecer o espaço público democrático.  
Palavras-chave: Algoritmos. Pós-verdade. Democracia.  
Esta obra está licenciada sob uma licença  
LOGEION: Filosofia da informação, Rio de Janeiro, v. 11, ed. especial, p. 1-22, e-7362, nov. 2024.  
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1 INTRODUÇÃO  
Morpheus - Você acredita em destino, Neo?  
Neo - Não.  
Morpheus - Por que não?  
Neo - Não gosto de pensar que não controlo a minha vida.  
(Diálogo entre Morpheus e Neo no filme Matrix)  
Controlamos os conteúdos das redes sociais ou eles nos controlam? O entusiasmo  
inicial com o espaço cibernético e suas possibilidades de abertura comunicacional tem sido  
substituído pela crescente percepção de que essas características também podem ser  
utilizadas, contraditoriamente, contra a própria democracia. A descentralização das mídias  
comunicacionais, a possibilidade de autoria de conteúdos por qualquer pessoa e a  
democratização do acesso às informações criam uma ilusão de liberdade.  
Nos últimos anos, tem-se observado o potencial das redes sociais na disseminação de  
conteúdos falsos ou manipulados com o objetivo de atingir determinados fins. Como  
exemplo, pode-se verificar a utilização de plataformas (como Facebook) por algumas  
empresas, a fim de dar visibilidade a determinados conteúdos, orientados politicamente, a  
favor deste ou daquele candidato, desta ou daquela agenda política. Pretende-se aqui destacar  
a forma como essas plataformas digitais são desenhadas, ou seja, a estrutura que define como  
informações/conteúdos serão expostos, quais destes serão apresentados, para quais perfis de  
usuários, e, inclusive, em quais momentos do dia. Tudo a partir da leitura dos dados de perfis  
dos usuários dessas redes. Como bem pontuam Pinto, Jacon e Moraes (2020, p. 75),  
2
Trata-se de ferramentas pelas quais as mídias digitais filtram o comportamento dos  
indivíduos para fazer previsões dos conteúdos compatíveis com cada usuário. Dessa  
forma, o conteúdo oferecido para cada pessoa é personalizado de acordo com os  
rastros de suas atividades on-line. Cliques, curtidas e visualizações são captados por  
algoritmos das mídias digitais, que traçam um perfil com base nessas informações,  
determinando o conteúdo a ser oferecido.  
Essas ferramentas impactam na percepção da realidade e constituem o que HAN  
(2022) vem chamando de "regime de informação". A forma como essas plataformas digitais  
são estruturadas influenciam na elaboração dos conteúdos por seus participantes e na  
apresentação dos conteúdos que as pessoas têm acesso diariamente. Essa arquitetura da  
informação nas plataformas influenciam para a construção de uma determinada visão de  
mundo. A maneira como funcionam podem gerar uma distorção a respeito de acontecimentos,  
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informações e fatos. Em última análise, contribuem para colocar em dúvida o que é verdade e  
o que é mentira, o que é fato e o que é uma distorção.  
A disseminação de informações falsas, deturpadas ou manipuladas constitui o que está  
sendo chamado de 'pós-verdade', termo considerado “a palavra do ano de 2016", pela Oxford  
Languages. Segundo essa instituição, “Pós-verdade é um substantivo que se relaciona ou  
denota circunstâncias nas quais fatos objetivos têm menos influência em moldar a opinião  
pública do que apelos à emoção e a crenças pessoais” (Oxford Languages, 2016)1.  
Pinto, Jacon e Moraes (2020, p. 74) sobre grupos políticos que utilizam de estratégias  
digitais com intuito em manipular a opinião pública, afirmam que “[...] tais grupos utilizaram  
a democracia contra ela mesma, construindo uma realidade que podemos chamar de pós-  
verdade e que se alastrou mundo afora pelos grupos de direita radical”. As autoras relacionam  
o fenômeno da pós-verdade com aquelas características que delineiam o contexto político  
atual.  
Já, para Siebert e Pereira (2020) e Marineli (2020), a pós-verdade em outras palavras,  
pode ser percebida como essa ambiência onde os fatos e, também, as informações científicas  
são colocadas em pé de igualdade com diferentes opiniões individuais, geralmente pautadas  
em valores e crenças.  
Opiniões e conteúdos especulativos, distorcidos e até falsos, têm conseguido superar a  
relevância de fatos e pesquisas científicas, quando se observa a opinião pública a respeito de  
alguns temas. O movimento anti-vacina, por exemplo, ganhou força nos últimos anos  
demonstrando o poder de convencimento de determinados discursos, ao invocar mensagens e  
imagens que se enquadram em um âmbito mais subjetivo, relacionado a valores  
conservadores, e que acabam por gerar uma descrença no conhecimento produzido a partir de  
pesquisas científicas. Marineli (2020, p. 1176) faz a ressalva de que, “muitas vezes os  
indivíduos descartam uma ideia ou informação, ou simplesmente consideram-nas falsas, pelo  
mero motivo de serem contrárias às suas crenças pessoais”.  
3
O aumento na descrença nas instituições políticas, nas mídias tradicionais e no  
discurso científico observado nos últimos anos faz parte de um cenário mais amplo, como  
bem constata Castells (2018). Com isso, tem-se observado uma relativização cada vez maior  
com relação às formas de produção de conhecimento, muitas vezes equiparando saberes  
científicos às opiniões pessoais.  
1 Para informações sobre o porquê dessa palavra ter sido escolhida, acessar a página "Word of the year 2016" de  
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Tem-se notado, especialmente por meio das redes sociais, a multiplicação do número  
de fake news e de desinformações, geralmente com apelo a fatores emocionais, para estimular  
a ampla divulgação/compartilhamento.  
Diante desse cenário, as seguintes questões tornaram-se relevantes: a) Como a questão  
algorítmica está relacionada com o fenômeno da pós-verdade? b) Qual o papel das  
proprietárias das plataformas digitais para a constituição da pós-verdade? c) O termo pós-  
verdade está relacionado com a ascensão da extrema-direita? d) Como esse evento afeta a  
esfera pública democrática? Responder a essas questões não é uma tarefa fácil, de forma que  
este artigo não pretende esgotá-las, mas contribuir para a reflexão desse fenômeno.  
2 DESENVOLVIMENTO  
O objetivo geral do presente artigo é examinar como a questão algorítmica se relaciona  
com a pós-verdade e a crise da democracia, considerando os impactos das dinâmicas digitais  
na formação de opinião pública e no enfraquecimento dos sistemas democráticos. Para isso,  
foi realizada uma "revisão sistemática de bibliografia" (Galvão, Ricarte, 2020) na base de  
dados do Portal da CAPES Periódicos, utilizando os termos "pós-verdade edemocracia", com  
foco em artigos publicados entre 2022 e 2024, período que compreende os efeitos da  
pandemia e pós-pandemia. Os critérios de inclusão limitaram-se a artigos de acesso aberto,  
com ênfase nas Ciências Humanas. A busca foi realizada em julho de 2024 e resultaram  
quatorze artigos, dos quais um resultado aparece duplicado. O procedimento de análise se  
pautou em Análise de Conteúdo (AC) de Laurence Bardin (2016) que define a AC como,  
4
Um conjunto de técnicas de análise das comunicações visando obter, por  
procedimentos sistemáticos e objetivos de descrição do conteúdo das mensagens,  
indicadores (quantitativos ou não) que permitam a inferência de conhecimentos  
relativos às condições de produção/recepção (variáveis inferidas) dessas  
mensagens. (Bardin, 2016, p. 48, grifo da autora).  
As categorias encontradas serão melhor detalhadas posteriormente neste artigo.  
Convém, antes de qualquer análise que envolva a radicalização de posicionamentos  
políticos da sociedade, esclarecer o que se entende por 'esquerda e direita' no contexto deste  
artigo. Essa distinção, aliás, tem sido feita a partir de ideias conflitantes, gerando muita  
discórdia nos dias de hoje. Assim, questiona-se: o que se convencionou chamar politicamente  
de “esquerda e direita”? O que as caracteriza?  
2.1 SOBRE A DÍADE 'ESQUERDA E DIREITA'  
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Utiliza-se aqui o conceito de distinção de Bobbio (1994), que entende a díade  
“esquerda e direita” como antitética. Não se pode ser de direita e esquerda ao mesmo tempo,  
pois uma é oposição da outra e, por isso mesmo, excludentes. Existem distinções de  
posicionamentos dentro desses grupos e que se vinculam à díade “moderados e extremistas”.  
Assim, segundo Bobbio (1994), “esquerda e direita” poderiam ser melhor organizadas da  
seguinte forma: extrema-esquerda, esquerda, centro-esquerda, centro, centro-direita, direita e  
extrema-direita. A díade “extremismo-moderantismo” está relacionada com a radicalização e  
não com as ideias em si. O centro pode ser entendido como uma tentativa de síntese, podendo  
se colocar: a) Terceiro incluído, de forma a evitar o choque na busca de uma terceira solução  
(nem direita, nem esquerda); ou, b) Terceiro inclusivo, procurando unicidade, duas partes de  
um todo (direita e esquerda) em uma tentativa de terceira via.  
Segundo o mesmo autor, a característica que demarca mais fortemente a distinção  
entre “esquerda e direita” é a doutrina igualitária. Um movimento inspirado na doutrina  
igualitária visa a minimização das desigualdades sociais e, historicamente, esse é um traço  
ligado à política de esquerda. Portanto, a esquerda é mais igualitária, no sentido de defender  
princípios e propor políticas igualitárias, e a direita mais inigualitária. O princípio igualitário  
entende que a maior parte das desigualdades são de origem social e podem ser eliminadas  
(artificialismo). O inigualitário parte da ideia de que as desigualdades são naturais e são,  
portanto, inelimináveis (natureza humana).  
5
Disso decorre que quando se atribui à esquerda uma maior sensibilidade para  
diminuir as desigualdades, não se deseja dizer que ela pretende eliminar todas as  
desigualdades ou que a direita pretende conservá-las todas, mas, no máximo, que a  
primeira é mais igualitária e a segunda é mais inigualitária (Bobbio, 1994, p. 103).  
Doutrina igualitária é diferente de igualitarismo, este último “[...] entendido como  
‘igualdade de todos em tudo’” (Bobbio, 1994, p. 100).  
De forma geral, as políticas de direita estão vinculadas à tradição (os costumes, a  
ordem, a força do passado). As políticas de esquerda pretendem minimizar diferenças geradas  
pelos privilégios de raça, classe etc. (emancipação). Apesar de antitéticas, as políticas de  
esquerda e direita, quando radicalizadas, se tocam: extrema esquerda e extrema direita têm em  
comum a antidemocracia (aversão à democracia); derrapam para o autoritarismo.  
Para Cofrancesco (1990 apud Bobbio, 1994), as ideologias de esquerda e direita  
podem ser classificadas em posturas: a) romântica (espiritualista), em que a política é  
vivenciada sentimentalmente; e, b) clássica (realista), entendida no comportamento do  
espectador crítico. Essas posturas poderiam ser sistematizadas no espectro político conforme  
disposto no Quadro 1.  
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Quadro 1 - Posturas cognitivas na política  
Política  
Posturas cognitivas  
Correntes  
Direita  
Ideologia romântica  
Tradicionalismo  
Fascismo  
Ideologia clássica  
Conservadorismo  
Esquerda  
Ideologia romântica  
Anarco-libertarismo  
Ideologia clássica  
Ideologia clássica  
Socialismo científico  
Esquerda e Direita  
Liberalismo (conforme contextos)  
Fonte: Elaboração das autoras, com base em Bobbio (1994).  
A partir desse panorama a respeito dos diferentes posicionamentos que constituem o  
espectro político, e tendo no conceito de “igualitário” a principal distinção das políticas de  
esquerda e direita, destacam-se alguns acontecimentos mundiais, ocorridos nos últimos anos.  
Entende-se que as pessoas podem transitar por diferentes ideias a depender do tema e  
contexto. A ideia aqui é fazer uso de uma forma de classificação para a realização de uma  
análise mais abrangente sobre o cenário político. Procede-se, aqui, a uma breve análise com  
relação à Europa e ao Brasil especificamente, mas compreendendo que a ascensão da  
extrema-direita é um fenômeno mundial e que ocorre em diferentes países, cada qual com o  
seu contexto e singularidades, mas que partilham de determinadas características e podem-se  
situar no campo da extrema-direita.  
6
2.2 ASCENSÃO DA EXTREMA-DIREITA  
Löwe (2015) diferencia os aspectos políticos de 1930 na Europa, que nos anos  
seguintes dão início aos regimes fascistas totalitários na Itália e Alemanha, e os movimentos  
que ocorrem hoje. A globalização é característica decorrente do capitalismo neoliberal e se  
diferencia do nacionalismo econômico dos regimes fascistas e semifascistas. A extrema-  
direita da Europa atual é mais diversificada, porém, segundo Löwe (2015), mantém em  
comum os seguintes traços: nacionalismo (e objeção a qualquer tipo de unidade europeia),  
xenofobia, racismo, ódio a imigrantes e ciganos, islamofobia e anticomunismo. Segundo  
Löwe (2015, p. 654-655), uma tipologia da extrema-direita europeia atual poderia ser  
estruturada da seguinte forma:  
I. Partidos de caráter diretamente fascista e/ou neonazista.  
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II. Partidos semifascistas.  
III. Partidos de “extrema-direita” que não possuem origens fascistas, mas  
compartilham do seu racismo, xenofobia, retórica anti-imigrante e islamofobia.  
Na tentativa de explicar o crescente triunfo da extrema-direita, Löwe (2015) aponta  
como fatores de influência: a globalização e homogeneização cultural (que gera os “identify  
panics”; a busca incessante por raízes); a grave crise econômica dos últimos anos; e, fatores  
históricos (como o antissemitismo e a cultura colonial).  
Já no Brasil, o contexto é bastante diverso e introduz novos aspectos, como o tema da  
luta contra a corrupção. Esse assunto tem sido cooptado por grupos conservadores na tentativa  
de validar golpes militares (Löwe, 2015). Outras características da extrema-direita brasileira,  
segundo o autor, referem-se à ideologia repressiva, à intolerância com as minorias sexuais e  
associação com grupos religiosos evangélicos neopentecostais, e ao saudosismo da Ditadura  
militar.  
Cepêda (2018, p. 46) relaciona as seguintes condições como ligadas à extrema-direita:  
“[...] variáveis mais comuns e que ordenam os modelos são: nacionalismo, antiglobalismo,  
xenofobia, racismo explícito, retórica anti-imigrante, islamofobia, beligerância e  
intolerância.”. A autora cita ainda que, apesar de existirem diferentes tipos de  
conservadorismos, cada qual contextualizado a seu tempo, alguns eixos se manteriam, como a  
ligação com o tema 'prudência', o assentamento de uma ordem natural que condiciona  
indivíduos e instituições e a negação a qualquer forma de mudança radical e utópica. Alguns  
elementos relacionados ao conservadorismo pactuam com aspectos da extrema-direita, a  
exemplo de hierarquia, naturalização da desigualdade, pessimismo quanto à natureza do  
homem e os limites da política.  
7
Hirschman (1992 apud Cepêda, 2018) contribui para pensar as estratégias retóricas do  
campo conservador, apropriado pela direita de forma geral. Vale destacar que estas estratégias  
são amplamente utilizadas pela extrema-direita. A autora refere-se a três arranjos  
argumentativos: perversidade, futilidade e ameaça.  
O primeiro, a tese da perversidade, refuta as mudanças propostas pelas políticas  
públicas (ferramenta fundamental para o modelo do Welfare State ou, aplicado ao  
caso brasileiro, para o projeto desenvolvimentista) como produtora de efeitos  
indesejáveis (perversos), quiçá anuladores das proposições originais que guiaram a  
defnição de uma estratégia política específica. O segundo, a tese da futilidade,  
aponta o risco de uma política adotada ser inócua, incapaz de produzir os efeitos  
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desejados de mudança social. A terceira, a tese da ameaça, introduz a ideia de risco  
de perda substancial de algum ganho já existente pela adoção da nova política.  
Somadas, essas teses produzem um discurso que banaliza, aponta a impotência e o  
ridículo de políticas públicas com algum significativo grau de orientação para  
mudança de condições sociais e alteração dos níveis de desigualdade (Cepêda, 2018,  
p. 48).  
Com relação às novas estratégias utilizadas pela extrema-direita, a autora destaca uma  
que se circunscreve fora do debate racional: “[...] a guerra híbrida, com o recurso à  
falsificação da história e do marco teórico, com associações perversas entre temas, eventos,  
ideias que de fato não ocorreram” (Cepêda, 2018, p. 49). Aqui, destacam-se as fake news e  
todo tipo de argumento que contribui para a constituição da pós-verdade. Detém-se, nessa  
prática, os porta-vozes da extrema-direita na imprensa, redes sociais e mundo acadêmico:  
intelectuais do campo, ideólogos militantes e formadores de opinião que disseminam as  
formulações do campo para a sociedade.  
Em consonância com os autores citados anteriormente, Santos e Tanscheit (2019)  
fazem um panorama histórico brasileiro, apontando a ascensão da extrema-direita (“nova  
direita”, como coloca Cepêda, ou “direita radical”, como mencionam Santos e Tanscheit). O  
resultado das eleições de 2018 resultou em dois importantes acontecimentos: a ruptura com o  
sistema partidário e a troca de guarda da direita moderada em direção à extrema-direita  
(Santos; Tanscheit, 2019).  
Já alguns partidos, como PSD, PP e DEM (chamados de "centrão") se movem  
politicamente de acordo com interesses específicos e apoiam projetos dependendo de suas  
próprias agendas individuais. Por isso são siglas que não apresentam uma unificação de ideias  
e propostas.  
8
Como resultado da eleição de 2018, três partidos políticos perderam representação  
parlamentar em relação à bancada de 2014: PT, PSDB e MDB. Baseado nos dados do site da  
Câmara dos Deputados, tomam posse os seguintes números de deputados:  
Quadro 2 - Representatividade dos partidos na Câmara dos Deputados no momento da posse  
Partidos  
PT  
2015  
2019  
69  
54  
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PSDB  
54  
29  
MDB  
PSL  
PSD  
PP  
65  
1
34  
51  
35  
38  
29  
30  
36  
38  
21  
21  
DEM  
PRB  
Fonte: Elaboração dos autores com base nos dados da Câmara dos Deputados (2024).  
A representatividade do PT na Câmara dos Deputados reduziu em 15 deputados. Já  
PSDB e MDB, somados, tiveram redução de 56 deputados. O PSL, por sua vez, tornou-se a  
principal organização de direita nas eleições de 2018 na Câmara dos Deputados. Em 2015 o  
PSL - então partido de Bolsonaro - contava com apenas 1 parlamentar; em 2019 passou a 51  
parlamentares (Câmara dos Deputados, 2024).  
Para as eleições de 2022, podem-se observar algumas movimentações de políticos e de  
partidos políticos. O então PSL se funde ao tradicional DEM, se tornando o União Brasil2.  
Jair Bolsonaro ingressa no Partido Liberal (PL) em 2021 e perde o pleito de 2022 em uma  
disputa apertada para Lula, que faz seu terceiro mandato3. Surgem algumas federações  
partidárias com o intuito de ganhar representatividade no congresso e, com isso, maior poder  
de influência nas decisões e aprovações de projetos. Esse é o caso da Federação PT, PCdoB e  
PV e também da Federação PSDB e Cidadania. O conservador Republicanos4, antes  
denominado PRB, também aumentou o número de cadeiras nos últimos pleitos, alcançando a  
sétima maior bancada na Câmara. Tomam posse em 2023 o seguinte número de congressistas:  
9
Quadro 3 - Representatividade dos partidos na Câmara dos Deputados no momento da posse  
Partidos  
2023  
3
Lula recebe 50,90% dos votos válidos e Bolsonaro 49,10%, segundo página de notícias do Senado:  
4 Sobre a história deo Partido Republicanos, acessar: https://republicanos10.org.br/sobre-o-republicanos/.  
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Federação PT, PCdoB e PV  
81  
18  
42  
59  
99  
42  
47  
40  
Federação PSDB e Cidadania  
MDB  
União Brasil (PSL + DEM)  
PL  
PSD  
PP  
Republicanos (antigo PRB)  
Fonte: Elaboração dos autores com base nos dados da Câmara dos Deputados (2024).  
Subentende-se aqui o PSDB como circunscrito em uma posição de direita moderada  
no espectro político e o PSL, à época das eleições, como um partido representativo da  
extrema-direita. O PT e o PSDB, da redemocratização até as eleições de 2018, constituíam a  
principal oposição no âmbito da política brasileira, sendo o PT o partido com maior presença  
na esquerda e o PSDB, na direita. O PL, partido de Bolsonaro em 2022, elegeu 99 deputados,  
somado ao União Brasil, com 59 cadeiras, é possível observar um deslocamento das ideias  
dos representantes caminhar à direita do espectro político e uma tendência à radicalização.  
Santos e Tanscheit (2019) analisam esse fenômeno e oferecem hipóteses para essa  
mudança no comportamento eleitoral no Brasil. Segundo os autores, dois eventos prévios às  
eleições de 2018 foram determinantes nessa troca de guarda para a extrema-direita: a  
operação Lava Jato, que impactou fortemente o PT, mas também o PSDB e MDB; e o  
impeachment de Dilma Rousseff em 2016, entendido como “golpe parlamentar” do PSDB e  
MDB para a volta ao poder com a influência na posterior gestão de Michel Temer  
(profundamente marcada pela rejeição social). O PSDB, enquanto direita moderada, tendia à  
defesa da democracia e apresentava como linhas gerais: alguns projetos de bem-estar social, a  
defesa na economia de mercado, instituição de reformas liberalizantes, tais como a  
desregulamentação financeira e a privatização de empresas públicas (Santos; Tanscheit,  
2019). Já a extrema-direita, apresenta um perfil diversificado, mas mantém unidade em torno  
de alguns temas: nacionalismo, xenofobia, racismo e aversão à democracia.  
10  
Na Europa, esses partidos políticos têm dois inimigos em comum: o establishment e  
o pluralismo político. Essa oposição é verificada tanto em uma estratégia discursiva  
de moralização do debate político e de crítica ao sistema partidário quanto em seus  
posicionamentos sobre temas como migração, igualdade de gênero e direitos de  
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lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e transgêneros (LGBTs) (apud  
Mudde 2007). É constante, nesse sentido, a tensão com a própria democracia e, no  
caso do Brasil, com o sistema proporcional, marcado pela diversidade e alteridade  
de posicionamentos (apud Kitschelt 1996; Norris 2005; Mudde 2007; Rydgren  
2018) (Santos; Tanscheit, 2019, p. 156-157).  
Segundo os autores, há três fatores que podem retratar a extrema-direita: I. orientação  
neoliberal da economia, com um posicionamento radicalmente não intervencionista; II.  
destaque para pautas conservadoras na esfera comportamental e pela influência do Estado em  
relação às escolhas de orientação sexual, religiosas, culturais e educacionais; e, III. hostilidade  
ao sistema político democrático e à forma como a representação política é desenvolvida,  
buscando suprimir posições contrárias (discursos e partidos). Em suma, a extrema-direita une  
os aspectos autoritarismo, conservadorismo e neoliberalismo.  
Nas últimas décadas, pode-se observar um aumento no número de políticas que visam  
reduzir desigualdades, especialmente quando se destacam grupos minoritários. Quanto mais  
as políticas avançam no sentido de minimizar as desigualdades sociais, maior a ruptura com o  
passado (tradição). Nesse sentido, quem se localiza à direita pode sentir que seu sistema de  
crenças está ameaçado e lutar para conservar o que se “perdeu” se radicalizando, por mais que  
nem todas as políticas sociais sejam limitadoras, a exemplo do sufrágio feminino ou o  
reconhecimento dos direitos dos imigrados (Bobbio, 1994).  
Observando as movimentações políticas, tanto no cenário global quanto nacional,  
observa-se uma radicalização de posicionamento de opiniões públicas em direção à extrema-  
direita do espectro político. De acordo com Cepêda (2018), a presença de militantes,  
intelectuais e ideólogos nas redes sociais auxiliam na disseminação discursiva das ideias do  
campo da extrema-direita. Empresas focadas em marketing digital político também atuam  
nesse cenário. A maneira como as redes “funcionam” (sua dinâmica e arquitetura)  
contribuíram e contribuem fortemente com as estratégias políticas mencionadas e atuam de  
forma significativa no comportamento social.  
11  
2.3 IMPLICAÇÕES DOS ALGORITMOS NO CONTEXTO DA PÓS-VERDADE E DA  
CRISE DA DEMOCRACIA  
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A fim de responder à principal questão deste artigo: como a questão algorítmica se  
relaciona com a pós-verdade e com a crise da democracia? Foi realizada uma pesquisa  
qualitativa de cunho bibliográfico, como mencionado anteriormente. Os artigos encontrados  
são listados no quadro a seguir.  
Quadro 4 - Artigos analisados nesta pesquisa  
No  
Título  
Autor/a/res  
Democracia líquida, pós-verdade e o processo eleitoral Joabson Melo Silva de Aquino,  
1
brasileiro.  
Adriano Nascimento Silva  
Formulação, implementação e controle de políticas públicas  
no contexto “pós”: pós-modernidade, pós-democracia e pós-  
verdade como mudanças de paradigma.5  
Maria Valentina de Moraes, Mônia  
Clarissa Hennig Leal  
2
O problema das fake news e a crise da democracia liberal na Lucas Oliveira Vianna, Matheus  
3
4
era da pós-verdade  
Thiago Carvalho Mendonça  
Historicidade do estatuto da (pós)-verdade e a comunicação  
social estruturada por algoritmos  
André Freire Azevedo  
Desinformação e pós-verdade nas redes: negacionismo e  
teorias conspiratórias na concretude da vida  
5
6
Thiago Cury Luiz  
Isis Maria da Graça Ferreira Santos,  
Arnaldo Provasi Lanzara, Soraia  
Marcelino Vieira  
Democracia do boato  
7
8
Da hipocrisia aos cinismos  
Democracia e verdade  
Paula Sibilia  
Luís Felipe Miguel  
12  
Eliene Vieira Lima, Larissa Silva  
Abreu, Mariano Muñiz, Sérgio César  
Corrêa Soares Muniz  
9
A erosão da verdade na esfera pública  
Suliendson  
André Bonsanto  
Dantas  
Nascimento,  
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Teoria da verdade e crise do sistema de autoridade  
Fake news e o esvaziamento da esfera pública: análise crítica Regina Rossetti, Renata Abibe  
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da crise de confiança nas instituições democráticas  
Ferrarezi Bernardino  
Rodrigo de Siqueira Bicudo, Ricardo  
Roberto Plaza Teixeira  
Educação científica e negação da ciência  
As dinâmicas das fake news na era digital: quando a mentira Rogério Borba da Silva, Ana Flávia  
vira método  
Costa Eccard, Salesiano Durigon  
Fonte: Portal de Periódicos da CAPES (2024).  
Embora muitas sejam as perspectivas e elementos abordados em cada artigo, para o  
contexto deste trabalho interessa identificar as relações estabelecidas pelos autores entre o  
contexto de funcionamento das plataformas digitais, a constituição da pós-verdade e seus  
impactos para a democracia. A Análise de Conteúdo (Bardin, 2016), portanto, se pautou na  
5 Este resultado foi indexado de forma duplicada no momento da pesquisa.  
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construção de categorias temáticas, onde o foco é compreender a definição de pós-verdade e a  
relação entre os fenômenos citados. O procedimento elencado é por acervo, onde "O título  
conceitual de cada categoria somente é definido no final da operação" (Bardin, 2016, p. 149).  
A partir da análise temática, pode-se observar o conceito de pós-verdade a partir dos  
seguintes contextos:  
Manipulação emocional e apelo às crenças pessoais: a pós-verdade é vista como  
um contexto onde a verdade objetiva perde relevância e discursos baseados em  
emoções tomam espaço, especialmente, nas mídias sociais. A verdade factual se  
torna secundária e ocorre uma proliferação de desinformação. Esta categoria está  
mais vinculada ao sentido dado pelo Dicionário Oxford.  
Crise política e social: o contexto da pós-verdade gera um enfraquecimento das  
instituições de autoridade (seja a mídia jornalística ou as instituições políticas) e  
as fake news são entendidas como sintoma de um sistema político que está em  
crise, em que a verdade é relativizada para atender a interesses específicos. Fake  
news não são entendidas somente como notícias falsas, mas como método de  
manipulação; a criação de conteúdos enganosos com a intenção deliberada de  
desinformar, influenciando diretamente a constituição da opinião pública.  
Ataques à ciência: discursos onde a ciência é atacada por movimentos  
negacionistas também compõem a ambiência da pós-verdade. Grupos  
negacionistas se beneficiam da disseminação de desinformação para proliferar  
suas próprias narrativas.  
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O capitalismo avançou passando de uma economia industrial para uma economia  
digital em que oligopólios da indústria da tecnologia dominam o mercado de plataformas  
digitais e desenvolvimentos de sistemas baseados em Inteligência Artificial, como destacam  
Han (2022) e Zuboff (2020). Essas empresas desenvolvem seus sistemas a partir da aplicação  
de determinados algoritmos para fins de monetização e alguns, a exemplo do algoritmo de  
recomendação, impactaram profundamente a forma como ocorre a comunicação social. Essa  
organização econômica-social do mundo digital, chamada aqui de 'questão algorítmica', tem  
profunda relação com o fenômeno da pós-verdade, afetando diretamente os sistemas  
democráticos, a confiança nas instituições e a forma como a própria política acontece. A  
exemplo de candidatos e partidos adaptando seus discursos e formas de comunicação com  
seus eleitores a partir de critérios que atendem ao funcionamento das plataformas digitais.  
Discursos não mais baseados em explanação de argumentos e projetos, mas em falas de cunho  
emocional para cortes de trinta segundos que visam gerar engajamento nas redes sociais.  
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Pode-se observar a relação entre os fenômenos descritos a partir da análise dos artigos listados  
e as correlações que se inserem nas seguintes categorias:  
Algoritmo de recomendação, engajamento e eleições: a lógica como os conteúdos  
são elencados nas redes sociais partem do engajamento e da personalização - com  
base nos dados de tráfego dos usuários pelas redes. Grupos intencionados em  
manipular a opinião pública entendem a lógica desses algoritmos, produzem  
conteúdos manipulativos para gerar reações emocionais (maior engajamento) e  
construir determinadas visões de mundo (conteúdos similares agrupados que  
formam um recorte da realidade). Pode-se observar o uso intensivo das redes  
durante as eleições de Trump (EUA) e Bolsonaro (BR) com uma agenda política  
específica.  
Bolhas e polarização: as chamadas "bolhas" são constituídas a partir da  
organização dos feeds de forma personalística, através especialmente do  
engajamento e do algoritmo de recomendação, como citado, o que gera uma  
fragmentação da sociedade (cada qual com sua "verdade"). Essa arquitetura das  
redes digitais tende a amplificar desinformações, já que não existe uma  
moderação ou curadoria de conteúdo e cada feed é transformado em um sistema  
de verdade concorrente. Gera binarismos e polarização, estremece os consensos  
democráticos e mina a esfera pública.  
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Populismo autoritário e crise da democracia: a falta de coesão nas informações  
acessadas pela sociedade e o apelo às emoções, gera desconfiança nas instituições  
democráticas e compromete o debate público. Observou-se o surgimento de um  
populismo de direita fundados em narrativas autoritárias e conservadoras nas  
redes.  
Crise de confiança na ciência: a disseminação de fake news nas redes torna o  
terreno fértil para o negacionismo. Motivos relatados para isso, no contexto  
brasileiro, estão relacionados à intervenção de instituições religiosas no campo  
político e o baixo letramento científico.  
Sobre o item "Algoritmo de recomendação, engajamento e eleições", extrapolando as  
análises dos artigos elencados, pode-se fazer uma correlação com a corrida eleitoral para a  
prefeitura de São Paulo no ano de 2024, onde o candidato Pablo Marçal fez uso massivo de  
estratégias digitais para se autopromover, como é o caso das falas curtas, provocativas e com  
apelo emocional para gerar cortes para as redes sociais.  
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A partir desta investigação, este trabalho busca compreender as implicações dos  
algoritmos no contexto da pós-verdade, contribuindo para o debate sobre as ameaças  
emergentes à democracia em tempos de profunda transformação digital.  
3 A QUESTÃO ALGORÍTMICA: COMO O EXTRATIVISMO DE DADOS E AS  
RECOMENDAÇÕES AFETAM A ESFERA PÚBLICA DEMOCRÁTICA  
A descentralização da comunicação com a ascensão da internet gerou, há alguns anos,  
a expectativa de democratização da informação, da comunicação, bem como um consequente  
otimismo com relação a esse novo aparato de contrapoder (Pinto; Jacon; Moraes, 2020). No  
entanto, observando a forma como as plataformas digitais foram desenvolvidas a partir do  
ponto de vista econômico, o otimismo deu lugar a uma forte preocupação com relação à  
maneira como esses sistemas monetizam e o impacto social que causam na própria  
democracia.  
Ao utilizar um conjunto de ferramentas digitais gratuitas, tais como e-mail, YouTube,  
Facebook, Instagram, aceita-se automaticamente que os dados inseridos nesses locais sejam  
utilizados para diferentes fins, especialmente para a publicidade. Para que essas ferramentas  
sejam disponibilizadas de forma gratuita pelas grandes empresas de tecnologia ao público em  
geral, é preciso que seu negócio seja viabilizado pelos reais clientes: empresas que utilizam os  
dados de usuários para que a venda de seus produtos ou serviços seja mais efetiva, por meio  
da oferta exatamente àqueles que estão mais propensos à compra. Isso ocorre com a extração  
de dados e dos algoritmos de análise específicos para mapear e interpretar ações realizadas  
pelos usuários no mundo digital. Sobre isso, o pesquisador do papel da tecnologia, Evgeny  
Morozov, destaca que:  
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A premissa-chave do extrativismo de dados é a de que os usuários são estoques de  
informações valiosas. As empresas de tecnologia, por sua vez, concebem formas  
inteligentes de nos fazer abdicar desses dados, ou, pelo menos, de compartilhá-los  
voluntariamente. Para as empresas, tais dados são essenciais para viabilizar modelos  
de negócio baseados na publicidade - com dados em mais quantidade e de melhor  
qualidade, elas conseguem gerar mais publicidade por usuário - ou para desenvolver  
formas avançadas de inteligência artificial centradas no princípio do "aprendizado  
profundo"; neste caso, é útil sobretudo a diversidade das entradas de dados - e a  
capacidade de arregimentar milhões de usuários para ensinar diferentes  
comportamentos à máquina (Morozov, 2018, p. 165).  
Com o avanço acelerado das capacidades tecnológicas em extrair, estocar e organizar  
dados (Big Data), as possibilidades de utilização desses dados por diferentes empresas amplia  
consideravelmente. Com base em Morozov (2018), pode-se dizer que esse evento caracteriza-  
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se como “economia digital emergente”, que ocorre por meio das lentes do extrativismo de  
dados.  
O sentimento de sobrecarga de informação e perda de foco, característico do uso de  
dispositivos como smartphones, por exemplo, não é ocasional, mas resultado do trabalho de  
design dessas ferramentas para manter o interesse dos usuários. Quanto maior o tempo de uso,  
maiores são os estoques de dados coletados e armazenados. Essa concentração de dados fica  
sob os cuidados de algumas poucas empresas, o que “[...] pode fazer com que se tornem os  
principais guardiões (potencialmente em busca de lucros) da nova economia digital”  
(Morozov, 2018, p. 167). Esses estoques de dados se tornaram, hoje, o maior produto das  
grandes empresas que fornecem as principais ferramentas digitais utilizadas.  
Para que anúncios e mensagens apresentados nessas plataformas chamem a atenção do  
usuário no oceano de informações disponíveis, é necessário cada vez mais fazer uso de  
estratégias eficazes. “Trata-se de algoritmos que favorecem mensagens simplistas e  
provocativas, por entender que essas possuem maior probabilidade de gerar engajamento.  
Além de simples, também possuem vantagens os conteúdos negativos por chamarem mais  
atenção do que as mensagens positivas” (Pinto; Jacon; Moraes, p. 75). Quanto mais  
compartilhamentos tiver uma determinada mensagem, mais potencialmente lucrativa ela se  
torna.  
Não se trata de uma crítica à tecnologia em si, mas à forma como ela é utilizada para a  
extração de dados e monetização. Essa é a base da economia digital e essas estratégias cada  
vez mais eficazes estão à disposição de qualquer setor interessado em utilizá-las, desde que  
invistam um determinado valor monetário para isso. Nesse sentido, fica mais claro  
compreender o caso da Cambridge Analytica6 como representativo do que está em jogo na  
economia digital, e como todo esse contexto afeta a própria democracia.  
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Para a pesquisadora Zuboff (2020), autora do livro “A era do capitalismo de  
vigilância: a luta por um futuro humano na nova fronteira com o poder”, a economia digital de  
Morozov foi aprofundada no conceito de “capitalismo de vigilância”. A extração de dados  
serve como condição para mapear comportamentos humanos. Ao criar um mapa de  
comportamentos, torna-se viável realizar uma previsão de comportamentos futuros de um  
indivíduo, um grupo ou comunidades inteiras. Sobre isso a autora argumenta que,  
O capitalismo de vigilância reivindica de maneira unilateral a experiência humana  
como matéria-prima gratuita para a tradução em dados comportamentais. Embora  
alguns desses dados sejam aplicados para o aprimoramento de produtos e serviços, o  
restante é declarado como superávit comportamental do proprietário, alimentando  
6 Para saber sobre o caso da Cambridge Analytica: https://www.bbc.com/portuguese/internacional-43461751.  
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avançados processos de fabricação conhecidos como “inteligência de máquina” e  
manufaturado em produtos de predição que antecipam o que um determinado  
indivíduo faria agora, daqui a pouco e mais tarde. Por fim, esses produtos de  
predições são comercializados num novo tipo de mercado para predições  
comportamentais que chamo de mercados comportamentais futuros. Os capitalistas  
de vigilância têm acumulado uma riqueza enorme a partir dessas operações  
comerciais, uma vez que muitas companhias estão ávidas para apostar no nosso  
comportamento futuro (Zuboff, 2020, p. 17-18).  
A autora faz a ressalva de que “O capitalismo de vigilância não é tecnologia; é uma  
lógica que permeia a tecnologia e a direciona numa ação. O capitalismo de vigilância é uma  
forma de mercado que é inimaginável fora do meio digital, mas não é a mesma coisa que  
‘digital’” (Zuboff, 2020, p. 26). Menciona, ainda, que a difícil análise do fenômeno  
vivenciado hoje com o capitalismo de vigilância, deve-se ao seu caráter “sem precedentes” e  
que as categorias teóricas/conceituais que existem são insuficientes para identificar e discutir  
esse novo regime. “Aquilo que não tem precedentes é necessariamente irreconhecível”  
(Zuboff, 2020, p. 23).  
Esses mecanismos de predição, cada vez mais complexos e capazes, são utilizados  
como fundação para a oferta de produtos e serviços, mas também para a indução à compra de  
produtos e serviços (economias de ação) (Zuboff, 2020). A autora argumenta que:  
O superávit comportamental precisa ser vasto e variado, porém a maneira  
mais segura de predizer comportamento é intervir na sua fonte e moldá-lo. Os  
processos inventados para alcançar essa meta são o que chamo de economias de  
ação. Para conseguir tais economias, processos de máquina são configurados para  
intervir no estado do jogo no mundo real entre pessoas e coisas reais. Essas  
intervenções são projetadas para aumentar a certeza através de certas atividades: elas  
incentivam, sintonizam, vigiam, manipulam e modificam o comportamento em  
direções específicas ao executar ações sutis, tais como inserir uma frase específica  
no Feed de Notícias do Facebook, programar o surgimento de um botão COMPRAR  
na tela do seu celular, ou desligar o motor do seu carro quando um pagamento do  
seguro está atrasado (Zuboff, 2020, p. 234).  
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Esse potencial de modelagem de comportamentos tem sido utilizado por empresas e,  
como pode-se observar, como parte de uma estratégia política, como exemplo, em relação ao  
referendo Brexit, no Reino Unido e a candidatura de Trump, nos EUA (Pinto; Jacon; Moraes,  
2020). Da mesma maneira, pode-se incluir a candidatura de Bolsonaro no Brasil. Todos esses  
eventos são representativos do potencial dessas ferramentas para oferta, predição e  
modelagem de comportamentos. A criação de anúncios personalizados de acordo com os  
perfis de usuários (psychometric profiling), as sugestões para acesso a conteúdos similares  
(que propiciam a manutenção da “bolha”), a viralização de mensagens sensacionalistas que  
apelam a emoções no lugar de fatos, entre tantas outras estratégias, foram amplamente  
empregadas nos eventos citados para veicular o discurso através do qual se pretendia alcançar  
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politicamente uma grande massa e, assim, intervir na “percepção de realidade” (Han, 2022) e  
direcionar comportamentos para os fins desejados. Muito distante, portanto, de um ambiente  
propício para ser uma esfera pública que discuta, com base na racionalidade e na capacidade  
argumentativa, assuntos de interesse comum e para o bem comum (Habermas, 2023).  
Grupos políticos situados em diferentes esferas do espectro político fazem uso das  
redes na utilização de táticas de convencimento do público em geral. Estratégias de  
convencimento fazem parte do campo político. A grande novidade é que os grupos de  
extrema-direita fizeram um uso estratégico e sistemático das plataformas digitais,  
aproveitando o potencial de intervenção comportamental de indivíduos, grupos e  
comunidades, para alcançar os resultados políticos esperados. Trata-se da modelagem de  
comportamentos por meio das ferramentas digitais - invisível, intencional, manipuladora -  
que afeta o jogo democrático. As suscetibilidades das pessoas são identificadas, mapeadas e  
manipuladas por meio das possibilidades abertas, através das economias de ação, que  
permitem alterar o jogo democrático sem afetar nenhuma regra.  
É dessa forma que a ambiência de pós-verdade é vivenciada hoje: com base na  
percepção de um mundo que é cada vez mais mediado por tecnologias que selecionam  
informações e induzem os usuários a determinadas ações; que geram um sentimento de  
liberdade e de escolha que é falacioso em determinada medida, dada a capacidade de  
filtragem de mensagens às quais as pessoas são expostas. De fato, é o conjunto de  
informações que os usuários deixam na internet, sobre si mesmos, que alimenta o algoritmo  
que, por sua vez, os guia para escolhas que parecem ser livres, mas que foram sutilmente  
fornecidas pela Matrix.  
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4 CONCLUSÃO  
O atual tempo histórico apresenta grandes desafios aos pesquisadores e pensadores. O  
fenômeno da extensa disseminação de discursos pautados em desinformação faz parte de um  
contexto mais amplo e que está intrinsecamente ligado ao cenário econômico e político. A  
rejeição à verdade factual e equiparação destas às opiniões pessoais, pautadas na experiência  
pessoal e no conjunto de crenças individuais, a vasta difusão de fake news ou informações  
distorcidas, são sintomas de um sistema econômico e político que está carente por mudanças  
mais significativas e contundentes.  
As ferramentas digitais desenvolvidas inicialmente com o objetivo de aproximar  
pessoas e todo o tipo de otimismo com relação a essas inovações, mostraram, nos últimos  
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anos, que podem gerar efeito inverso e atuar para a ampliação de discursos polarizantes. A  
extrema-direita tomou carona nas possibilidades tecnológicas colocadas pela economia digital  
e suas ferramentas voltadas ao extrativismo de dados, predição e intervenção comportamental,  
provocando intensas transformações no tecido social e na esfera pública democrática. Grupos  
radicalizados, com seus vieses autoritários, conservadores, avessos à políticas sociais de  
minimização de desigualdades, burlaram as regras do jogo democrático usando de uma  
determinada liberdade do universo digital para colocar em xeque a própria democracia.  
Os caminhos possíveis para ampliação do tema aqui levantado referem-se a algumas  
reflexões necessárias nesses tempos de mudança:  
a) A retomada de uma “baliza epistemológica”: na falta de um instrumento de  
construção de conhecimento mais assertivo que a ciência, é necessária sua defesa  
e fomento, inclusive na educação formal de base, a fim de promover uma  
fundação comum para reflexão e discussão dos problemas que dizem respeito às  
sociedades e países;  
b) A ressignificação da política: a política enquanto campo plural que acolhe as  
diferenças permite o embate e o encontro de ideias; cria espaço para que  
oposições se reúnam em torno de temas comuns e que, através do diálogo e  
também do debate - da racionalidade discursiva (Habermas, 2023) -, se chegue a  
sínteses que priorizem de fato o bem comum;  
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c) Colocar como problema o modelo econômico em ação: o mesmo sistema que  
antes visava à exploração da natureza e da força de trabalho para a maximização  
do lucro, agora também empreende esforços para o extrativismo de dados na  
intenção de explorar comportamentos humanos, com o objetivo da máxima  
geração de lucro. O resultado tem sido “estar na Matrix”, vivendo em uma falsa  
ideia de liberdade, quando diversas das nossas escolhas e comportamentos sociais  
têm sido orientados por complexos algoritmos que atendem os objetivos das  
corporações que os criaram. Esse modelo tem demonstrado sua tendência a uma  
crise existencial, com resultados negativos para a natureza - inclusive para os  
seres humanos. Portanto, essa não é uma discussão para algumas posições do  
espectro político, mas para todos.  
d) Constituir espaços isentos: possibilitar, por meio de organizações civis e  
acadêmicas, territórios digitais plurais, livres da influência econômica e que  
possam se constituir como verdadeiras esferas públicas discursivas, apontando  
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possibilidades para se pensar e debater os problemas comuns, de forma  
democrática.  
e) Fomentar a educação para, com e sobre as mídias: a cultura digital e os desafios  
relacionados a ela devem ser integrados aos currículos escolares de forma que se  
possa orientar uma educação crítica para, com e sobre as mídias, enquanto  
ferramenta pedagógica, meio de expressão e objeto de estudo (Belloni, 2009).  
Por fim, espera-se que esse trabalho tenha contribuído para levantar muitas perguntas e  
possibilitado a ampliação da reflexão nos temas aqui abordados.  
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