ARTIGO  
QUESTÕES HABERMASIANAS SOBRE A INTEGRIDADE DA  
INFORMAÇÃO  
Clóvis Ricardo Montenegro de Lima  
Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia  
Cássia Angiolis  
Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia  
Ana Gabriela Clipes Ferreira  
Universidade Federal do Rio Grande do Sul  
Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia  
Letícia Souza  
Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia  
_____________________________  
Resumo  
Neste artigo faz-se uma revisão sistemática da abordagem crítica a partir do filósofo alemão Jurgen Habermas do  
processo social atual da desinformação, em especial com as teorias do agir comunicativo e do Discurso. Faz-se  
uma breve apresentação das teorias do agir comunicativo e do Discurso de Habermas, e sua guinada pragmática.  
O método principal de investigação é uma revisão sistemática nas bases de dados Scopus e Web of Science. São  
usados como estratégia de busca os termos "Habermas" AND "disinformation OR misinformation OR  
mis(information)". São apresentados os resultados da busca, após a limpeza dos dados dos artigos duplicados e  
refinamento para aqueles que abordam a Teoria do Agir Comunicativo. A discussão é realizada em torno dos  
artigos a partir das teorias de Habermas, da ideia de desinformação e dos meios de combatê-la. Entre os  
resultados observou-se pontos em comum nos artigos, como o uso dos termos fake news e desinformação como  
sinônimos, a preocupação com a democracia e como solução adotar medidas para controle e regulação. Conclui-  
se que a desinformação é movida a interesses, geralmente políticos.  
Palavras-chave: desinformação; Jürgen Habermas; Teoria do Agir Comunicativo.  
HABERMASIAN QUESTIONS ABOUT THE INTEGRITY OF INFORMATION  
Abstract  
This article presents a systematic review of the critical approach from the German philosopher Jurgen Habermas  
to the current social process of disinformation, especially with the theories of communicative action and  
discourse. A brief presentation is made of Habermas' theories of communicative action and discourse, and his  
pragmatic turn. The main research method is a systematic review in the Scopus and Web of Science databases.  
The terms "Habermas" AND "disinformation OR misinformation OR mis(information)" are used as a search  
strategy. The search results are presented, after cleaning the data from duplicate articles and refining them for  
those that address the Theory of Communicative Action. The discussion is carried out around the articles based  
on Habermas' theories, the idea of disinformation and the means of combating it. Among the results, common  
points were observed in the articles, such as the use of the terms fake news and disinformation as synonyms, the  
concern with democracy and adopting measures for control and regulation as a solution. It is concluded that  
disinformation is driven by interests, generally political.  
Keywords: Disinformation. Jürgen Habermas. Theory of Communicative Acting.  
Esta obra está licenciada sob uma licença  
LOGEION: Filosofia da informação, Rio de Janeiro, v. 11, ed. especial, p. 1-12, e-7365, nov. 2024.  
ARTIGO  
1 INTRODUÇÃO  
Neste artigo faz-se uma abordagem crítica do processo social atual da desinformação a  
partir do filósofo alemão Jurgen Habermas, em especial do seu trabalho após as guinadas  
linguística, com as teorias do agir comunicativo e do Discurso e da pragmática.  
A desinformação digital é uma praga contemporânea, numa sociedade marcada pelo  
uso da internet com suas plataformas e redes sociais. A desinformação mostra sua potência  
nefasta em dois processos sociais relevantes: as disputas políticas eleitorais e a pandemia  
global da Covid-19.  
Uma extrema-direita global se desenvolve a partir de uma estratégia de polarização  
política a partir de notícias fraudulentas no plebiscito sobre a saída do Reino Unido da  
Comunidade Europeia (Brexit). Essa estratégia se repete nas eleições de Donald Trump nos  
EUA e de Jair Bolsonaro no Brasil. Esta estratégia exitosa se reproduz em outros contextos e  
conflitos.  
Na pandemia da Covid-19 emerge um negacionismo, em primeiro lugar do próprio  
problema sanitário. Seguem-se conflitos em torno do enfrentamento das estratégias de  
controle e prevenção da doença. Grupos políticos de extrema direita refutam as medidas de  
isolamento social, advogam o uso de medicamentos ineficazes para tratamento e combatem o  
uso de vacinas para proteção específica.  
2
Esta política de polarização se baseia em uma visão simplória da distribuição  
estatística normal de eventos. Nela, um dos pólos atrai 25% para uma extremidade e disputa a  
atração de 50% do centro com os 25% do outro pólo. O que importa é mobilizar e coesionar  
sua parte da sociedade, para enfrentar a outra. Isso é discutido claramente pelos estrategistas  
da Cambridge Analítica na campanha do plebiscito Brexit do Reino Unido.  
Neste artigo faz-se uma breve apresentação das teorias do Agir Comunicativo e do  
Discurso de Habermas (Habermas, 2012). Essas teorias têm aspectos cognitivistas,  
construtivistas que resultam numa abordagem singular da informação. Em primeiro lugar, a  
informação é uma construção intersubjetiva e não apenas a cognição de um indivíduo. Por  
outro lado, a veracidade é uma dinâmica social de validação da correspondência com o mundo  
da vida e não o resultado da eficácia de um método.  
Neste artigo são apresentados os resultados de uma revisão sistemática nas bases de  
dados Scopus e Web of Science. Nela são usados os termos Habermas e desinformação. A  
discussão dos resultados é realizada a partir das teorias de Habermas, da ideia de  
desinformação e dos meios de combatê-la.  
LOGEION: Filosofia da informação, Rio de Janeiro, v. 11, ed. especial, p. 1-12, e-7365, nov. 2024  
ARTIGO  
Espera-se com este artigo abrir uma via de investigação e de reflexão do processo  
social de desinformação, de nefastas consequências na sociedade. Espera-se principalmente  
contribuir para buscar e enfrentar a desinformação em todas as suas formas, principalmente as  
notícias fraudulentas e as falsificações.  
2 HABERMAS, AGIR COMUNICATIVO E DISCURSO  
O filósofo alemão Jürgen Habermas é um dos maiores intelectuais vivos neste início  
de século XXI. Ele faz parte da denominada Escola de Frankfurt, que a partir de 1920  
desenvolve estudos da “Teoria Crítica”. Habermas é o principal membro vivo dessa Escola e  
tem uma vasta obra teórica.  
A primeira obra relevante de Habermas é “Mudança Estrutural da Esfera Pública”, sua  
tese orientada por Theodor Adorno, publicada em 1963 Nesta sua primeira fase Habermas é  
profundamente influenciado pelo pensamento marxista.  
Em 1981 ela faz a chamada “guinada linguística”, e faz a passagem da filosofia da  
consciência para a filosofia da linguagem. Neste contexto ele desenvolve sua obra de maior  
fôlego, a Teoria do Agir Comunicativo (TAC) (Habermas, 2002), onde a partir da discussão  
com filósofos modernos, ele vai construindo sua teoria, ao mesmo tempo do conhecimento e  
da sociedade. A partir da Teoria do Agir Comunicativo Habermas desenvolve a sua teoria do  
Discurso, onde estabelece que a interação pela linguagem está orientada para o entendimento,  
e que os conflitos podem ser superados pela argumentação. Assim, Habermas faz uma  
conexão entre linguagem e desenvolvimento moral mediada pelo Discurso.  
3
Em 1992 Habermas publica “Entre facticidade e validade”, onde discute a tensão entre  
fatos e normas a partir da sua Teoria do Discurso. Pode-se dizer que esta obra refaz a  
discussão de “Mudança Estrutural da Esfera Pública” a partir da filosofia da linguagem. Entre  
1981 e 1992 Habermas faz a passagem de uma visão quase anárquica da democracia para uma  
defesa do Direito como medium das sociedades democráticas (Habermas, 1997).  
Habermas usa intensamente o conceito de Discurso, que preconiza para a solução de  
conflitos, quando interage com outros pensadores. É assim quando desenvolve a Teoria do  
Agir Comunicativo. É assim também quando responde às críticas a sua “guinada linguística”  
(Habermas, 1989).  
A sua Teoria do Agir Comunicativo sofre objeções sobre a veracidade dos acordos  
construídos intersubjetivamente. Indaga-se sobre a garantia da correspondência entre o  
conteúdo dos acordos e o mundo da vida. Habermas faz então uma “guinada pragmática”  
LOGEION: Filosofia da informação, Rio de Janeiro, v. 11, ed. especial, p. 1-12, e-7365, nov. 2024  
ARTIGO  
dentro da sua guinada linguística. Ele advoga que os acordos devem ser validados em relação  
a sua objetividade, com a verificação dos conteúdos dos Discursos em relação aos fatos. A  
verdade é tematizada e discutida.  
A ideia de verdade como atributo inerente de afirmações é o que sustenta o suposto de  
que há um mundo de objetos independentes sobre os quais podemos afirmar fatos e concordar  
com eles. No entanto, quando essas afirmações não podem ser confrontadas diretamente com  
o mundo - o caso mais comum no mundo globalizado e com profusão de informação  
disseminada - as exigências de verdade podem ser comprovadas apenas pelo Discurso.  
O contato com o mundo tem mediação linguística que interfere diretamente na  
intuição e conceito de entendimento. A objetividade do que é informado está arraigada  
também na intersubjetividade do entendimento compartilhado e não é possível nos afastar  
dessa relação (Habermas, 2002).  
Os objetos no mundo são mediados pela linguagem e a objetividade da realidade se  
associa intimamente com a intersubjetividade. Um fato no mundo real não é descrito quando  
se torna informação, ele é defendido e justificado com a perspectiva adotada (Habermas,  
2002).  
No agir comunicativo, as práticas linguísticas e contextos culturais nos quais os  
indivíduos estão inseridos influenciam suas justificativas e posições. A racionalidade pura não  
é uma obrigação, todos os participantes são atores capazes de se justificarem, há um  
entendimento consensual de que todos têm autonomia e posições (Habermas, 2002).  
Na comunicação a verdade assume um papel central pois o falante só alcança seu ato  
de fala completo - ato ilocucionário - quando o receptor aceita a informação como válida. A  
compreensão da verdade é feita quando uma proposta pode ser justificada e publicamente  
aceitável: “A verdade de enunciados descritivos só pode ser fundamentada à luz de outros  
enunciados, e a de opiniões empíricas só com o auxílio de outras opiniões” (Habermas, 2004).  
4
3 MÉTODOS E RESULTADOS  
Foi realizada uma revisão sistemática, com a escolha dos termos a serem utilizados nas  
estratégias de busca, em duas bases interdisciplinares internacionais: Scopus e Web of  
Science (WoS). Os termos utilizados foram: "Habermas" AND "disinformation OR  
misinformation OR mis(information)" na busca avançada, todos os campos (título, resumo,  
palavras-chave). Ao refinar a pesquisa com os termos Teoria do Agir Comunicativo e/ou  
Discurso, não houve recuperação de registros, independente da estratégia.  
LOGEION: Filosofia da informação, Rio de Janeiro, v. 11, ed. especial, p. 1-12, e-7365, nov. 2024  
ARTIGO  
Exportados e organizados os dados em planilha eletrônica, foram eliminadas as  
duplicatas. Foram recuperados 9 registros na WoS e 11 na Scopus, ou seja, 19 registros.  
Eliminadas as duplicatas restaram 14 registros para a análise, sendo 13 artigos de periódicos e  
1 capítulo de livro.  
A primeira etapa da análise dos dados ocorre através do resumo de cada artigo com a  
análise das referências utilizadas pelos autores na pesquisa (Quadro 1). A próxima etapa  
elimina os registros que não citam conteúdos após a guinada linguística com a Teoria do Agir  
Comunicativo.  
Quadro 1 - Textos de Habermas utilizados nas referências  
Artigo/ Autor(es)/Periódico/Ano  
Referências de Habermas utilizadas  
Against Resilience: The (Anti-)Ethics Of Cita Habermas porém através de outros autores.  
Participation In An Unjust And Unequal  
Public Sphere/Banaji, Shakuntala. Javnost-  
the public. 2024.  
Communicative  
Misinformation In  
Process/Lauria, M; Soll, Mj.  
Action,  
Power,  
Site Selection Society Boston, Massachusetts Beacon Press  
Habermas, J. 1984. The Theory of Communicative Action  
And Habermas, J. 1979 Communication and the Evolution of  
A
Journal of planning education and Boston, Massachusetts: Beacon Press  
research. 1996.  
Coping  
With  
Disinformation:  
The Habermas, J. Mudança estrutural da esfera pública  
Protagonism Of The Judiciary And The Investigações sobre uma categoria da sociedade burguesa.  
Necessary Interdisciplinary Dialogue In The Editora Unesp, 1990.  
Construction Of A Public Policy/Bezerra,  
Gizella; Perius, Oneide.  
Humanidades & inovação. 2020.  
5
Desinformación, Odio Y Polarización En El Cita Habermas e a esfera pública mas não tem referências a  
Entorno Digital: Segregación De La Esfera obras.  
Pública  
Y
Efectos  
Sobre  
La  
Democracia/Martín Guardado, Sergio.  
Revista de estudios en derecho  
informacion. 2022.  
a
la  
Fake News As Systematically Distorted Habermas J. Legitimation Crisis, 1975.  
Communication:  
Intervention/Buschman, John.  
Journal of documentation. 2023.  
An  
Lis Habermas J. Critical Sociology, 1976.  
Habermas J. Communication and the Evolution of Society,  
1976.  
Habermas J. New Left Review, 1979.  
Habermas J. Philosophical-Political Profiles, 1983.  
Habermas J. New Left Review, 1985.  
Habermas J. The Theory of Communicative Action, 1984.  
Habermas J. Jurgen Habermas on Society and Politics: A  
Reader, 1989  
Habermas J. The Structural Transformation of the Public  
Sphere, 1989 Habermas J. Communication Theory, 2006  
Habermas J. Year 30: Germany’s second chance, Merkel’s  
European policy change of course and the German unification  
process, 2020  
LOGEION: Filosofia da informação, Rio de Janeiro, v. 11, ed. especial, p. 1-12, e-7365, nov. 2024  
ARTIGO  
Artigo/ Autor(es)/Periódico/Ano  
Referências de Habermas utilizadas  
Good News, Bad News, And Fake News Cita Habermas porém através de outros autores.  
Going Beyond Political Literacy To  
Democracy And Libraries/Buschman, John.  
Journal of documentation. 2018.  
Eleições Governamentais e Combate a Fake Habermas, J. Teoría de la Acción Comunicativa. Madrid:  
News no Brasil/Emmendoerfer, Magnus Luiz; Taurus, 1988.  
Lauriano, Nayara Gonçalves; Teixeira, Habermas, J. Consciência moral e agir comunicativo. 2. ed. Rio  
Lusvanio Carlos; Mediotte, Elias José.  
de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1989.  
Sociedade e cultura. 2022.  
Habermas, J. Mudança estrutural na esfera pública:  
investigações quanto a uma categoria da sociedade burguesa. 2.  
ed. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 2003.  
Habermas, J. Verdade e Justificação. Petrópolis: Loyola, 2004.  
Habermas, J. Teoria do Agir comunicativo: racionalidade da  
ação e racionalização social. São Paulo: Martins Fontes, 2012.  
v. 1.  
Online Public Spheres In The Era Of Fake Habermas, J.. The structural transformation of the public  
News: Implications For The Composition sphere: An inquiry into a category of bourgeois society.  
Classroom/Ehrenfeld, Dan; Barton, Matt.  
Computers and composition. 2019.  
Cambridge, MA:MIT Press, 1991. (T. Burger, Trans.) (Original  
work published 1962)  
Post-Truth Geographies In The Age Of Fake Habermas, J. Communication and the Evolution of  
News/Warf, Barney.  
Society.Beacon Press, Boston, 1979.  
Livro. Editora: Springer geography. 2021.  
The End Of The Habermassian Ideal? Habermas, J. The Structural Transformation of the Public  
Political Communication On Twitter During Sphere: An Inquiry Into a Category of Bourgeois Society.  
The  
2017  
Turkish  
Constitutional Cambridge, UK: Polity Press, 1989.  
Referendum/Furman, Ivo; Tunc, Asli.  
Policy and internet. 2019.  
The Legitimacy Of Judicial Climate Habermas, J. Between Facts And Norms:Contributions To A  
6
Engagement/Kuh, Katrina Fischer.  
Discourse Theoryof Law And Democracy 252 (William Rehg  
trans., 1998.  
Ecology law quarterly. 2020.  
ensar Con Habermas, Después De Habermas: Habermas, J. How to save the quality press?, Sign and  
El Rol De La Prensa En La Esfera Pública sight.com, 21 de mayo de 2007.  
(Digital)/Carriquiry, Andrea.  
Sistema. 2022.  
Habermas, J. Internet and Public Sphere: What the Web Can't  
Do/ Jürgen Habermas entrevistado por Markus Schwering,  
Reset Dialogues…  
Habermas, J. Polítical Communication in Media Society: Does  
Democracy Still Enjoyan Epistemic Dimension? The Impact of  
Normative Theory…  
Habermas, J. Between facts and norms, MIT Press, Cambridge,  
1996.  
Habermas, J. Europe: the faltering projeet, Polity Press,  
Cambridge, Oxford, Boston, Nueva York, 2009.  
Habermas, J. Facticidad y validez, Trotta, Madrid, 2000 [1992).  
Habermas, J. Faktizitlit und Geltung: Beitrlige zur  
Diskurstheorie des Rechts und des demokratischen  
Rechtsstaats, Suhrkamp, Frankfurt…  
Habermas, J. The structural transformation of the public sphere:  
An Inquiry into a Category of Bourgeois Society, MIT Press,  
Cambridge,...  
LOGEION: Filosofia da informação, Rio de Janeiro, v. 11, ed. especial, p. 1-12, e-7365, nov. 2024  
ARTIGO  
Artigo/ Autor(es)/Periódico/Ano  
Referências de Habermas utilizadas  
Transforming Communication, Social Media, Habermas, J. The theory of communicative action. Volume  
Counter-Hegemony And The Struggle For One. Beacon Press, 1984.  
The Soul Of Nigeria/Olaniyan, Akintola; Habermas, J. The structural transformation of the public sphere,  
Akpojivi, Ufuoma.  
Information communication  
2020.  
1989. Polity, Burger, T and Lawrence F (Translated, 1991)  
&
society.  
Why Does Disinformation Spread In Liberal Habermas, J. The Public Sphere: An Encyclopedia Article  
Democracies? The Relationship Between (1964) New German Critique, 3. (Autumn, 1974), 49-55  
Disinformation,  
Media/Nieminen, Hannu.  
Javnost-the public. 2024.  
Inequality,  
And  
The Habermas, J. The Structural Transformation of the Public  
Sphere: An Inquiry Into a Category of Bourgeois Society.  
Cambridge: Polity Press  
Fonte: Dados da pesquisa.  
Sabe-se que as bases de dados possuem vieses - as duas selecionadas são  
internacionais, logo, recuperam maior número de registros internacionais e com o idioma  
inglês, provenientes das grandes editoras dos Estados Unidos da América. Apesar disto, foram  
recuperados artigos em outros idiomas da América Latina, do Brasil em idioma português e  
outros dois artigos em espanhol, em revistas da Espanha e do México.  
O documento mais antigo é de 1996, sendo o segundo mais antigo do ano de 2018 e o  
mais recente de 2024, além de outros documentos de 2019, 2020 e 2022. Logo, é uma  
literatura recente: o que sugere o tema como emergente na atualidade.  
Observa-se que a Teoria do Agir Comunicativo não é referenciada em todos os  
trabalhos e em 2 artigos não há citação a nenhuma obra de Habermas. O artigo  
"Desinformación, Odio Y Polarización En El Entorno Digital" cita no texto Habermas mas  
não há referências a obras de Habermas. Os artigos "Against Resilience" e "Good News, Bad  
News, And Fake News Going Beyond Political Literacy To Democracy And Libraries" citam  
e referenciam pesquisadores que citam Habermas, ou seja, não houve consulta direta em obras  
do filósofo. Os demais artigos, embora citem Habermas, não citam os trabalhos com a Teoria  
do Agir Comunicativo ou após a sua publicação.  
7
Após a leitura dos documentos e análise das citações e referências, a amostra reduz a 4  
artigos (Quadro 2). O Quadro 2 foi organizado com a referência dos artigos e o respectivo  
resumo.  
LOGEION: Filosofia da informação, Rio de Janeiro, v. 11, ed. especial, p. 1-12, e-7365, nov. 2024  
ARTIGO  
Quadro 2 - Resumos dos artigos sobre Desinformação com abordagem da Teoria do Agir Comunicativo  
Referência  
Resumo  
O objetivo do artigo foi observar o enquadramento analítico mais amplo da  
comunicação sistematicamente distorcida e a extração do valor da enorme  
quantidade de estudos sobre notícias falsas. Desinformação é uma  
comunicação sistematicamente distorcida. A abordagem apresenta como a  
BUSCHMAN, John. Fake news massiva literatura sobre notícias falsas têm sido objeto de manual de visões  
as systematically distorted gerais, revisões sistemáticas da literatura, resumos, taxonomias, estudos de  
communication:  
intervention.  
an  
Journal  
lis citações, entre outros. Para implantação dessas ferramentas é utilizado o  
Of conceito de comunicação sistematicamente distorcida de Habermas,  
Documentation, London, v. 80, apresentada em seu contexto, revisada e colocada em prática para  
n. 1, p. 203-217, 4 jul. 2023. enquadrar as pesquisas sobre fake news. Conclui-se que pesquisa sobre  
Disponível  
2023-0043. Acesso em: 30 jun. aprofundando os componentes de definição (desinformação,  
em: notícias falsas tornou-se repetitiva, girando em torno de temas como o  
destino do jornalismo, o papel da tecnologia, remediando seus efeitos e  
2024.  
desinformação, mentiras e assim por diante). É necessário adotar uma  
perspectiva sobre a pesquisa de notícias falsas que utilize Habermas como  
mecanismo de enquadramento.  
A pesquisa discute o contexto vivenciado nas eleições de 2018 no Brasil e  
a divulgação de fake news no período. Caracteriza as informações falsas  
em campanhas eleitorais eletrônicas e analisa o posicionamento dos  
EMMENDOERFER, M. L.; eleitores diante da desinformação. É aplicada pesquisa documental em 35  
LAURIANO, N. G. .; informações falsas esclarecidas pelo site do Tribunal Superior Eleitoral  
TEIXEIRA, L. C. .; MEDIOTTE (TSE). Também há análise do conteúdo de comentários realizados em 14  
, E. J. Eleições governamentais e postagens feitas no Facebook do TSE, à luz da Teoria da Ação  
combate a fake news no Brasil. Comunicativa (TAC). Os resultados indicam que as fake news foram uma  
Sociedade e Cultura, Goiânia, preocupação do Brasil nas eleições de 2018, estando associadas às  
v. 25, 2022. Disponível em: condições de votação, legitimidade das urnas eletrônicas e dos cálculos dos  
https://revistas.ufg.br/fcs/article/ resultados. A influência das fake news nas eleições foi presente ao  
view/71036. Acesso em: 02 jul. considerar a opinião pública, com posicionamentos contrários e favoráveis.  
2024.  
A experiência brasileira provoca reflexões e ações para as próximas  
eleições em países democráticos. Como mecanismo para controle de  
desinformação, sugere a adoção de ações como o Programa de  
Enfrentamento à Desinformação, a Comissão Parlamentar de Inquérito e a  
identificação de ações contra a democracia.  
8
O artigo trata sobre a desinformação climática e o envolvimento judicial  
através dos tribunais nestas ocorrências. Discute o fortalecimento da  
democracia quando há participação dos tribunais e pedido de revisão  
judicial. Descreve-se então como os tribunais exibem uma reticência  
KUH, Katrina Fischer. The frustrante em aceitar jurisdição sobre casos que apresentam questões  
Legitimacy of Judicial Climate relacionadas com a política climática fundamental. O artigo oferece então  
Engagement. Ecology Law uma explicação positiva da razão pela qual o envolvimento nos casos  
Quarterly, Berkeley, v. 46, n.3, climáticos é consistente com o nosso sistema de democracia, mesmo como  
p. 731-764, 2020. Disponível entendido por estudiosos seminais que definem limites relativamente  
em:  
estreitos para a revisão judicial contramajoritária. Em particular, o artigo  
http://dx.doi.org/10.15779/Z38M situará argumentos para revisão judicial em casos climáticos no trabalho de  
03XX8R. Acesso em: 28 jun. John Hart Ely, Jurgen Habermas e Frank Michelman. O Discurso público e  
2024.  
a contribuição são necessários para que a lei seja legítima. Um processo  
público produz direito legítimo quando consiste em formas de  
comunicação que permitem filtrar motivos e informações, temas e  
contribuições de tal forma que o resultado de um Discurso goza de uma  
presunção de aceitabilidade racional. Sugere como ferramenta de controle  
a desinformação o uso de contenção judicial.  
LOGEION: Filosofia da informação, Rio de Janeiro, v. 11, ed. especial, p. 1-12, e-7365, nov. 2024  
ARTIGO  
Referência  
Resumo  
LAURIA,  
Michael  
Action,  
Mickey;  
SOLL, Nos projetos de desenvolvimento econômico de grande escala, grupos  
J.  
Communicative menos poderosos absorvem a maior parte dos impactos negativos. Uma  
Power,  
and das razões é que a comunicação entre os atores é distorcida por  
Site desinformação. O artigo apresenta adaptação de Forester (1989) da Teoria  
Misinformation in  
a
Selection Process. Journal Of Crítica de Habermas (1979 e 1984), onde a comunicação é usada para  
Planning Education And investigar o papel de desinformação e poder. Os métodos utilizados  
Research, London, v. 15, n. 3, p. incorporaram tanto abordagens desconstrutivas como abordagens não  
199-211, abr. 1996. Disponível desconstrutivas. O resultado é um relato do uso de desinformação por  
em:  
intervenientes no processo de seleção do local. s recomendação para  
http://dx.doi.org/10.1177/073945 neutralizar a desinformação são o controle situacional e equalização das  
6x9601500304. Acesso em: 30 relações de poder.  
jun. 2024.  
Fonte: Dados da pesquisa.  
4 DISCUSSÃO  
A partir das teorias habermasianas, Lima, Gonçalves e Maia (2023) desenvolvem uma  
abordagem crítica da informação, focada principalmente na intersubjetividade e na validação  
pragmática da informação por correspondência com o mundo da vida. Na teoria discursiva da  
informação, esta assume um caráter associado ao agir comunicativa, fundada diante dos  
propósitos comunicativos. Então, a informação aparece de forma residual, servindo aos  
intentos consensuais.  
Ao analisar a informação a partir da teoria do Discurso, descobre-se que ela não tem  
forma, ela funciona na determinação de significados e construção de pretensões de validade  
que devem ser aceitas para que haja o consenso comunicativo sobre a realidade factual e suas  
diretrizes. Por isso a informação nesse caso é um poder de instabilidade recursiva que permite  
transportar intersubjetividades. Lima, Gonçalves e Maia (2023) afirmam que a informação  
"[...] emerge como uma representação social baseada em uma construção seletiva de  
significado”. A formação de sentido da informação é então repleta de acordos intersubjetivos  
feitos a partir da construção prévia dos indivíduos, suas crenças, experiências pessoais,  
socialização e a quais grupos pertencem. Logo, a informação só pode ser produzida quando  
existem acordos comunicacionais.  
9
Na teoria discursiva da informação o processo de ação comunicativa é validado  
quando é voltado para o entendimento mútuo. Ao concordarem uns com os outros, os  
indivíduos levantam pretensões de validade - confiando nos princípios de correção e  
sinceridade esperados quando se informa sobre algo na realidade material e social. A  
informação causa mudança nas estruturas cognitivas dos indivíduos ao passo que é analisada  
já levando em conta processos mentais internalizados (Lima; Gonçalves; Maia, 2023).  
LOGEION: Filosofia da informação, Rio de Janeiro, v. 11, ed. especial, p. 1-12, e-7365, nov. 2024  
ARTIGO  
Espera-se que no processo comunicacional possa se validar as informações com uma  
negociação equilibrada, e que a intersubjetividade construa um entendimento mútuo.  
O processo discursivo tem “o propósito de alcançar um entendimento apoiado por  
razões ou argumentos entre as pessoas” (Lima; Gonçalves; Maia, 2023). A decisão do quê e  
como comunicar afetam diretamente na própria construção da informação, que pode ter dois  
objetivos polares: o argumentativo ou instrumental-estratégicos.  
No caso da abordagem discursiva da informação coloca-se o entendimento como  
intencionalidade do fazer comunicativo entre as partes envolvidas - visando os chamados  
acordos intersubjetivos. Ao fazer esse acordo os indivíduos confiam também na sinceridade e  
na honestidade no processo comunicacional, com pretensão de validez da informação (Lima;  
Gonçalves; Maia, 2023).  
A primeira análise dos artigos recuperados apresenta os pontos em comum. O termo  
“desinformação”/“disinformation” é o mais utilizado. Os termos fake news e desinformação  
são muito usados como sinônimos. É possível que isso aconteça por proporcionarem os  
mesmos efeitos ao serem disseminados.Silva, Barros e Bezerra (2023), caracterizam fake  
news como um fenômeno dentro de desinformação. Na perspectiva dos autores a  
desinformação está em um nível acima das notícias fraudulentas, pois é o fenômeno cultural  
de degradação da seleção de sentidos com o objetivo de causar danos; a fake news estão na  
dimensão micro, pois são o resultado da desinformação, sua manifestação no mundo real.  
A intencionalidade da desinformação é um dos principais postulados que a identificam  
e diferenciam do que se conhece por informação, pois mesmo que esta não seja verídica é o  
propósito enganoso que permite a especificação como fenômeno disruptivo. Sobre as  
características de intencionalidade e veracidade se dão então as desordens informacionais com  
suas distinções: disinformation, misinformation e malinformation (Wardle; Derakhshan,  
2017; Fallis, 2015).  
10  
A desinformação se refere à informação falsa que é criada e divulgada como  
verdadeira, na intenção de causar dano a indivíduos, grupos e governos. A criação articulada  
de fake news se encontra nessa categoria, inclusive sendo muito formalizada e  
instrumentalizada em diversas mídias digitais.  
Misinformation - em busca de uma tradução, mas que pode ser interpretada como  
“informação errada” - é uma informação falsa compartilhada, muitas vezes por indivíduos  
incautos, sem a intenção de causar dano, neste caso pode-se entender o disseminador como  
também vítima de desinformação; por fim, malinformation - ou “má informação” - é a  
LOGEION: Filosofia da informação, Rio de Janeiro, v. 11, ed. especial, p. 1-12, e-7365, nov. 2024  
ARTIGO  
disseminação de informações verdadeiras com a intenção de dar prejuízos, como divulgar  
informações privadas para a esfera pública (Wardle; Derakhshan, 2017; Fallis, 2015).  
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS  
O alemão Jurgen Habermas é considerado um dos maiores filósofos vivos, talvez o  
maior. Ele é o principal herdeiro da Escola de Frankfurt e é conhecido por estar sempre  
participando das discussões contemporâneas sobre temas relevantes para a sociedade: a  
democracia, a religião, as guerras, e a autodeterminação dos povos…  
Entre os temas com grandes controvérsias atuais estão a desinformação e as notícias  
fraudulentas. Elas sempre existiram, mas agora parecem fazer parte de estratégias políticas em  
ambientes polarizados. A partir do plebiscito no Reino Unido sobre sair da Comunidade  
Europeia (Brexit) a polarização parece se consolidar como estratégia política.  
A Desinformação é um fenômeno social que se caracteriza principalmente pela  
disseminação de notícias falsas ou mentiras na esfera pública. Quase sempre estão associadas  
a interesses e conflitos políticos, e muitas vezes baseadas na negação de conhecimentos  
científicos. Na pandemia da Covid-19 a partir de 2020 o negacionismo científico assume  
protagonismo.  
A Teoria do Agir Comunicativo de Habermas pode fundamentar estudos, pesquisas e  
reflexões sobre questões filosóficas e políticas atuais. Lima, Gonçalves e Maia (2023)  
esboçam uma abordagem discursiva da informação, com foco na construção intersubjetiva e  
na validação pragmática. Esse exercício sugere que se pode pensar também numa abordagem  
discursiva da desinformação.  
11  
Duas das grandes contribuições teóricas de Habermas podem ser usadas para  
abordagens críticas da Desinformação: o entendimento intersubjetivo e a pragmática da  
correspondência entre enunciados e mundo da vida. A construção da informação depende de  
acordos intersubjetivos teóricos e práticos com sinceridade e honestidade. A veracidade  
objetiva depende do confronto do conteúdo dos acordos intersubjetivos com os fatos.  
LOGEION: Filosofia da informação, Rio de Janeiro, v. 11, ed. especial, p. 1-12, e-7365, nov. 2024  
ARTIGO  
REFERÊNCIAS  
FALLIS, D. What is disinformation?. Library Trends, v. 63, n. 3, p. 401-426, 2015.  
HABERMAS, Jürgen. Teoria do agir comunicativo. São Paulo: WMF Martins Fontes,  
2012. 2v.  
HABERMAS, Jürgen. Agir comunicativo e razão descentralizada. Rio de Janeiro:  
HABERMAS, Jürgen. Consciência moral e agir comunicativo. Rio de Janeiro: Tempo  
Brasileiro, 1989.  
HABERMAS, Jürgen. Direito e democracia: entre facticidade e validade. Rio de Janeiro:  
Tempo Brasileiro, 1997. 2 v.  
HABERMAS, Jürgen. Verdade e justificação: ensaios filosóficos. Tradução Milton  
Camargo Mota. São Paulo: Edições Loyola, 2004.  
LIMA, Clovis Ricardo Montenegro de; GONÇALVES, Márcio; REBELO MAIA,  
Mariangela. Notas para uma teoria crítica discursiva da informação. Encontros Bibli: revista  
eletrônica de biblioteconomia e ciência da informação, Florianópolis, v. 28, p. 1–16, 2023.  
Disponível em: https://periodicos.ufsc.br/index.php/eb/article /view/92925. Acesso em: 28  
jun. 2024.  
SILVA, J. L. C.; BARROS, L. G. S.; BEZERRA, F. T. S. A produção sobre desinformação na  
ciência: estudo realizado na Brapci. Revista ACB: Biblioteconomia em Santa Catarina, v.  
28, n. 1, 2023.  
Tempo Brasileiro, 2002.  
12  
WARDLE, Claire; DERAKHSHAN, Hossein. Information disorder: toward an  
interdisciplinary framework for research and policymaking. Strasbourg: Council of Europe,  
2017.  
LOGEION: Filosofia da informação, Rio de Janeiro, v. 11, ed. especial, p. 1-12, e-7365, nov. 2024