ARTIGO
largo de um “eu” essencial ou coerente, apresentando deslocamentos a partir das incongruências
próprias do sujeito. “A identidade torna-se uma ‘celebração móvel’: formada e transformada
continuamente em relação às formas pelas quais somos representados ou interpelados nos
sistemas culturais que nos rodeiam”, observa Hall (2019, p. 11-12).
É interessante perceber que Hall articula esse processo ligado à miríade dos sistemas
culturais, seus múltiplos sentidos que confrontam o próprio sujeito, seus entendimentos de
mundo que permitem olhares para si e possibilitam identificações temporárias, frutos de
sociedades que mantêm mudanças constantes e rápidas onde não existe um centro de poder,
mas o “centro” é deslocado para dar lugar a “centros de poder”, deixando de ser um todo
unificado, delimitado, mas, sim, um constante descentrar, o que leva a elementos contraditórios
de identidade que atuam na sociedade e no indivíduo, bem como na não-singularidade,
deixando de lado uma identidade mestra (como classe, cor, religião, etnia etc.).
Isso me parece, em Hall, uma referência à Althusser, ainda que sem citá-lo: “Uma vez
que a identidade muda de acordo com a forma como o sujeito é interpelado ou representado, a
identificação não é automática, mas pode ser ganhada ou perdida. Ela tornou-se politizada”
(Hall, 2019, p. 16), uma vez que o contorno se coloca na política de diferença, sendo que “[...]
a identidade é realmente algo formado, ao longo do tempo, através de processos inconscientes,
e não algo inato, existente na consciência no momento do nascimento” (Hall, 2019, p. 24), ou
seja, a construção das identidades é realizada de maneira histórica e política, não biológica. Em
síntese, é possível dizer que as identidades, para Hall (2015, p. 111-112), são compostas pelas
relações entre discursos que interpelam para que lugares sejam assumidos pelos sujeitos.
Identidades são, dessa forma, pontos de apegos temporários às posições de sujeito e efeitos
transitórios. Identidades são articuladas e posicionam o sujeito no fluxo do discurso, obrigando-
o a assumir determinadas posições.
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Desse modo, não há possibilidade, levando-se em conta essa proposição, de uma
observação direta do fato, pois, assim entendo, todo fato é mediado por instrumentalizações
ideológicas sofridas ao longo das experiências.
NOTA 5–IDEOLOGIA, ARTICULAÇÃO, CONTINGÊNCIA
Isso põe no caminho a noção de ideologia, entendendo-a como condição necessária para
existência dos sujeitos. A concepção althusseriana de ideologia, a qual enfatiza a reprodução
das relações sociais, destaca o papel coercitivo das estruturas na formação dos sujeitos.
Coercitivo, entendo, não significa subjugado, mas mais ou menos limitador, mais ou menos
LOGEION: Filosofia da informação, Rio de Janeiro, v. 11, ed. especial, p. 1-15, e-7371, nov. 2024.