ARTIGO  
UM OLHAR SOBRE A CODIFICAÇÃO E A DECODIFICAÇÃO DE  
INFORMAÇÕES EM PLATAFORMAS DIGITAIS  
Jackson da Silva Medeiros1  
Universidade Federal do Rio Grande do Sul  
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Resumo  
Tendo em vista que plataformas digitais e algoritmos assumem lugares privilegiados enquanto entes políticos,  
discute-se como as noções de codificação e de decodificação apresentadas por Stuart Hall podem ser reconciliadas  
teoricamente a partir de aportes sobre controle e ideologia para lidar com questões sobre a formação de  
subjetividades em tempos dominados pela internet. O trabalho arregimenta ideias de Stuart Hall, Louis Althusser,  
Judith Butler, Gilles Deleuze e Byung-Chul Han, principalmente, para buscar aproximações e possibilidades de  
tratamento do tema.  
Palavras-chave: Filosofia da Informação; Codificação e Decodificação; Algoritmos; Plataformas digitais;  
Ideologia; Discurso.  
AN EXAMINATION OF THE ENCODING AND DECODING OF INFORMATION  
ON DIGITAL PLATFORMS  
Abstract  
Considering that digital platforms and algorithms occupy privileged positions as political entities, this study  
examines how Stuart Hall’s notions of encoding and decoding can be theoretically reconciled through  
contributions on control and ideology to address questions surrounding the formation of subjectivities in internet-  
dominated times. This work assembles the ideas of Stuart Hall, Louis Althusser, Judith Butler, Gilles Deleuze, and  
Byung-Chul Han, primarily, to explore theoretical proximities and possible approaches to the theme..  
Keywords: Philosophy of Information; Encoding and Decoding; Algorithms; Digital Platforms; Ideology;  
Discourse.  
UNA MIRADA SOBRE LA CODIFICACIÓN Y DECODIFICACIÓN DE  
INFORMACIÓN EN PLATAFORMAS DIGITALES  
Resumen  
Considerando que las plataformas digitales y los algoritmos ocupan lugares privilegiados como entidades políticas,  
se discute cómo las nociones de codificación y decodificación presentadas por Stuart Hall pueden ser reconciliadas  
teóricamente a partir de aportes sobre control e ideología para abordar cuestiones relacionadas con la formación  
de subjetividades en tiempos dominados por internet. Este trabajo reúne ideas de Stuart Hall, Louis Althusser,  
Judith Butler, Gilles Deleuze y Byung-Chul Han, principalmente, para explorar aproximaciones y posibles  
enfoques para el tratamiento del tema.  
Palabras clave: Filosofía de la Información; Codificación y Decodificación; Algoritmos; Plataformas Digitales;  
Ideología; Discurso.  
1 Professor do Departamento de Ciências da Informação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Doutor  
em Comunicação e Informação. Mestre em Ciência da Informação. Bacharel em Filosofia. Bacharel em Ciência  
Política. Bacharel em Biblioteconomia.  
Esta obra está licenciada sob uma licença  
LOGEION: Filosofia da informação, Rio de Janeiro, v. 11, ed. especial, p. 1-15, e-7371, nov. 2024.  
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NOTA 1INTRODUÇÃO  
Para este trabalho proponho uma organização textual condensada por notas,  
estabelecendo uma composição não linear de exploração de fragmentos e perspectivas de ideias.  
O que busco é deixar ser afetado pelo processo de construção dessas ideias, em fluxos e fugas  
que permitam encadear associações e construções teóricas, visando maior ênfase à  
argumentação e trazendo à tona rupturas, avanços e retomadas conceituais que envolvem  
indisciplinas diversas. Admito uma experimentação da escrita esquizoanalítica.  
Objetivo aqui analisar a codificação e a decodificação de informações em plataformas  
digitais. Faço isso discutindo como as ideias de codificação e de decodificação, apresentadas  
por Stuart Hall na década de 1970, onde a televisão, o jornal, o rádio desempenhavam papel  
crucial na produção de sentidos, reforçavam ideologias dominantes por meio de processos de  
codificação e decodificação que seguiam um modelo de fluxo unidirecional que sustentava  
maior controle sobre a narrativa, sobre os discursos, ainda que os públicos não se enquadrem  
no modelo passivo de transmissão de informações; também faço anotações sobre uma possível  
reconciliação desse objeto de estudo com aportes sobre controle e ideologia para lidar com  
questões da formação de subjetividades em tempos dominados pela internet, modelo de  
comunicação profundamente desestabilizado, tendo em vista seu caráter descentralizado e de  
modulação. Essa é uma lógica aprofundada pelas plataformas digitais, praticamente  
desconstruindo modelos de comunicação anteriores, principalmente quando da utilização  
maciça de algoritmos que passam a organizar e a hierarquizar fluxos de informações de acordo  
com padrões de relevância, personalização e engajamento, noções que dependem de fatores não  
controlados pelos usuários.  
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Isso tem implicações profundas para a produção de subjetividades. Em vez de receber  
uma informação padronizada para grandes audiências, os sujeitos são inseridos em ambientes  
personalizados que moldam experiências de acordo com dados comportamentais coletados,  
armazenados e manipulados. Esta personalização reforça a criação de ecossistemas  
comunicacionais fechados onde a exposição fica restrita a determinados conteúdos que  
confirmam visões de mundo, diminuindo o espaço para o contraditório e o encontro com a  
diferença, fazendo com que as “câmaras de eco” cooptem a atenção dos sujeitos. Novas  
ecologias de subjetividades emergem onde as plataformas digitais, através dos algoritmos,  
influenciam diretamente os modos como as pessoas se percebem e interagem com o mundo.  
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NOTA 2SOCIEDADE DE CONTROLE E ALGORITMOS  
A sociedade contemporânea, em grande parte, vive sob uma nova forma de hegemonia,  
baseada em fluxos informacionais e nos seus controles. Enquanto os meios de comunicação já  
tradicionais operavam uma lógica de programação pré-determinada, as plataformas digitais,  
calcadas em algoritmos, atuam em nível sem precedentes de personalização e de segmentação  
a partir de cálculos de padrões de comportamento, de preferências e de interações dos usuários,  
ajustando conteúdos de acordo com esses dados.  
Conforme Lazzarato (2006), sociedades de controle podem ser caracterizadas por três  
fenômenos manifestos desde a segunda metade do século 20 e que ocorrem a distância: (a)  
emergência de cooperação entre cérebros; (b) potentes dispositivos tecnológicos; e (c)  
processos de subjetivação derivados. A internet é, nesse aspecto, o principal dispositivo para/da  
sociedade de controle, principalmente pensando nas plataformas digitais de comunicação, uma  
vez que elas “não apenas medeiam o discurso público: elas o constituem” (Gillespie, 2018, p.  
199), sendo “estruturas de agenciamento de dados e de formulação de estratégias para a atração  
de atenção e modulação de comportamentos” (Silveira, 2016, p. 19) funcionando por base em  
um conjunto de instruções lógicas e de controle que conectadas tomam decisões.  
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Atualmente, delineia-se um regime informacional fundamentado no processamento de  
dados – abrangendo desde seu armazenamento e manipulação até sofisticados mecanismos de  
retroalimentação – que estrutura novas formas de ordenamento e hierarquização sob lógicas  
algorítmicas específicas. Nesse sistema, plataformas digitais assumem prerrogativa de legislar  
por meio de códigos, promovendo controle sobre o fluxo de informações. Esse controle  
estabelece não apenas o que pode ser limitado ou permitido, mas também o que deve ser  
incentivado, gerido ou restrito, estabelecendo relações intrínsecas com discursos dominantes.  
Esse contexto permite, ademais, uma reconfiguração de vieses culturais, raciais e étnicos,  
fazendo com que preconceitos historicamente estruturados reaparecem disfarçados de  
“verdades”, agora codificados em algoritmos, o que pode intensificar formas mais complexas  
de discriminação (Morozov, 2018, p. 179). Como argumenta Han (2022), a dominação  
contemporânea é articulada pela própria informação, por suas formas de processamento e,  
sobretudo, por seu entrelaçamento profundo com o capitalismo de vigilância, onde o controle  
não apenas monitora, mas modula o próprio potencial de subjetivação e ação.  
Esse modo de interação digital instaura formas de vida em que os atores sociais são  
integrados e articulados por meio de sistemas computacionais que operacionalizam normas e  
valores específicos, modelando o próprio tecido social. Nessa configuração, as plataformas  
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digitais vão além de simples canais de mediação, mas introduzem lógicas reguladoras em que  
discursos e saberes passam a se submeter a uma racionalidade computacional e mercadológica,  
implicando uma reconfiguração das práticas ofertadas. Sob esse regime, a formação discursiva  
não se dá mais apenas em esferas sociais tradicionais, mas é moldada por sistemas algorítmicos  
que, ao controlar variáveis do comportamento e da organização social, passam a estruturar de  
forma incisiva os modos de expressão, as interações e as possibilidades de subjetivação,  
delimitando espaços de ação e construção de sentido dos sujeitos, promovendo uma  
sociabilidade mediada e estruturada de acordo com padrões dominantes a partir de uma  
governamentalidade sutil e pervasiva dos dispositivos geradores de experiência.  
Os dispositivos de experiência são discursivos a partir da sua capacidade de agenciar,  
fazer circular e produzir sentidos de comunicação em espaços e tempos próprios. A  
produção de sentidos, que antes se dava a partir da separação entre sujeito e objeto,  
agora se dá na relação que os produz. Os efeitos produzidos estão em constante  
movimento, criando um fluir de identidades, acontecimentos, perspectivas etc. que só  
podem ser analisados se percebemos suas relações. (Medeiros, 2019, p. 34).  
A sociedade de controle delineada por Gilles Deleuze emerge em meio às  
transformações profundas nas condições comunicacionais, onde o mercado não apenas  
reconfigura, mas incorpora integralmente a conectividade midiática e tecnológica como formas  
de governo. Esse novo regime, impulsionado pelo capital, instaura um tipo de aprisionamento  
difuso que situa “toda experiência [...] presa em relações de poder” (Deleuze, 1988, p. 120),  
transformando a própria vivência em contínua construção e reconstrução de subjetividades, ou  
seja, configura ambientes em que processos de subjetivação se intensificam e se tornam  
inseparáveis das infraestruturas digitais. Nessa lógica, os dispositivos tecnológicos não se  
articulam a partir de restrições ou de enclausuramento físico; ao contrário, operam de modo  
sutil e capilar, promovendo a liberdade como um espaço de positivação contínua em que o poder  
se exerce pela gestão da mobilidade e pela abertura de múltiplos caminhos – todos, no entanto,  
circunscritos a lógicas de controle (Deleuze, 2013). Assim, a subjetividade passa a ser forjada  
não pela imposição direta, mas pela capacidade de direcionar e orientar a experiência de  
maneira invisível, onde a liberdade se torna, paradoxalmente, o novo modo de confinamento.  
Em atualização das formas de poder identificadas por Michel Foucault na sociedade  
disciplinar, onde o controle era exercido de maneira explícita e institucionalizada, na sociedade  
de controle esse poder se dispersa e se transmuta em fluxos contínuos, infiltrando-se em todos  
os aspectos da vida a partir das transformações tecnológicas e políticas que marcaram a metade  
e principalmente o final do século 20 e que são extremadas no contexto das plataformas digitais  
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e da sociedade datificada. Deleuze percebeu o surgimento de novos regimes de poder baseados  
em fluxos informacionais e na modulação contínua do comportamento.  
As plataformas digitais e seus algoritmos são exemplos dessa modulação constante na  
medida em que coletam, armazenam, manipulam e distribuem informações capazes de  
influenciar o comportamento de maneira quase imperceptível. Todas ações realizadas nas  
plataformas são capturadas para análise: cliques, movimentações de dedos ao interagir com a  
tela, compras, o tempo utilizado em determinado tipo de conteúdo; tudo passa a ser processado  
e utilizado para ajustar futuras interações e decisões. Esse monitoramento mostra a ideia de que  
o controle na sociedade atual não ocorre em intervalos, em pesquisas espontâneas, mas em  
tempo integral, tornando o ambiente uma ferramenta com poder que não se separa do objeto,  
mas está contido no próprio objeto. Esses complexos sistemas algorítmicos funcionam como  
moduladores das ações dos sujeitos a partir do controle sobre os dados e as interações, indo  
além da disciplina ou da punição, mas atuando no processamento para antecipação de  
possibilidades bem como na delimitação dessas, modificando escolhas e tempo empregados nas  
ações por meio de recomendações e personalizações, o que gera controle dos fluxos de  
subjetividade influenciados por dados, construindo pretensas identidades em tempo real e  
reconfigurando o sujeito imerso nesses ambientes, transformando a percepção de temporalidade  
e a produção através da conexão e interação contínuas.  
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Nesse sentido, alio-me a Byung-Chul Han (2015; 2018) quando, a partir da  
compreensão da relação da tecnologia com o neoliberalismo, admite a existência de uma  
violência latente que ultrapassa o controle e a disciplina. Esta, baseada em positividade, na  
capacidade extrema de produção do ser humano, atua como violência neuronal fundando mais  
produção, prendendo os sujeitos em redes de poder que indireta e virtualmente estabelecem uma  
governamentalidade.  
As ações de conhecer, as ações que definem as condições de experiência proporcionadas  
pela informação são capazes de induzir, positivar, propagar; mais do que isso, são hábeis na  
disposição de condutas sociais, políticas, econômicas, éticas, culturais etc., tornando  
fundamental problematizar os limites a partir das informações disponíveis ou não em sistemas  
digitais que atuam na construção de subjetividades e de identidades que, por estarem tão  
atreladas aos dispositivos, em atuação contínua, com composição do controle executado pelas  
plataformas de maneira tão sofisticada quanto invisível, dão a impressão de total liberdade de  
escolha das ações que estão executando.  
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NOTA 3CODIFICAÇÃO, DECODIFICAÇÃO E REGRAS PERFORMATIVAS  
É importante perceber que (1) o modelo proposto por Stuart Hall está baseado em  
análises sobre a televisão na década de 1970 e que (2) mesmo se tratando de um modelo, não  
funciona de maneira normativa, mas, sim, explicativa das considerações que podem ser  
realizadas na compreensão de processos ideológicos que fluem no sistema, tentando organizar  
categorias teóricas e analíticas. Se enquadra diretamente a uma elaboração foucaultiana de que  
não existe um centro de poder e nem alguém é possuidor deste; não existindo um detentor, o  
poder é circulante, relacional. Assim Hall pensa que é possível analisar esses fatores pela  
diferença estabelecida dentro das sociedades pós-modernas.  
Hall separa didaticamente os processos de codificação e de decodificação. O primeiro  
se refere à produção de sentidos, processo pelo qual os produtores de mídia constroem e  
disseminam mensagens dentro de um contexto específico a partir de códigos culturais e  
linguísticos pré-existentes empregados para criar sentidos de ideologias hegemônicas de poder.  
O segundo é o da interpretação das mensagens, processo que não é nem passivo e nem  
automático, mas está ancorado nas experiências sociais e culturais. O proposto por Hall rompe  
com a ideia de passividade da audiência, alterando a compreensão dos modos de recepção a  
partir de orientação determinista de estímulo-resposta e com a ideia de que sentidos são  
expressos de maneira clara na transmissão de mensagens pelos meios de comunicação e, por  
conseguinte, assimilados de maneira unívoca.  
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Com esse olhar, o jamaicano aponta para três maneiras de compreender essas  
mensagens: uma posição/leitura preferencial (dominante/hegemônica) que situa os sentidos das  
mensagens onde a decodificação é tomada pelos sentidos propostos na construção do  
enunciado, refletindo ideologias dominantes; uma posição negociada, a qual permite o  
“embate” entre os sentidos propostos pelas mensagens e a estrutura particular/cultural do  
receptor, não havendo rejeição ou aceitação completas; uma posição de oposição, quando o  
sentido proposto e compreendido é “convertido” a partir de uma estrutura de referência  
alternativa.  
Fica perceptível que os códigos circulam para formar a operação material do discurso,  
uma articulação da linguagem sobre a realidade (ou daquilo que quer se entender como  
realidade2) como resultado de práticas discursivas que se escondem na naturalização  
imperceptível que os reconhece como corretos, jamais arbitrários, em sensações de uma  
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Deixo o aprofundamento desse ponto para trabalhos futuros, mas entendo que, pelo momento, autores  
arregimentados esclarecem esse processo.  
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já-codificação, de um já-mundo em combinações de aspectos denotativos e conotativos, dando  
impressão dessa naturalização. Permitem, efetivamente, que no nível da conotação as ideologias  
alterem e transformem a significação com disputas pelos sentidos (Hall, 2003).  
Para Hall (2003), esses códigos se colocam como “mapas de sentidos” que permitem  
classificar a cultura. Esses mapas, como é possível entender, guiam as escolhas dos sentidos  
possíveis; são mapas da realidade que fornecem significados, como também práticas, usos,  
poder e interesses da ordem cultural dominante (sentidos dominantes ou preferenciais) que  
devem ser capazes de dispor regras performativas e devem ser respondíveis de maneira  
preferencial aos sentidos propostos, fazendo cumprir legitimamente uma decodificação dentro  
dos limites dos significados dominantes.  
Entendo que a ideia de “regras performativas” mantém dependência e permite pensar  
contexto de produção, circulação e recepção, fazendo com que esses eixos mantenham inter-  
relação constante, estipulando as relações entre “regras performativas” e a “produção de  
subjetividades” em perspectiva crítica, envolvendo conceitos fundamentais da filosofia pós-  
estruturalista e dos estudos contemporâneos sobre poder, discurso, subjetividade e identidade.  
No entanto, indicar elementos não é tarefa simples. Assim, quero apontar de maneira breve  
alguns caminhos de pensamento. Neste momento faço isso apenas tentando efetivamente  
elencar esses componentes que permitem empreender que a noção de ideologia possibilita a  
apreensão de elementos que produzem subjetividades, o que se orienta na materialidade  
histórica existente na produção de identidades.  
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Em primeiro lugar, o elemento foucaultiano que pode permitir empreender sobre “regras  
performativas”, entendendo que elas se coordenam pela produção de subjetividades operando  
através do poder, do saber e da subjetividade, uma vez que Foucault oferece que o poder não é  
apenas repressivo, mas produtivo. Em A Ordem do Discurso (1971), discute como práticas  
discursivas estabelecem “regras de formação” que configuram o que pode ou não ser dito,  
pensado e praticado em contextos históricos. Olhando por esses aspectos, “regras  
performativas” podem ser vistas como um (sub)conjunto das regras de formação discursiva,  
uma vez que não apenas regulamentam possibilidades de determinadas performances, mas  
também estabelecem quem pode realizá-las, as condições e os efeitos. A performatividade  
aparece em Foucault a partir da compreensão dos campos de poder e de saber que regulam os  
corpos, por isso seus comportamentos e suas subjetividades colocadas para além da imposição,  
mas como disposição, em uma espécie de “governamentalidade”, como expresso em  
Segurança, Território, População (1978-1979) e O Nascimento da Biopolítica (1979-1980),  
onde regras performativas não aparecem como dispositivos necessariamente visíveis e  
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hierarquizados, mas como normas de conduta que se colocam praticamente imperceptíveis e  
são internalizadas como uma autorregulação baseada em determinados padrões de conduta. A  
subjetividade seria então performativamente produzida, moldada, construída, fabricada por  
essas regras que operam cotidianamente e que estão articuladas com estratégias de controle.  
Em segundo lugar, indo ao encontro de Judith Butler e sua proposta de uma teoria da  
performatividade de gênero, parece ficar ainda mais claro que não há identidade fixa ou  
essencial3, mas, sim, efeitos de fluxos de práticas discursivas, performativas. O “gênero”, para  
trazer o objeto de trabalho da filósofa, é uma criação discursiva, performativa, não é algo do  
ser, inerente à sua constituição, mas algo produzido através de atos contínuos que, pela ação  
repetida, redita, absorve normas culturais. Assim, é na constituição da dialética performativa  
que ocorre a magia social da performatividade (Butler, 1999), uma vez que as regras  
performativas não são aceitas ou impostas de maneira hierárquica, impositivas, mas atuam na  
repetição, podendo sofrer revés de contestação, o que permite compreender essas normas pela  
governamentalidade dos atos performativos que produzem e que regulam as identidades a partir  
de um conjunto de práticas de ajuste de corpos e ações.  
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Pegando essa carona, “regras de formação” mostram as condições que tornam possíveis  
certos discursos e práticas em determinados momentos históricos. A exploração de regras  
performativas não deve se dar pela linearidade da analítica, mas, sim, pela concepção discursiva  
das práticas contínuas que se organizam em regras mais ou menos explícitas de produção,  
circulação e legitimação. Portanto, regras performativas são dispositivos de poder que  
produzem e regulam subjetividades atuando a partir de normas discursivas que governam os  
sujeitos no controle da performatividade atuante pela repetição e pela diferença ocasionada.  
Essas regras não são apenas algo a ser reproduzido, mas também a ser produzido e contestado,  
reajustado, já que a norma se realiza no momento em que é performada e é nessa realização que  
sua contingência se torna visível. As normas, enquanto regras performativas, não são  
essencialmente fixas, mas sujeitas a transformações pois estão envoltas em processos de  
repetição contingentes e instáveis.  
NOTA 4IDENTIFICAÇÃO  
Retornando ao ponto sobre identidade, Hall reconhece que é possível pensar em  
identificação no lugar de identidade, uma vez que identificação permite estabelecer fluxos  
3 Não entrarei aqui em Derrida, mas entendendo que isso sirva como base para o entendimento de Butler sobre o  
pós-fundacionalismo.  
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contínuos de elementos que, como processos, mantêm-se em andamento, aliando a relação de  
falta com o imaginário criado a partir do que é possível entender como sendo a visão do outro.  
Ao mesmo tempo em que isso se coloca de maneira complexa e difere de uma tradição que  
busca entender a identidade fechada, monolítica, a ideia é irromper esse bloco, percebendo que  
uma pretensa limitação da identidade é assombrada pelas diferenças impostas pelo social, sendo  
a essencialização da identidade apenas o que identifica o sujeito no grupo, mas não qualifica a  
multiplicidade de fatores que constituem esse sujeito.  
Parece existir, de fato, uma crise da identidade moderna que se fragmenta na  
identificação pós-moderna; isso fica visível quando se olha que aquilo antes visto como  
identidade não mais representa uma política que condiga com a perspectiva fragmentada do  
pós-moderno, sem essência fixa, mas assume uma “posição de sujeito” construída na relação  
com o outro. Hall se apoia na teoria pós-estruturalista, particularmente em Derrida, para sugerir  
que a identidade é definida através de “jogos de diferenças”, isto é, pelo olhar relacional do que  
ela não é. As categorias de identidade, em vista disso, deixam de fazer sentido enquanto  
categorias com fixidez, indo ao encontro da fluidez que as compõem, complexificando o “nós”  
e o “eles”, estabelecendo uma espécie de negociação constante do macro e do micropolítico das  
formas de identidade e de subjetivação, criando, pelos “jogos de diferenças”, inclusão e  
exclusão.  
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O que caracteriza a crise pós-moderna é a incerteza dessas fronteiras de diferenciação.  
Hall aponta que não é algo patológico, mas característica resultante da globalização, com  
influências de culturas e da economia, por exemplo, com informações que afetam os sujeitos  
em múltiplas formas de valores e crenças, das novas formas de comunicação e das  
transformações nos discursos culturais e ideológicos que, com o declínio das metanarrativas,  
não permitem mais um quadro interpretativo único para a construção das identidades.  
Em suma, Hall (2019) aponta para três possíveis concepções de identidade a partir do  
olhar sobre o sujeito: o sujeito do iluminismo, o sujeito da modernidade e o sujeito da pós-  
modernidade. O primeiro é dotado de razão, de consciência e ação, constituindo-se em um ser  
centrado, com certa essência unívoca, em concepção individualista e masculina. O segundo,  
reflete sobre não ser o centro do seu próprio ser; permeado pela cultura, seus valores e sentidos,  
coordenando a relação de si com os outros, e vice-versa, permitindo, sociologicamente,  
estabelecer a relação entre o “eu” e a “sociedade”. A identidade do sujeito da modernidade  
costura-o à estrutura social. Já o terceiro, o sujeito da pós-modernidade, não apresenta uma  
identidade fixa, mas, sim, se transforma continuamente pelas interpelações dos sistemas  
culturais. São identidades diferentes que respondem a cenários contextuais e que passam ao  
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largo de um “eu” essencial ou coerente, apresentando deslocamentos a partir das incongruências  
próprias do sujeito. “A identidade torna-se uma ‘celebração móvel’: formada e transformada  
continuamente em relação às formas pelas quais somos representados ou interpelados nos  
sistemas culturais que nos rodeiam”, observa Hall (2019, p. 11-12).  
É interessante perceber que Hall articula esse processo ligado à miríade dos sistemas  
culturais, seus múltiplos sentidos que confrontam o próprio sujeito, seus entendimentos de  
mundo que permitem olhares para si e possibilitam identificações temporárias, frutos de  
sociedades que mantêm mudanças constantes e rápidas onde não existe um centro de poder,  
mas o “centro” é deslocado para dar lugar a “centros de poder”, deixando de ser um todo  
unificado, delimitado, mas, sim, um constante descentrar, o que leva a elementos contraditórios  
de identidade que atuam na sociedade e no indivíduo, bem como na não-singularidade,  
deixando de lado uma identidade mestra (como classe, cor, religião, etnia etc.).  
Isso me parece, em Hall, uma referência à Althusser, ainda que sem citá-lo: “Uma vez  
que a identidade muda de acordo com a forma como o sujeito é interpelado ou representado, a  
identificação não é automática, mas pode ser ganhada ou perdida. Ela tornou-se politizada”  
(Hall, 2019, p. 16), uma vez que o contorno se coloca na política de diferença, sendo que “[...]  
a identidade é realmente algo formado, ao longo do tempo, através de processos inconscientes,  
e não algo inato, existente na consciência no momento do nascimento” (Hall, 2019, p. 24), ou  
seja, a construção das identidades é realizada de maneira histórica e política, não biológica. Em  
síntese, é possível dizer que as identidades, para Hall (2015, p. 111-112), são compostas pelas  
relações entre discursos que interpelam para que lugares sejam assumidos pelos sujeitos.  
Identidades são, dessa forma, pontos de apegos temporários às posições de sujeito e efeitos  
transitórios. Identidades são articuladas e posicionam o sujeito no fluxo do discurso, obrigando-  
o a assumir determinadas posições.  
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Desse modo, não há possibilidade, levando-se em conta essa proposição, de uma  
observação direta do fato, pois, assim entendo, todo fato é mediado por instrumentalizações  
ideológicas sofridas ao longo das experiências.  
NOTA 5IDEOLOGIA, ARTICULAÇÃO, CONTINGÊNCIA  
Isso põe no caminho a noção de ideologia, entendendo-a como condição necessária para  
existência dos sujeitos. A concepção althusseriana de ideologia, a qual enfatiza a reprodução  
das relações sociais, destaca o papel coercitivo das estruturas na formação dos sujeitos.  
Coercitivo, entendo, não significa subjugado, mas mais ou menos limitador, mais ou menos  
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propositor, reproduzindo formações discursivas dominantes fluidas e que colocam espaço para  
alterações, o que pode ser visto pela articulação. Assim, entendo que é propositivo relacionar  
essa teoria sobre ideologia para uma estruturação robusta que permita análise de práticas sociais  
e como os aparelhos ideológicos moldam as subjetividades e as identidades.  
Utilizo aqui as duas teses de Louis Althusser (2022) sobre ideologia: “A ideologia  
representa a relação imaginária dos indivíduos com suas condições reais de existência”; “A  
ideologia tem uma existência material”. Na primeira é apresentada que os indivíduos  
representam aquilo que consideram a realidade de suas existências, pois essa representação se  
dá não aliada às condições reais em si, mas nas relações que estabelecem com um viés  
imaginativo da sua própria cultura. Na segunda tese, Althusser coloca que uma ideologia está  
sempre ligada a um aparelho, em suas práticas, em seus atos, gerando uma representação onde  
o próprio sujeito é obrigado a se reconhecer como tal e que tem suas ideias como livres  
pensamentos da sua consciência, fazendo com que a ideologia seja uma “relação imaginária  
com as relações reais” (Althusser, 2022, p. 100) onde haveria relação entre o vivido no mundo  
com sujeito livre.  
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Interessante notar que a ideologia atua no funcionamento de estruturas sem aparentar  
uma estrutura, dando ilusão de uma relação consciente, quando, no entanto, atua no  
inconsciente do sujeito. Dessa forma a ideologia apresenta totalidades que subjetivamente  
constituem o sujeito, estando para além do afetar. Com Althusser, a ideologia opera de maneira  
a “mascarar” a contingência das estruturas sociais, fazendo-as aparentemente naturais, eternas  
e imutáveis. A função da ideologia garante a reprodução das condições materiais da sociedade  
através dos Aparelhos Ideológicos (AIEs) capazes de dispor de sistemas de crenças e valores  
que atuam na produção de subjetividades e de identidades dos sujeitos, construindo um mundo  
baseado em padrões discursivos dominantes, assumindo que a ideologia atua para além de um  
mascaramento da realidade, mas criando quadros simbólicos em que os sujeitos encontram  
sentidos e coerências.  
Hall (2013), ao se referir à ideologia althusseriana, reafirma que uma formação social é  
composta por uma estrutura de dominância onde tendências, configurações e estruturações são  
definidas, defendendo a ideia de que o termo “estrutura” é condizente e faz sentido para  
descrever o processo, sem deixar de levar em consideração sua complexidade. Aponta, ainda,  
que a proposta de Althusser permite compreender a diferença na diversidade de pontos  
articulados, inclusive nas contradições das categorias arregimentadas.  
Isso propõe processos contingentes e contínuos pelos quais diferentes elementos  
políticos, históricos, culturais etc. são conectados para produzir novos sentidos, identificações  
LOGEION: Filosofia da informação, Rio de Janeiro, v. 11, ed. especial, p. 1-15, e-7371, nov. 2024.  
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e relações de poder, não havendo determinação a priori, mas práticas contingentes e  
estratégicas de poder sem uma essência fixa, possibilitando entender que identidades e  
discursos são formados e estabilizados enquanto ainda permanecem abertos à rearticulação. Isso  
é coerente com a “estrutura” de traços fluidos que não se limitam aos fluxos correntes das redes,  
à produção como construto complexo em si, um regime de informação, como Byung-Chul Han  
(2022) aponta.  
A ideologia propõe sentidos contingentes pois depende de estruturas que são produtos  
de processos históricos e socioculturais. Esses sentidos são produzidos e distribuídos pela sua  
materialidade histórica e assumem o caráter do que foi selecionado como válido, podendo  
estabelecer ressignificações de si próprios ou dos sujeitos. Há de se pensar que o sentido  
proposto para algo não é “o” sentido, mas “um” sentido, havendo sempre maior número de  
exclusões de sentidos do que de sentidos permitidos.  
Entretanto, ao inserir a noção de contingência na análise, é possível argumentar que a  
interpelação, ao invés de ser um processo unidimensional, é sempre atravessada por uma  
abertura ao novo, ao imprevisível e ao contingente. A subjetivação althusseriana, embora eficaz  
em garantir a reprodução das relações de poder, não é absoluta. A contingência sugere que os  
sujeitos interpelados pela ideologia não são passivos ou completamente determinados, mas  
podem resistir, subverter ou rearticular as interpelações às quais são submetidos. A contingência  
introduz a possibilidade de falhas ou fissuras no processo de interpelação. Se, para Althusser, a  
interpelação ideológica sempre já encontrou o indivíduo na posição de sujeito, para Butler, esse  
processo é sempre marcado pela possibilidade de que o sujeito interpelado não responda de  
maneira esperada, ou que responda de forma a subverter ou reconfigurar as condições da  
interpelação. A norma interpelativa, em seu caráter performativo, depende de sua repetição para  
se manter e é precisamente na contingência dessa repetição que reside a possibilidade de  
transformação.  
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Assim, subjetividade e identidade não são apenas efeitos da ideologia, mas também  
campos de lutas dos processos de subjetivação e de identificação no qual as contingências que  
moldam essas condições abrem brechas para a resistência e para a emergência de novos modos  
de ser e de agir, onde há circulação de diferentes sentidos e a identidade fixa temporariamente  
a estabilização da ideologia quando o indivíduo é convocado a ocupar um lugar no sistema de  
significados, estruturas e valores da sociedade. Essa interpelação, como Althusser coloca,  
sustentaria o sujeito, pois a posição do sujeito o situa como reconhecedor da sua própria posição  
política e social, o que o leva a autocaracterização daquilo que dele é esperado.  
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O sujeito é a representação discursiva das condições que o produzem; compreender o  
sujeito não é compreender um objeto uno, mas, exatamente, sua composição a partir da  
hibridação de elementos que vão se aglomerando e tomando posições mais ou menos estáveis  
para a constituição do sujeito.  
NOTA 6CODA  
Proponho um exercício de imaginação. Dois jovens conversam sobre seus interesses em  
músicas. Um diz para o outro: “deixa eu te mostrar uma música” e faz menção de pegar um  
dispositivo eletrônico, um smartphone, da mão do colega. Imediatamente o outro responde:  
“Não! Vai desconfigurar meu algoritmo.”. Essa cena pode ser imaginada, mas foi presenciada  
por mim ao assistir dois alunos no intervalo de uma aula. O jovem que negou a interferência do  
colega em “seu algoritmo” não queria um uso diferente daquilo que já tinha passado um bom  
tempo “ensinando” a plataforma a fazer; ensinando seus gostos; ao mesmo tempo, não se dava  
conta do quanto era educado pela designação de gosto que a plataforma lhe colocava na escuta  
de músicas.  
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É preciso encarar a informação como fenômeno contingente capaz de ser configurado e  
reconfigurado de maneira rápida e eficaz, afetando a todos, sabendo que “O sentido depende  
não da qualidade material do signo, mas de sua função simbólica” (Hall, 2016, p. 49), enfim,  
conceituando-a como um dispositivo-signo representativo em um sistema simbólico e capaz de  
encapsular uma estrutura dominante de poder. Compreender, assim, que os sentidos produzidos  
pela informação e que a produzem não necessariamente estão ligados ao real, mas que são esses  
sentidos constituídos através de coerções que agem para defini-la como realidade (Medeiros,  
2024). Em suma, me posiciono a partir da ideia que a informação é uma composição discursiva  
da realidade material significante da ideologia, criadora de sujeitos e sentidos a partir da  
conjuntura de elementos simbólicos e imaginários que se disseminam pelos aparelhos  
ideológicos.  
O sujeito, enquanto instância aparentemente autônoma de consciência, é, na verdade,  
moldado por um conjunto de práticas e dispositivos ideológicos que o regulam. Longe de uma  
adesão consciente, envolve a imersão em práticas institucionais e normativas que não apenas  
executa, mas participa ativamente da própria constituição de sua subjetividade. O sujeito não  
escolhe ideias e comportamentos que julga livres, mas o faz sob o julgo de um condicionamento  
estrutural pelo qual essas ideias são, em dada instância, produtos de aparelhos ideológicos que  
antecipam e influenciam a capacidade reflexão, subordinando-o aos mecanismos regulatórios  
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de disposições, tornando-o receptor e reprodutor das estruturas que sustentam o próprio poder  
que o constitui. Nesse sentido, a subjetividade é reconfigurada continuamente enquanto o  
sujeito age em consonância com as práticas que internaliza e reproduz. Consciência e escolhas  
são fenômenos mediadores e mediados de ideologia. Entendo que isso deixe claro que o sujeito  
tem acesso à parte do que discursa. Também acessa parte da construção discursiva que lhe é  
disposta, exatamente pelas características próprias da construção de sentido pelo discurso.  
Neste plano, Judith Butler (2020, p. 246) propõe pensar que “’cultura’ e ‘discurso’  
enredam o sujeito, mas não o constituem”, buscando deixar claro que não se coloca no  
determinismo os aspectos de fabricação do sujeito, mas essa rede de processos compreende a  
constituição performativa, pois, ainda segue a autora, “O sujeito culturalmente enredado  
negocia suas construções.”. Situar esses aspectos é fazer um deslocamento naquilo que Butler  
argumenta como uma passagem explicativa do viés epistemológico para a prática significante,  
possibilitando que o próprio olhar epistemológico seja estudado como prática possível e  
contingente, uma vez que coloca o olhar sobre o sujeito constituído culturalmente, resultante de  
discursos atados por regras da linguagem.  
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Nesse caminho, entender a compreensão de Stuart Hall sobre a codificação e a  
decodificação, colocando isso com o viés das plataformas digitais e dos algoritmos, pode ser  
uma ferramenta frutífera de compreensão desses processos, trazendo ao debate questões sobre  
subjetividade, identidade, ideologia, articulação e contingência para pensar a produção do  
sujeito, as regras performativas e as formações discursivas.  
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