ARTIGO
(...) quando se escreve, o comprometimento (ou o não comprometimento) entre o
vivido e o escrito aprofunda mais o fosso. Entretanto, afirmo que, ao registrar estas
histórias, continuo no premeditado ato de traçar uma escrevivência” (Evaristo, 2011,
s/p.).
A escrevivência é um recurso metodológico de escrita que visa apresentar o
atravessamento entre a invenção e o fato, sem que haja uma incongruência entre ambos. É a
maneira de construir uma narrativa aprofundada e singular, mas que se dirige a uma
coletividade. Uma escrita proximal.
Escreviver significa, nesse sentido, contar histórias absolutamente particulares, mas
que remetem a outras experiências coletivizadas, uma vez que se compreende existir
um comum constituinte entre autor/a e protagonista, quer seja por características
compartilhadas através de marcadores sociais, quer seja pela experiência vivenciada,
ainda que de posições distintas (Soares; Machado, 2017, p.206).
Sobre as potencialidades do uso da ficção na produção acadêmica, e buscando
romper com a concepção dicotômica ficção-realidade, Luis Artur Costa afirma que
“reinventando nossa realidade independente dos estados de coisas referentes,
podemos torná-la ainda mais real, mais complexa, densa e intensa ao intrincar suas
tramas com novas possibilidades de relação. A ficção fia mundos onde a confiança
ultrapassa a fidedignidade sem perder realidade” (Costa apud Soares; Machado,
2017, p. 207).
(...) a ficção como um modo de resistência presente na escrevivência evaristiana, ao
passo que, na escrita, pessoas submetidas a situações de crise, podem encontrar
modos de transpor os revezes e seguir existindo. (...) o que veremos é que resistir
por meio da literatura é também reexistir, e para um povo cuja voz foi e é
constantemente sufocada, a escrevivência se torna um recurso de emancipação.”
(Melo; Godoy apud Soares; Machado, 2017, p. 207).
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Sendo assim, a escrevivência como ferramenta metodológica é uma estratégia de
subversão da produção de conhecimento, indo ao encontro e de encontro à produção artística
e científica, gerando a formulação de novos saberes e existências dentro da estrutura
acadêmica. Como afirma Barossi (2017) “A noção de escrevivência age como instância ética,
estética e poética, pois dá vazão à mudança de perspectiva por meio do processo criativo”
(Barossi apud Soares; Machado, 2017, p.208).
A escolha pela escrevivência para o projeto Lorca se deu à partir das razões acima
elencadas, mas também à partir da perspectiva agambenica quanto ao ato de criação.
Para Giorgio Agamben, seguindo o pensamento de Deleuze, o ato de criação é um ato
de resistência à morte da sociedade de controle. Em cima desta última, ele se refere a poderes
castradores na sociedade, que visam cercear o fazer do sujeito, formatando-o conforme o seu
intento – apartando o indivíduo da possibilidade do que Paulo Freire define como “ser mais”.
O ato de criação seria resistir a este regime, liberando a potência de vida que até então estava
aprisionada.
LOGEION: Filosofia da informação, Rio de Janeiro, v. 11, ed. especial, p. 1-23, e-7386, nov. 2024.