ARTIGO  
Data de submissão: 20/10/2025 Data de aprovação: 16/06/2026 Data de publicação: 19/06/2026  
INDIVIDUAÇÃO INFORMACIONAL  
técnica, emoção e cognição no pensamento de Simondon e suas implicações filosóficas na  
cultura digital  
Creuza Andréa Trindade dos Santos1  
Universidade de São Paulo  
Marivalde Moacir Francelin2  
Universidade de São Paulo  
______________________________  
Resumo  
Este artigo desenvolve o conceito de individuação informacional, um processo contínuo, relacional e tecnicamente  
mediado por meio do qual o sujeito contemporâneo se constitui na interseção dinâmica entre estruturas técnicas,  
afetivas e culturais. Com base na filosofia de Gilbert Simondon e em suas obras "A Individuação” e “Do modo de  
existência dos objetos técnicos”, para explorar os processos técnicos, emocionais e culturais que moldam a  
subjetividade na era digital. A partir de um modelo gráfico que articula as dimensões da técnica de Simondon, da  
emoção e consciência proposto por Jaak Panksepp e da semiótica da cultura em Iuri Lotman, é construída uma  
análise filosófica que aborda as dinâmicas de mediação informacional e as implicações éticas e epistemológicas  
da manipulação digital. Onde a contemporaneidade é atravessada por uma crise da subjetividade, intensificada  
pela onipresença da técnica digital, pela sobrecarga emocional e pela fragmentação cultural. O artigo enfrenta essa  
crise por meio de uma proposta conceitual ousada: a individuação informacional. Para compreender a solidez e a  
profundidade desta proposta, recorremos à metodologia quadripolar, que permite uma leitura integrada dos  
elementos epistemológicos, morfológicos, teóricos e técnicos que constituem o argumento filosófico do texto. O  
modelo da Individuação Informacional oferece um arcabouço crítico para compreender e enfrentar os desafios da  
algoritimização informacional, da alienação e da fragmentação cultural, sugerindo intervenções práticas para  
fortalecer a autonomia crítica e a coesão cultural.  
Palavras-chave: Gilbert Somindon; individuação; cultura digital.  
INFORMATIONAL INDIVIDUATION  
technique, emotion, and cognition in Simondon's thought and its philosophical implications  
for digital culture  
Abstract  
This article develops the concept of informational individuation, a continuous, relational, and technically mediated  
process through which the contemporary subject constitutes itself at the dynamic intersection of technical,  
affective, and cultural structures. Drawing on the philosophy of Gilbert Simondon and his works "Individuation,"  
and "The Mode of Existence of Technical Objects it explores the technical, emotional, and cultural processes that  
shape subjectivity in the digital age. Using a graphic model that articulates the dimensions of Simondon's  
technique, Jaak Panksepp's emotion and consciousness, and Yuri Lotman's semiotics of culture, it constructs a  
philosophical analysis that addresses the dynamics of informational mediation and the ethical and epistemological  
implications of digital manipulation. Contemporary times are marked by a crisis of subjectivity, intensified by the  
omnipresence of digital technology, emotional overload, and cultural fragmentation. The article addresses this  
crisis through a bold conceptual proposal: informational individuation. To understand the robustness and depth of  
1 Doutoranda do Programa de Pós-graduação em Ciência da Informação (PPGCI/ECA/USP). Mestre em Ciência da  
Informação pelo PPGCI/ECA/USP (2021). Graduada em Biblioteconomia pela Universidade Federal do Pará  
(2009). Especialização em Direitos Humanos e Políticas Públicas, pela Universidade Federal do Oeste do Pará -  
Ufopa (2012)  
2
Possui graduação em Biblioteconomia pela Universidade Estadual "Júlio de Mesquita Filho" - Unesp/Marília.  
Mestrado em Biblioteconomia e Ciência da Informação pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas -  
PUC/Campinas. Doutorado em Ciência da Informação pela Universidade de São Paulo - USP/São Paulo.  
Atualmente é professor da Universidade de São Paulo.  
Esta obra está licenciada sob uma licença  
LOGEION: Filosofia da informação, Rio de Janeiro, v. 12, n. 2, p. 1-13, e-7959, jan./jun. 2026.  
   
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this proposal, we used the quadripolar methodology, which allows for an integrated reading of the epistemological,  
morphological, theoretical, and technical elements that constitute the text's philosophical argument. The  
Informational Individuation model offers a critical framework for understanding and addressing the challenges of  
informational algorithmization, alienation, and cultural fragmentation, suggesting practical interventions to  
strengthen critical autonomy and cultural cohesion.  
Keywords: Gilbert Somindon; individuation; digital culture.  
INDIVIDUACIÓN INFORMATIVA  
técnica, emoción y cognición en el pensamiento de Simondon y sus implicaciones filosóficas  
para la cultura digital  
Resumen  
Este artículo desarrolla el concepto de individuación informativa, un proceso continuo, relacional y técnicamente  
mediado mediante el cual el sujeto contemporáneo se constituye en la intersección dinámica de las estructuras  
técnicas, afectivas y culturales. Basándose en la filosofía de Gilbert Simondon y sus obras «Individuación» y «El  
modo de existencia de los objetos técnicos» explora los procesos técnicos, emocionales y culturales que configuran  
la subjetividad en la era digital. Utilizando un modelo gráfico que articula las dimensiones de la técnica de  
Simondon, la emoción y la conciencia de Jaak Panksepp y la semiótica de la cultura de Yuri Lotman, construye  
un análisis filosófico que aborda la dinámica de la mediación informativa y las implicaciones éticas y  
epistemológicas de la manipulación digital. La época contemporánea está marcada por una crisis de subjetividad,  
intensificada por la omnipresencia de la tecnología digital, la sobrecarga emocional y la fragmentación cultural.  
El artículo aborda esta crisis mediante una propuesta conceptual audaz: la individuación informativa. Para  
comprender la solidez y profundidad de esta propuesta, utilizamos la metodología cuadripolar, que permite una  
lectura integrada de los elementos epistemológicos, morfológicos, teóricos y técnicos que constituyen el  
argumento filosófico del texto. El modelo de Individuación Informacional ofrece un marco crítico para comprender  
y abordar los desafíos de la algoritmización informativa, la alienación y la fragmentación cultural, sugiriendo  
intervenciones prácticas para fortalecer la autonomía crítica y la cohesión cultural.  
Palabras clave: Gilbert Somindon; individuación; cultura digital.  
LOGEION: Filosofia da informação, Rio de Janeiro, v. 12, n. 2, p. 1-23, e-7774, jan./jun. 2026.  
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1 INTRODUÇÃO  
A organização do conhecimento oferece sistemas correntes com a informação pró-social  
que impele a estabilidade na relação entre indivíduos e sistemas mais gerais. A era digital  
transforma profundamente os modos como os indivíduos se relacionam com o mundo, entre si  
e consigo mesmos.  
No centro dessa transformação, está a mediação informacional exercida pelos objetos  
técnicos, que reorganizam as formas de percepção, cognição e interação social. Este artigo  
propõe que esses processos podem ser compreendidos por meio do conceito de Individuação  
Informacional, que articula a interação entre técnica, emoção e cultura.  
De início, pontuamos que esta tentativa de conceituação está circunscrita em um período  
caracterizado pela revolução digital, pela algoritimização da vida onde a tecnologia, as emoções  
humanas e as dinâmicas culturais interagem de formas inéditas. A proliferação de plataformas  
digitais, a centralidade dos algoritmos e as configurações informacionais criaram novos  
desafios epistemológicos, éticos e sociais.  
Este momento singular apresenta alguns problemas emergentes de fragmentação  
cultural devido as bolhas informacionais. De refinados processos de controle emocional a fim  
de maximizar engajamento e polarizar narrativas. Criando dificuldades de compreensão dos  
sistemas técnicos, promovendo alienação e perda de autonomia crítica dos indivíduos  
capturados por estes processos que se entrecruzam nas articulações entre os usos dos objetos  
técnicos nas tramas sociais construtoras de bens culturais.  
As novas realidades, ou a hiper-conectividade nos coloca desafios que acentuaram os  
processos da pós-verdade e da desinformação. Afinal de contas temos desinformação e a pós-  
verdade hiperconectadas aos indivíduos por mecanismos técnicos e culturais.  
No contexto da Ciência da Informação, os debates sobre a desinformação e a pós-  
verdade são unidades de discussão amplamente aceitas como problemáticas desta era digital. O  
debate sobre a pós-verdade e a desinformação, fenômenos onde emoções e crenças pessoais  
frequentemente têm mais influência na formação de opiniões do que os fatos ou informações  
objetivas, pautadas na racionalidade da ciência; apenas começaram, se alastram no vasto campo  
científico, sem grandes sucessos ainda. Aja visto a crescente, e por vezes, incontáveis  
crescimento desses fenômenos no mundo. O controle informacional vivenciado na Dadosfera,  
apoiado por tecnologias opacas e polarizações emocionais, exacerbam esses problemas.  
A saída pode ser construída a partir da conexão interdisciplinar. Pela convergência de  
múltiplos campos de estudo. Neste artigo os campos conectados são a filosofia da informação,  
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a neurociência e semiótica para abordar questões urgentes na relação entre tecnologia,  
subjetividade e cultura. Deste modo, propõe-se uma estrutura filosófica inovadora para  
compreender o sujeito contemporâneo. Assim, o conceito de individuação informacional é uma  
tentativa de articular, de forma interdisciplinar, a interação entre técnica, emoção e cultura na  
construção da subjetividade na era da hiper-conexão.  
Gilbert Simondon, Jaak Panksepp e Iuri Lotman abordam fenômenos distintos, mas  
complementares: a ontogênese da individuação do ser humano, os usos dos objetos técnicos; os  
sistemas emocionais e cognitivos subjacentes ao comportamento humano, e as esferas  
semióticas em que a cultura opera na formação do arranjo social. As perspectivas oferecem um  
panorama sobre como o humano se constitui e interage com o mundo, revelando conexões  
profundas entre o desenvolvimento, sua ontogênese, os objetos técnicos como extensões do ser,  
e os processos emocionais e cognitivos até culminar num mecanismo sofisticado e consolidado  
de significações culturais.  
Simondon (2020a) define a ontogênese como o processo pelo qual um ser, técnico ou  
vivo, adquire identidade por meio da resolução de tensões em um sistema pré-individual. A  
individuação dos objetos técnicos reflete a evolução dos sistemas técnicos, que passam de  
elementos isolados para sistemas integrados, com indivíduos técnicos e conjuntos funcionais  
(Simondon, 2020b).  
Panksepp (1998) enfatiza que a ontogênese humana é profundamente influenciada por  
sistemas emocionais subcorticais, que guiam comportamentos desde os primeiros estágios da  
vida. Para ele, as emoções são centrais para a sobrevivência e interação dos seres vivos,  
especialmente nos mamíferos. Identificou sete sistemas afetivos emocionais básicos, cada um  
associado a um tipo específico de comportamento adaptativo: SEEKING, RACE, FEAR,  
CARE, LUST, GRIEF, que estruturam a forma como o indivíduo explora o mundo e constrói  
conexões cognitivas e afetivas. Para esta construção abordaremos apenas o medo, a raiva e por  
vezes a busca como exploração do mundo.  
Ambos os autores reconhecem que o desenvolvimento do ser envolve a integração de  
diferentes sistemas, sejam técnicos ou biológicos, que emergem de relações dinâmicas. No caso  
humano, os objetos técnicos tornam-se parte da ontogênese ao mediar e amplificar as interações  
cognitivas e emocionais. Para ilustração tenhamos como exemplo um bebê desenvolvendo  
habilidades motoras e emocionais ao interagir com brinquedos técnicos simples, como um  
tablet. Esta experiência das crianças desta época com os objetos técnicos reflete  
simultaneamente a evolução da cognição e a apropriação destes como extensões de seu corpo  
e mente.  
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Semelhante processo se manifesta nos indivíduos adultos, ocorre com as plataformas  
digitais que utilizam recompensas visuais e sonoras para engajar usuários, recentemente  
ampliada para a promessa de ganhos materiais. Elas mobilizam simultaneamente processos  
cognitivos, na resolução de problemas emocionais como alegria e ansiedade. Estados que geram  
tensões e desafios nos indivíduos. Alheios as implicações das diferentes ordens, a falta de  
compreensão dos sistemas técnicos gera alienação. Sem entender o funcionamento ou o  
propósito dos objetos técnicos, os humanos podem perder o controle sobre as tecnologias que  
moldam suas vidas.  
De forma semelhante, emoções básicas podem ser manipuladas em ambientes técnicos,  
levando a dependência ou comportamentos disfuncionais. Redes sociais, por exemplo,  
exploram o sistema SEEKING para capturar a atenção.  
Com base na semiótica da cultura de Iuri Lotman (2021) que amplia nossa visão de  
sociedade ao incorporar o componente cultural. Ele apresenta a semiosfera como espaço de  
criação e manipulação de significados culturais. Para Lotman (2021), a cultura é um espaço  
semiótico onde significados são criados, compartilhados e ressignificados.  
A partir do autor, o artigo identifica na contemporaneidade um fenômeno de  
fragmentação da semiosfera, caracterizado pela perda de coerência simbólica e pela formação  
de “ilhas de comunicação isoladas” (Lotman, 2021, p.145). A entrada de "textos estrangeiros"  
na semiosfera, como desinformação, pode gerar rupturas imprevisíveis, reorganizando a  
percepção cultural.  
Interagindo com os demais autores, nesta perspectiva, consideremos que as redes  
sociais, nossos objetos técnicos, funcionam como dispositivos semióticos, mediando a interação  
entre narrativas culturais e subjetividades individuais. A multiplicação de signos digitais e a  
lógica algorítmica de personalização geram bolhas informacionais que limitam o diálogo entre  
grupos culturais e reduzem a diversidade interpretativa. Consideremos ainda, o contexto da pós-  
verdade, em que, essas plataformas se tornam arenas de disputa semiótica, onde emoções e  
narrativas polarizadas moldam comportamentos coletivos.  
Nesse contexto, a cultura digital é compreendida como um espaço paradoxal: ao mesmo  
tempo que amplifica os significados, promove sua desarticulação, dificultando a produção de  
sentidos coletivos. Associamos esse fenômeno à vulnerabilidade ética e epistemológica da  
sociedade em rede, que passa a depender de mediações técnicas e emocionais cada vez mais  
opacas.  
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2 TÉCNICA COMO GÊNESE DA INDIVIDUAÇÃO  
O recorte teórico inicial consiste em analisar o processo pelo qual a constituição do  
indivíduo acontece a partir da informação que recebe. Simondon (2020b) em suas concepções  
referentes ao processo de constituição dos seres observa que este está centrado nas informações  
que recebem, seja ela genética, do ambiente e da experiência.  
O indivíduo se individua na medida em que percebe seres, constitui uma individuação  
pela ação ou pela construção fabricadora e faz parte do sistema que compreende sua  
realidade individual e os objetos que ele percebe ou constitui. A consciência deviria,  
então, um regime misto de casualidade e eficiência, ligando, segundo esse regime, o  
indivíduo a si mesmo e ao mundo. A afetividade e a emotividade seriam, então, a  
forma transdutiva por excelência do psiquismo, intermediária entre a consciência clara  
e a subconsciência, ligação permanente do indivíduo a si mesmo e a relação do  
indivíduo no mundo. (Simondon, 2020b, p. 367)  
Em Simondon (2020b) informação é um processo de individuação. Informação é  
portadora de mensagens que geram emoções. Ela faz surgir um sentido ou uma significação  
única em cada ser.  
Os indivíduos de uma sociedade se constituem a partir do conhecimento. Na  
investigação filosófica da ciência, conhecer profundamente os mecanismos sobre os quais os  
seres se tornam conscientemente autônomos é papel da ciência em seu conjunto.  
Simondon (2020a) argumenta que a técnica não é apenas um instrumento utilitário, mas  
um meio essencial de individuação. Esse posicionamento destaca o papel dos objetos técnicos  
como mediadores ativos que estruturam as interações entre humanos e sua realidade. Os objetos  
técnicos, por meio de sua concretização, carregam em si não apenas funcionalidade, mas  
também valores culturais e psicossociais. No subcapítulo, ‘os dois aspectos da individuação’  
ele inicia:  
A individuação dos objetos não é inteiramente independente da existência do homem;  
o objeto individuado é um objeto individuado para o homem: há no homem uma  
necessidade de individuar os objetos, que é um dos aspectos da necessidade de se  
reconhecer e de se reencontrar nas coisas, e de nelas se reencontrar como ser que tem  
uma identidade definida, estabilizada por um papel e uma atividade. A individuação  
dos objetos não é absoluta; ela é uma expressão da existência psicossocial do homem.  
No entanto, ela não pode ser arbitrária; é preciso um suporte que a justifique e a  
receba. (Simondon, 2020b, p. 73-74)  
No contexto da individuação informacional, a mediação técnica transforma o fluxo de  
informações em sistemas significativos que moldam percepções. Assim, a técnica se torna não  
apenas um suporte, mas um agente na construção da subjetividade.  
Nesse processo, os objetos técnicos como algoritmos e plataformas digitais configuram  
o acesso à informação e modulam o campo de percepção e ação, enquanto as emoções como  
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curiosidade e medo organizam a experiência antes mesmo da cognição racional. A cultura  
digital, por sua vez, atua como semiosfera fragmentada, onde os significados circulam em redes  
polarizadas, afetando diretamente os modos de subjetivação. A individuação informacional,  
portanto, implica tanto uma exposição a vulnerabilidades éticas e epistemológicas quanto a  
possibilidade de reconstrução da autonomia crítica por meio da alfabetização técnica,  
emocional e cultural.  
3 TENSÕES E DESAFIOS DA INDIVIDUAÇÃO INFORMACIONAL  
A técnica é parte do processo de desenvolvimento humano. Os objetos técnicos ampliam  
as capacidades cognitivas e emocionais. Assim como as emoções são a base da interação  
técnica. Logo, a relação humano-técnica é estruturada por estados emocionais que moldam a  
cognição.  
Tecnologias projetadas de forma ética podem harmonizar técnica e emoção,  
promovendo um desenvolvimento humano mais equilibrado.  
Para Simondon (2020a), os objetos técnicos estruturam o acesso à informação e as  
formas de interação com o mundo. Para Panksepp (1998) as emoções básicas, como o medo,  
estruturam a cognição e a recepção de mensagens. Com Lotman entendemos que a semiosfera  
digital fragmenta significados e molda narrativas polarizadoras que influenciam as  
subjetividades.  
Por meio da integração dessas dimensões observamos que o sujeito contemporâneo é  
formado por processos contínuos de mediação técnico afetiva, que, ao mesmo tempo, oferecem  
novas possibilidades de atuação e expõem vulnerabilidades éticas e epistemológicas. Simondon  
(2020a, p. 23) descreve os objetos técnicos como mediadores que não apenas facilitam  
interações, mas também moldam subjetividades. Ele observa que “a técnica não é marginal ao  
humano; ela expressa uma relação fundamental entre o homem e o mundo”. No contexto da  
individuação informacional, os objetos técnicos configuram os modos como a informação é  
acessada, avaliada e disseminada.  
Nessa mediação técnica, alguns aspectos são ressaltados como a concretização e a  
alienação técnica. Na concretização os sistemas técnicos são continuamente refinados,  
eliminando contradições internas e integrando funções (Simondon, 2020a). Ao passo que a  
alienação técnica cria sistemas opacos, sem transparência, com códigos fechados tornando os  
indivíduos dependentes e incapazes de compreender as dinâmicas que moldam suas percepções  
(Beiguelman, 2021).  
Panksepp (1998) nos deixou arquiteturas em que as emoções funcionam como estruturas  
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cognitivas. Ele argumenta que as emoções básicas são fundamentais para organizar as  
experiências humanas. Destacando que “as emoções organizam a experiência antes mesmo de  
a cognição atuar". Atualizando para este momento cíclico, no ambiente digital, as emoções são  
sistematicamente manipuladas para maximizar engajamento. Segundo o autor, as emoções  
organizam a experiência antes que a cognição entre em cena. No ambiente digital, isso significa  
que as reações emocionais a conteúdos, como notícias, imagens ou comentários, são primárias  
e influenciam o engajamento antes que os usuários processem cognitivamente a informação.  
No caso de notícias com desinformação, o algorítimo, dotado de informações falsas se torna o  
agente do caos, por carregar viesses de confirmação e similaridade que os indivíduos buscam  
condicionados por hábitos.  
Segundo Lotman (1990, 2021), estes componentes técnicos e emocionais alicerçam a  
cultura e a fragmentação da semiosfera. O autor descreve a semiosfera como o espaço onde os  
significados culturais são criados e disputados. Ele observa que “a cultura digital amplifica  
significados, mas os fragmenta, criando ilhas de comunicação isoladas”. No ambiente digital,  
a fragmentação da semiosfera é intensificada por bolhas informacionais, que promovem  
polarizações e dificultam a construção de consensos. Narrativas culturais fragmentadas não  
apenas refletem, mas também reforçam a vulnerabilidade emocional e técnica.  
3.1 INDIVIDUAÇÃO INFORMACIONAL  
Inspirada em Simondon (2020), a individuação informacional parte da ideia de que “o  
ser é individuação em ato”. Simondon vê a técnica como o meio pelo qual a energia se converte  
em forma e o indivíduo se concretiza em relação a um meio associado.  
A dimensão “informacional” amplia esse princípio: a informação é o mediador  
transdutivo que liga sujeito, técnica e cultura, permitindo que cada um se torne o que é através  
do outro. A individuação informacional é processo ético, técnico e emocional de constituição  
da subjetividade.  
Dito de outro modo, a Individuação informacional é o processo contínuo e recursivo de  
constituição do sujeito em meio a fluxos de informação técnica, emocional e cultural. Ela  
descreve o modo como o humano se individua não apenas por suas ações, mas pelas relações  
simbólicas e afetivas que mantém com seus meios técnicos e comunicacionais.  
Trata-se de uma individuação orientada a objetivos emergentes, construída em campo  
relacional e dependente das interferências cognitivas e emocionais que modulam o sentido.  
Nesse processo, o sujeito, a técnica e a cultura não se opõem, mas se co-produzem configurando  
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uma ecologia complexa do conhecimento, da ética e da sensibilidade.  
O conceito de individuação informacional oferece uma perspectiva filosófico-  
transdisciplinar para compreender a cultura digital. Ele integra as dimensões ontológica  
(Simondon), psicológica (Panksepp) e semiótica (Lotman) em um modelo recursivo e  
dinâmico, no qual o sujeito se forma a partir da interação entre técnica, emoção e cultura.  
O objetivo central é operacionalizar o conceito através de um modelo filosófico de  
compreensão da subjetividade contemporânea, denominado individuação informacional.  
Articulando os referenciais de Simondon (filosofia da técnica), Panksepp (neurociência  
afetiva) e Lotman (semiótica da cultura) para construir um modelo interdisciplinar e ético de  
interpretação da cultura digital. A construção do modelo não é meramente descritiva, mas  
transformadora que busca oferecer instrumentos teóricos e práticos para reconstruir a  
autonomia crítica dos sujeitos diante das novas formas de manipulação informacional,  
emocional e simbólica.  
3.1.1 Mapa conceitual da Individuação Informacional  
A articulação entre técnica, emoção e cultura culmina no conceito de individuação  
informacional, núcleo central do artigo. Na construção conceitual para a Individuação  
Informacional, tendo em mente as encruzilhadas dos campos científicos, esboçamos um modelo  
gráfico da individuação informacional. Ele pode ser usado como ferramenta para analisar a  
subjetividade digital. Na articulação de técnica, emoção e cultura como dimensões  
interconectadas que estruturam a subjetividade contemporânea. Acreditamos que a  
compreensão da estrutura conceitual do mapa conceitual da Individual informacional seja  
necessário para dar conta do objetivo proposto neste trabalho.  
Esse conceito é representado por um modelo gráfico triangular, em que cada vértice  
(técnica, emoção e cultura) participa de um processo recursivo de formação do sujeito.  
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Figura 1 - Mapa conceitual da individual informacional  
Fonte: Dados da Pesquisa  
O mapa conceitual sintetiza o núcleo teórico do artigo, representando graficamente o  
processo de individuação informacional como uma estrutura triádica e recursiva, composta  
pelas dimensões técnica, emocional e cultural. Cada vértice da figura expressa uma esfera  
constitutiva da experiência humana na cultura digital, sustentada por um referencial filosófico  
específico e interdependente. Vamos a sua explicação:  
Técnica (Gilbert Simondon)  
A dimensão técnica constitui o fundamento ontológico da individuação informacional.  
Compreende-se a técnica não como mero instrumento, mas como meio de mediação e  
coevolução entre o ser humano e o mundo.  
Os dispositivos técnicos algoritmos, interfaces e redes tornam-se estruturas cognitivas que  
moldam o modo como o sujeito percebe, pensa e age. Entretanto, essa mediação é ambígua:  
pode favorecer a autonomia, quando compreendida criticamente, ou gerar alienação, quando  
permanece opaca e manipuladora;  
Emoção (Jaak Panksepp)  
O vértice emocional incorpora a teoria das emoções básicas de Panksepp para ressaltar que a  
experiência informacional é também afetiva e pré-cognitiva.  
A emoção organiza a percepção e orienta o comportamento antes mesmo da reflexão racional,  
sendo, portanto, a base primária da cognição.  
Na cultura digital, porém, as emoções tornam-se alvos de captura e controle, exploradas por  
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algoritmos que acionam sistemas de recompensa e medo. A individuação informacional, nesse  
contexto, exige o reconhecimento e a educação emocional como práticas éticas de resistência à  
manipulação afetiva.  
Cultura (Iuri Lotman)  
A dimensão cultural, inspirada em Lotman, representa o espaço simbólico onde técnica e  
emoção se encontram e se transformam em linguagem, narrativa e identidade.  
A cultura é vista como uma semiosfera dinâmica, na qual circulam signos e significados.  
Na era digital, essa semiosfera sofre fragmentação e polarização, gerando bolhas  
informacionais e perda de sentido coletivo. As plataformas digitais amplificam e fragmentam  
narrativas culturais. Na infraestrutura digital das redes os algoritmos mediam a informação.  
A individuação informacional, ao reintegrar o cultural, propõe reconstituir o diálogo e a  
diversidade simbólica como fundamentos éticos da vida social.  
No centro do triângulo conceitual, a individuação informacional surge como síntese  
integradora das três dimensões. Ela descreve o processo pelo qual o sujeito contemporâneo se  
forma na e pela informação, em constante troca com sistemas técnicos, afetivos e culturais.  
Trata-se de um modelo transdisciplinar e recursivo, em que cada vértice retroalimenta os  
demais:  
A técnica estrutura o campo da ação;  
A emoção confere direção e sentido à experiência;  
A cultura fornece o espaço simbólico de significação.  
Assim, a individuação informacional expressa a passagem do indivíduo isolado para o  
sujeito em rede, cuja identidade se constrói por meio de fluxos de informação e de afetos  
mediados tecnologicamente.  
4 TÉCNICA E A CONSTRUÇÃO COGNITIVA: DIÁLOGOS SIMONDON E  
PANKSEPP  
Gilbert Simondon (2020a) concebe os objetos técnicos como mediadores da relação  
humano-máquina, ampliando as capacidades perceptivas e cognitivas, mas também  
reconfigurando as formas de interação. No contexto da mídia, plataformas digitais se tornam  
dispositivos ontogênicos de informação, que moldam a percepção da realidade.  
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É preciso que exista um ser vivo como mediador para interpretar um funcionamento  
em termos de informação e convertê-lo em formas para outra máquina. O homem  
compreende as máquinas, tem uma função a desempenhar entre as máquinas, mais do  
que acima delas, para que possa haver um verdadeiro conjunto técnico. É o homem  
que descobre as significações a significação é o sentido que um evento assume em  
relação a formas que já existe; a significação é o que faz um evento ter valor de  
informação. (Simondon, 2020a, p. 212)  
A tecnologia organiza as categorias pelas quais a informação é compreendida. A  
semiose nas interfaces digitais condicionam o engajamento e a avaliação crítica. “a técnica não  
é neutra; ela organiza a interação entre o ser e o mundo, condicionando o acesso ao  
conhecimento” (Simondon, 2020a, p. 205).  
Em, Affective Neuroscience, Panksepp (1998, p 79) argumentaria que “as emoções  
básicas são os alicerces sobre os quais construímos nossas percepções e decisões”. De onde  
compreendemos as emoções como base da experiência humana. Segundo Panksepp (1998), as  
emoções são processos primários que emergem de regiões subcorticais do cérebro e precedem  
os processos cognitivos superiores. Emoções como medo (FEAR), alegria (PLAY) e raiva  
(RAGE) são fundamentais para a sobrevivência e organizam a experiência de forma automática  
e rápida. Ele argumenta que essas emoções não são apenas reações a estímulos, mas são  
essenciais para estruturar a forma como os indivíduos percebem e interagem com o mundo.  
Nos atributos da emoção e cognição Panksepp (1998) destaca que as emoções básicas  
como busca, medo, e raiva não apenas orientam comportamentos, mas estruturam os processos  
cognitivos. As mensagens de desinformação exploram esses sistemas emocionais para capturar  
atenção e direcionar respostas automáticas. As explorações emocionais estimulam a  
curiosidade, mas em contextos de desinformação pode ser direcionado para narrativas falsas.  
Medo e raiva amplificam o impacto emocional, reduzindo a avaliação crítica das mensagens.  
No ambiente digital, essa organização emocional é explorada pelas plataformas que  
utilizam algoritmos sofisticados para evocar respostas emocionais específicas. Por exemplo, o  
uso de notificações push, feedback instantâneo e conteúdos sensacionalistas são estratégias que  
apelam diretamente às emoções básicas para prender a atenção dos usuários. Essas técnicas  
exploram os mesmos sistemas emocionais que Panksepp (1998) identificou, mas de maneira  
que visa maximizar o tempo de engajamento e o consumo de conteúdo.  
A manipulação das emoções no ambiente digital levanta questões éticas significativas.  
Se, como Panksepp (1998) sugere, as emoções organizam a experiência antes que a cognição  
possa intervir, os usuários estão, muitas vezes, reagindo de maneira impulsiva e automática aos  
estímulos digitais, sem a oportunidade de uma reflexão crítica. Isso compromete a autonomia  
crítica, pois os indivíduos são constantemente levados a agir com base em emoções  
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manipuladas, em vez de decisões racionais e ponderadas.  
A teoria de Panksepp  
(1998) nos alerta para o risco de uma cultura digital  
emocionalmente reativa, onde as emoções são continuamente exploradas para influenciar  
comportamentos. Essa realidade tem levado à polarização e à fragmentação cultural, pois as  
emoções intensas, como raiva e medo, tendem a dominar as interações digitais, exacerbando  
divisões sociais, atacando posições políticas e levando a ondas de desordem civil.  
5 SEMIOSFERA: A COESÃO CULTURAL EM RISCO  
Lotman (2021) define a semiosfera como o espaço cultural onde significados são criados  
e compartilhados. Em tempos de desinformação, a semiosfera é invadida por "textos  
estrangeiros" que geram rupturas nos significados, explorando lacunas cognitivas e emocionais.  
Para o autor “o espaço semiótico é ao mesmo tempo um campo de criação e de conflito  
cultural”(Lotman, 2021, p. 98). Narrativas de desinformação atuam como "textos disruptivos"  
que mobilizam emoções e reorganizam percepções culturais. As plataformas digitais tornam-se  
assim espaços centrais de disputa semiosférica, amplificando narrativas polarizadoras. Sujeitos  
sociais capturados nestes processos de algoritimização tem suas reações cognitivas  
automatizadas.  
A manipulação emocional digital também ameaça a coesão cultural. As emoções  
organizam não apenas a experiência individual, mas também as dinâmicas sociais. Em,  
Mecanismos imprevisíveis da cultura, Lotman (2021) nos provoca a reflexão ao nos propor:  
Imagine uma massa de pessoas em que cada membro, ao se ver em determinada  
situação, se comporta exatamente da mesma maneira que todos os outros membros,  
selecionando automaticamente a mesma reação do seu conjunto de ações possíveis.  
Tal massa é um rebanho. A formação de um rebanho é uma variante possível do  
comportamento humano. Ao criar a inércia, ela suprime a capacidade do indivíduo de  
escolher seu próprio comportamento. Nem todo grupo de pessoas, no entanto, é um  
rebanho. (Lotman, 2021, p. 103).  
Dialogando com esta proposição de Lotman (2021), Panksepp (1998), assevera que as  
emoções básicas têm um papel fundamental na formação de laços sociais e na manutenção de  
comunidades coesas. No entanto, a fragmentação das identidades, sobretudo, culturais é  
intensificada quando os algoritmos promovem conteúdo que reforça preconceitos e divide  
opiniões, em vez de fomentar a compreensão mútua.  
Para enfrentar esses desafios, é necessário promover uma alfabetização emocional  
digital, onde os usuários possam reconhecer e regular suas reações emocionais, desenvolvendo  
uma maior consciência sobre como suas emoções são manipuladas. Além disso, intervenções  
regulatórias podem ser necessárias para limitar as práticas que exploram emocionalmente os  
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usuários de forma antiética.  
As mensagens apresentadas pelos dispositivos ontogênicos de informação,  
especialmente em contextos digitais, frequentemente apelam a reações automáticas e  
emocionais. Isso reduz a capacidade de reflexão crítica e favorece a aceitação de informações  
enviesadas ou falsas. Como dito anteriormente, plataformas digitais utilizam algoritmos que  
priorizam o engajamento emocional, como os likes e compartilhamentos, favorecendo  
mensagens que ativam as emoções medo e raiva. Como exemplo de sujeitos sociais  
automatizados temos a termo do ano, eleito pelo dicionário Oxford “podridão cerebral”. O  
termo pode ser trabalhado como uma metáfora para os efeitos negativos e degenerativos da  
alienação técnica na era digital. Esse conceito se refere ao impacto profundo e corrosivo que a  
dependência excessiva da tecnologia e a manipulação informacional podem ter na capacidade  
crítica, emocional e cognitiva dos indivíduos.  
O filósofo que foi, Gilbert Simondon argumentaria que “podridão cerebral” também é  
resultado da alienação técnica. A ‘podridão cerebral’ pode ser o resultado do uso excessivo das  
múltiplas telas. Quando os indivíduos interagem com tecnologias sem compreender seus  
mecanismos, tornando-se vulneráveis a manipulações. As narrativas de desinformação  
reorganizam os sistemas de valores e crenças, frequentemente apelando a emoções básicas que  
comprometem a avaliação crítica. Para Lotman (2021) essas narrativas polarizadoras  
fragmentam a semiosfera, criando bolhas interpretativas que reforçam crenças preexistentes.  
Numa perspectiva do pensamento de Panksepp (1998) ativação de medo e da raiva  
reduzem a capacidade de processamento lógico, priorizando respostas automáticas e defensivas  
por efeito do medo gerado nas fake news e a raiva nas redes sociais.  
Durante os crimes de multidão de 8 de janeiro, mensagens nas redes sociais exploraram  
emoções de medo e raiva para mobilizar comportamentos de manada como já advertido por  
Lotman (2021) ao evidenciar o comportamento de manada e/ou rebanho, comprometendo a  
reflexão crítica sobre a legitimidade das ações.  
Este argumento do autor sublinha a  
necessidade de integrar os insights de Panksepp (1998) na análise das interações digitais, nos  
direcionando a uma abordagem que respeite a complexidade das emoções humanas e suas  
implicações para a subjetividade e a cultura.  
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6 A PÓS-VERDADE E A CONSTRUÇÃO DA REALIDADE SOCIAL  
Realidade é um processo mediado. Nesta afirmação, encontramos Simondon (2020a,  
2020b) com a técnica que organiza as categorias de percepção. Panksepp (1998) e Lotman  
(2021) concordam que a realidade social é construída por processos dinâmicos e mediados,  
como já dito, as emoções estruturam a relação homem-mundo e narrativas culturais dão sentido  
à experiência coletiva. No contexto da pós-verdade, esses processos são instrumentalizados  
para gerar realidades fragmentadas em bolhas algoritmizadas com vieses de similaridade e  
confirmação (Dunker, 2017).  
Neste cenário, ocorre a desindividuação pela perda da autonomia crítica. A  
desinformação, ao explorar reações cognitivas e emocionais, contribui para a desindividuação,  
dissolvendo a autonomia crítica dos indivíduos. As narrativas de medo e raiva capturam atenção  
e reduzem reflexão. Ampliando o debate crítico filosófico Heidegger, em A Questão da  
Técnica, advertiu que a técnica pode reduzir o mundo ao mero "estoque", ou o acúmulo de bens  
úteis reforçando o carácter alienador que as novas tecnologias são potencializadoras. Simondon  
(1990) oferece uma alternativa ao sugerir que a técnica, quando compreendida, pode ser um  
meio de emancipação.  
Muito longe de indivíduos emancipados criticamente. Multidões motivadas por  
desinformação e discursos polarizadores invadiram espaços políticos simbólicos, agindo de  
forma destrutiva e descontrolada. A multidão atuou como um sistema integrado, onde as ações  
individuais foram dissolvidas na dinâmica do grupo.  
Os crimes de multidão de 8 de janeiro de 2023, marcados pela invasão e depredação das  
sedes dos Três Poderes em Brasília, podem ser analisados sob uma perspectiva integradora que  
considera individuação, cognição e a teoria da atribuição3. Cada abordagem contribui para  
explicar como fenômenos técnicos, emocionais e sociais interagem nesses contextos,  
ampliando a compreensão do comportamento coletivo.  
Os participantes eram indivíduos isolados com diferentes potenciais emocionais e  
cognitivos no estado de pré-individuação. A multidão emergiu como um “indivíduo social”,  
onde os comportamentos individuais foram absorvidos por uma identidade coletiva. Redes  
sociais, plataformas digitais e grupos organizados criaram a infraestrutura técnica que sustentou  
3 A teoria da atribuição aqui apresentada pertence a Fritz Heider. Na apreensão deste trabalho a Atribuição é o  
processo simbólico e fenomenológico pelo qual o sujeito constrói nexos de causalidade e responsabilidade  
dentro de seu campo perceptivo, articulando emoção, cognição e contexto em uma totalidade significativa. Mais  
do que inferir causas, o ato atributivo configura um modo de individuação da experiência, no qual o sujeito  
produz sentido, justifica ações e regula afetivamente sua relação com o mundo. A causalidade, portanto, não é  
dada, mas produzida pela consciência intencional como estrutura de orientação e estabilidade.  
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a multidão.  
Neste cenário, a individuação social nos crimes de multidão foi facilitada por conjuntos  
técnicos, como redes sociais, grupos de mensagens que integraram elementos individuais em  
um sistema coletivo polarizado. A multidão agiu como um sistema funcional com objetivos e  
dinâmicas próprios, transcendendo as intenções individuais. A teoria da atribuição nos crimes  
de multidão deram causa aos eventos  
com base em motivações, crenças ou intenções  
individuais. Além das situações, contextos ou influências externas. A teoria da atribuição  
frequentemente opera de forma reducionista ao isolar causas internas ou externas. No caso dos  
crimes de multidão, é necessário integrar essas dimensões com as dinâmicas de individuação  
social e emocional.  
O comportamento coletivo não pode ser reduzido a intenções individuais (atribuição  
interna) nem a fatores contextuais (atribuição externa). A multidão é um indivíduo social  
emergente, que opera com dinâmicas próprias. As redes sociais funcionaram como  
catalisadores técnicos, conectando indivíduos emocionalmente polarizados e criando a  
"emergência" da multidão como unidade.  
Atribuir responsabilidades exclusivamente a líderes, redes sociais ou indivíduos é  
insuficiente. É necessário reconhecer o papel das emoções como forças organizadoras do  
comportamento. A multidão como um sistema emergente, moldado por contextos técnicos,  
emocionais e sociais.  
Neste sentido, propomos aplicações práticas a fim de promover uma alfabetização  
técnica sobre redes sociais e seus impactos emocionais e cognitivos. Desenvolver programas  
que ensinem os indivíduos a reconhecer e gerenciar emoções em contextos polarizados. No  
ambiente tecnológico, criar plataformas mais transparentes e responsáveis, que minimizem a  
amplificação de emoções negativas (raiva, medo) e promovam interações construtivas.  
Os crimes de multidão refletem a complexa interação entre individuação social,  
cognição emocional e dinâmicas de atribuição.  
7 METODOLOGIA  
A investigação adota uma abordagem dialógica e integrativa, combinando a análise  
teórica a metodologia quadripolar desenvolvida por Bruyne, Herman e Schoutheete (1977),  
que organiza a produção de conhecimento científico por meio de quatro polos interdependentes:  
polo epistemológico, polo morfológico, pelo teórico e pelo técnico.  
A construção conceitual do desenvolvimento do conceito de individuação informacional  
revisa as contribuições centrais de Simondon, Panksepp e Lotman para compreender as  
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interseções entre técnica, cognição/emocionalidade e cultura. Centrados no estudo do fenômeno  
da desinformação, com ênfase nos crimes de multidão de 8 de janeiro de 2023, para identificar  
como os dispositivos ontogênicos de informação influem na constituição da realidade social. A  
metodologia quadripolar é a ferramenta para entender os impactos epistemológicos e sociais da  
desinformação.  
Deste arranjo construtivo sobreveio as questões norteadoras da pesquisa: Como os  
objetos técnicos moldam a subjetividade? Como a desinformação mobiliza emoções básicas  
para influenciar a recepção e avaliação de mensagens? De que maneira as emoções estruturam  
respostas informacionais? Qual o papel dos dispositivos técnicos na amplificação de narrativas  
polarizadoras? Qual o impacto da cultura digital na individuação do sujeito? Como narrativas  
culturais fragmentam a semiosfera e reorganizam significados? A tentativa de resposta está  
inserida na revisão crítica dos autores.  
Foi realizada uma revisão crítica dos textos principais de Gilbert Simondon em “A  
Individuação”, “Do Modo de Existência dos Objetos Técnicos”, e “Sobre La Técnica”. Jaak  
Panksepp em “Affective Neuroscience” e Irui Lotman em “Mecanismos imprevisíveis da  
Cultura” e The Universe of the Mind”. A revisão teve como objetivo identificar processos de  
individuação técnica e social; entender o papel das emoções na cognição e no comportamento  
para a construção e manipulação de significados na semiosfera.  
O objeto de estudo, para este momento é o evento reconhecido para este recorte como  
crimes de multidão, ocorridos em 8 de janeiro do ano de 2023 no Brasil. Para esse estudo, o  
ataque às sedes dos três poderes em 8 de janeiro, em Brasília, não foi um ato espontâneo, mas  
o resultado de um longo processo de engajamento político-afetivo radicalizado construído em  
ambientes digitais. Plataformas como WhatsApp, Telegram, Facebook e TikTok atuaram como  
dispositivos de individuação informacional, moldando a subjetividade dos participantes através  
de estímulos técnicos, emocionais e simbólicos. Considerado como um caso paradigmático para  
ilustrar a relação entre técnica, emoção e narrativa cultural na formação de realidades  
polarizadas. Oriundas dos efeitos das reações cognitivas e emocionais na recepção de  
mensagens mediadas por dispositivos técnicos, como redes sociais. A partir da integração das  
teorias analisadas, foi construído o conceito de individuação informacional.  
7.1 APLICAÇÃO DA METODOLOGIA QUADRIPOLAR  
Para investigar esse fenômeno, opta-se por uma abordagem filosófica ancorada na  
metodologia quadripolar, que oferece um modelo investigativo não linear, sensível à  
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complexidade da subjetividade digital, são eles:  
a) Polo Epistemológico  
Define-se o problema central como a constituição do sujeito na era digital por meio de  
mediações técnicas, afetivas e culturais. Adota-se uma epistemologia relacional e pós-  
cartesiana, crítica aos modelos de conhecimento fragmentários e tecnicistas. A individuação  
informacional é entendida como um processo de coemergência entre estruturas técnicas e  
afetivas. O objeto observado é o sujeito coletivo formado por meio de redes digitais, articulado  
em torno de crenças conspiratórias, ressentimentos identitários e promessas de restauração  
moral e política. A subjetividade aqui não é individual, mas um efeito de rede, uma espécie de  
individuação grupal, sustentada por mediações algorítmicas e discursivas.  
Nesse caso, a individuação informacional é o processo pelo qual os sujeitos antes  
difusos são condensados em uma multidão organizada emocionalmente por dispositivos  
técnicos.  
b) Polo morfológicos  
O objeto científico é estruturado por meio de um modelo gráfico triangular entre  
Técnica Emoção Cultura, que reflete a não linearidade e a complexidade do processo de  
subjetivação. O modelo é operado como grelha de leitura e análise dos fenômenos digitais,  
permitindo identificar pontos de convergência, tensão e retroalimentação entre as dimensões.  
Essa estrutura produz retroalimentação cognitivo-afetiva. Quanto mais o sujeito interage com  
determinado conteúdo, mais recebe estímulos congruentes com ele, tornando-se prisioneiro de  
sua própria percepção do mundo.  
c) Polo teórico-analítico  
A fundamentação teórica é transdisciplinar. Relacionam-se os três campos principais da  
fundamentação, a Ontogênese técnica de Simondon, a Neurociência afetiva de Panksepp e a  
Semiótica da cultura proposta por Lotman. Essa triangulação permite construir um arcabouço  
conceitual robusto, capaz de interpretar as dinâmicas subjetivas na cultura digital sem  
reducionismos psicológicos, sociológicos ou tecnológicos. Em Simondon (2021), o sujeito não  
preexiste às suas condições técnicas, pelo contrário, ele é produzido por elas. As emoções  
primárias são ativadas e moduladas em redes digitais, favorecendo estados de excitação coletiva  
e despersonalização, essa é a contribuição de Pankseep na pesquisa. A semiosfera digital  
fragmenta a significação e fortalece mitologias polarizadas que se autoduplicam, o fenômeno  
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da cultura em plena atuação.  
d) Polo técnicos  
Opta-se por uma análise filosófico-conceitual, com proposição de intervenções práticas  
baseadas na crítica imanente ao modelo. São delineadas três frentes de aplicação como a  
alfabetização midiática, formação crítica sobre os dispositivos informacionais e seus  
algoritmos. A educação emocional, desenvolvimento da autorregulação e da empatia como  
resistência à manipulação. E a reintegração cultural pela construção de narrativas  
compartilhadas e inclusão simbólica para superar a fragmentação da semiosfera.  
Essa análise permitiu uma leitura transversal que revelou as convergências entre as  
ideias de Simondon, Panksepp e Lotman. Estes caminhos sugeriram as contribuições de cada  
autor para a compreensão dos efeitos da desinformação na pós-verdade do ambiente digital.  
O estudo foi contextualizado com base em dados qualitativos e descritivos, extraídos  
de eventos documentados sobre os crimes de multidão. Foram examinados a dinâmica de  
organização técnica das multidões com base em Simondon e Lotman. O impacto emocional das  
narrativas disseminadas por Panksepp. Em Lotman também encontramos a presença do  
racionalismo moderno em sua face mais perversa, a fragmentação da semiosfera causada pela  
desinformação.  
7.2 LIMITAÇÕES METODOLÓGICAS  
A primeira limitação diz respeito à natureza reflexiva e pouco empírica da individuação  
informacional. Por adotar uma epistemologia de tipo transdutivo e hermenêutico, o modelo  
compreende o conhecimento como coemergência entre sujeito e fenômeno e, portanto, não  
separa observador e objeto.  
Essa interdependência compromete a reprodutibilidade empírica dos resultados, pois  
cada interpretação é contextual e situada. Contudo, há limite para generalização, uma vez que  
o conhecimento produzido é auto-referente e processual, não cumulativo no sentido positivista.  
A postura hermenêutica privilegia o sentido sobre a mensuração, o que pode ser questionado  
em campos de tradição experimental ou estatística. Em termos de Bardin (2015, p. 44), “toda  
análise de conteúdo é dependente do olhar do analista e das condições sob as quais o texto é  
interpretado”. A individuação informacional acentua esse princípio ao reconhecer o  
pesquisador como parte do sistema informacional que analisa.  
Em termos de coerência teórica, o desafio é manter a transdisciplinaridade sem dissolver  
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as fronteiras epistemológicas de cada autor ponto em que a metodologia quadripolar exige  
atenção constante.  
A individuação informacional revela-se como um processo aberto, em disputa constante  
entre heteronomia algorítmica e autonomia crítica. O sujeito é simultaneamente produto e  
produtor de sentido, vulnerável às estruturas digitais, mas também capaz de reorganizar suas  
relações com a técnica, a emoção e a cultura.  
A escolha dessa metodologia se justifica pela necessidade de compreender fenômenos  
contemporâneos complexos como a desinformação e seus impactos cognitivos, a partir de uma  
perspectiva interdisciplinar, que articule filosofia, neurociência e teoria da cultura. Essa  
abordagem permite não apenas analisar o fenômeno, mas também propor intervenções práticas  
e conceituais para enfrentar os desafios da pós-verdade.  
8 CONSIDERAÇÕES FINAIS  
No caminho da construção da pesquisa, nos desdobramos das análises reflexivas que  
demonstra que os objetos técnicos em Simondon não são apenas ferramentas ou utensílios, mas  
entidades que evoluem por meio de um processo de individuação. Este processo os torna cada  
vez mais integrados e eficazes, refletindo uma relação complexa e dinâmica entre forma, função  
e evolução. O conceito de individuação também sugere que a tecnicidade dos objetos não está  
apenas na sua função prática, mas na maneira como suas partes interagem e se adaptam,  
formando um sistema coeso.  
O indivíduo informacional é uma entidade em constante transformação, moldado pela  
interação entre técnica, emoção e cultura. Essa abordagem amplia a compreensão crítica dos  
desafios da era digital e oferece subsídios teóricos para a formulação de práticas informacionais  
éticas.  
Individuação ou desindividuação são estados em a técnica pode tanto emancipar quanto  
alienar, dependendo da compreensão crítica que se tenha do sistema técnico. Alinhado a um  
ciclo emocional cognitivo em que as respostas emocionais ativadas por mensagens  
informacionais reduzem a capacidade de análise crítica e favorecem reações automáticas.  
Evidenciando que emoções como medo e raiva podem ser conduzidas para moldar  
comportamentos e percepções. Com reforço das bolhas informacionais que reforçam crenças  
preexistentes. Logo, em indivíduos mais propensos ao “medo” da perda do sentimento de  
nacionalização, ampliam a percepção distorcida da realidade e acentuam as divisões sociais  
polarizadas. Estes processos se consolidam na semiosfera digital atuando como um campo onde  
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os sistemas técnicos e emocionais se cruzam, reconfigurando os significados.  
Retomando o modelo conceitual da Individuação Informacional temos a técnica como  
base mediadora que organiza o acesso e a percepção da informação. As emoções estruturando  
como as informações são interpretadas e avaliadas. E a cultura definindo os significados que  
circulam e os contextos narrativos em que o indivíduo informacional se insere.  
Este modelo revelou a vulnerabilidade do indivíduo à manipulação informacional e os  
riscos da alienação técnica e da polarização cultural. Ele sugere intervenções para enfrentar os  
desafios da manipulação informacional pela alfabetização midiática e emocional, conjunto ao  
desenvolvimento de plataformas éticas.  
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