O FUTURO DO DISCURSO 

TECNOLOGIA, AUTONOMIA E A CRISE DA RAZÃO PÚBLICA

 

O 21º Colóquio Habermas e o 12º Colóquio de Filosofia da Informação foram espaço interdisciplinar de discussão e resistência crítica frente aos desafios contemporâneos que atravessam a razão pública. Ao interpretar e atualizar o pensamento de Jürgen Habermas no contexto brasileiro, os Colóquios buscam conectar teoria e prática, problematizando as desigualdades, exclusões e disputas simbólicas que marcam nossa esfera pública. 

Nesse horizonte, tratamos de nossas urgências sociais e também dos nossos conflitos históricos, fazendo o exercício de uma leitura situada. Em 2025 os Colóquios propuseram como tema central - O futuro do discurso: tecnologia, autonomia e a crise da razão pública - , provocando reflexões sobre  o papel da linguagem e do agir comunicativa em tempos de plataformas digitais, bolhas informacionais, algoritmos e inteligência artificial, que invisibilizam sujeitos e corroem o tecido democrático.

Em um cenário de desinformação, discursos de ódio e polarizações extremas, torna-se urgente perguntar: qual é o lugar do discurso na construção de entendimentos democráticos e na política deliberativa? Discutir Habermas no Brasil não é repetir conceitos, mas sim, traduzi-los em contextos distintos, longe da Europa, em discussões que possuem forças e poderes que atravessam nossa realidade, especialmente a partir dos olhares e das falas de periferias e territórios em conflitos, que desestabilizam a retórica de suposta harmonia social defendida até bem recentemente no Brasil, revelando que a ideia de consenso silenciava tensões estruturais profundas e reproduzia imagens idealizadas, como a do sujeito cordial.

A aparente conciliação no Brasil encobre desigualdades profundas persistentes e apaga a presença ativa de conflitos sociais. Portanto, o enfrentamento dos problemas sociais passa pela ruptura com a visão idílica de uma sociedade harmônica, na qual os conflitos estão escondidos.

 

A problematização racional é a aposta habermasiana para a formação de uma opinião pública crítica, capaz de formar discursos orientados para a construção do entendimento entre sujeitos. Dessa forma, os Colóquios firmam-se como espaços de discussão e  construção, em que se tem em vista a possibilidade de fazer do discurso não apenas um diagnóstico da crise, mas também uma ferramenta na busca de soluções. A travessia abre caminhos para que a razão pública seja não apenas defendida, mas reinventada, a partir das práticas que resistem, das epistemologias que não se calam e dos modos de vida que, mesmo sob cerco, ainda insistem em serem  palavras.

Nesse cenário pesquisadores de ciências humanas e sociais, educação e tecnologia submeteram e apresentaram seus trabalhos. Os Colóquios afirmam-se como espaços plurais de escuta, publicidade e discurso como práticas sociais transformadoras. A publicação dos Anais dos Colóquios é mais um passo para a reconstrução racional e  democrática da sociedade.

 

 

Rio de Janeiro, 07 de novembro de 2025.

 

 

Clovis Ricardo Montenegro de Lima

Coordenador da comissão organizadora