ARTIGO
do ser humano viver “[...] em sociedades que inventam ferramentas que moldam a sociedade e
os indivíduos nela” (Davis, 1998, p. 10, tradução nossa). Para ele, esse é o caso da informação.
Considerando isso, o autor esclarece que as ferramentas não dizem respeito apenas às manuais
– como, lanças, facas, machados – mas, também, às culturais, que formam o arcabouço cultural
de conceitos e definições que moldam uma cultura – tais como as definições de parentesco,
gênero, sexo, remédios, clima, linguagem. Nesse sentido, a “[...] cultura é tecnocultura” (Davis,
1998, p. 10, tradução nossa), já que, tanto as ferramentas manuais como as culturais possuem
motivações humanas em sua base, valendo também para as tecnologias. Nas palavras do autor:
Embora possamos pensar na tecnologia como uma ferramenta definida apenas por
preocupações pragmáticas e utilitárias, as motivações humanas em matéria de
tecnologia raramente são tão diretas. [...] tecnologias são moldadas e constrangidas
pela urdidura e trama da cultura, com seus próprios mitos, sonhos, crueldades e fome
(Davis, 1998, p. 10 tradução nossa).
Essa interdependência entre tecnologia e cultura é explicada por Davis (1998, p. 15-16,
48) através da antropologia da modernidade de Bruno Latour (1947-2022), apresentada em
“Jamais fomos modernos” (2019), que considera que o humano pré-moderno sempre esteve
imerso numa teia coletiva que interlaçava matéria e mente, onde natureza e cultura não
separavam de modo algum, ou seja, não era dualista. Para Latour, “[...] essa matriz é composta
de ‘híbridos’ – ‘coisas falantes’ que são naturais e culturais, reais e imaginadas, sujeito e objeto”
(Davis, 1998, p. 10-11, tradução nossa). Entretanto, Davis (1998, p. 15-16, 48, 52) salienta que
não pensamos dessa maneira atualmente porque erguemos uma grande barreira conceitual –
Latour a chama de “A Grande Divisão” – que separa natureza e cultura, e que tem suas bases
no Iluminismo e no pensamento mecanicista de Descartes.
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De um lado da Grande Divisão está a natureza, um mundo sem voz e puramente
objetivo “lá fora”, cujos mecanismos ocultos são desbloqueados por cavalheiros
científicos que usam instrumentos técnicos para amplificar suas percepções. A cultura
humana está do outro lado da cerca, “aqui”, um mundo auto-reflexivo de histórias,
assuntos e lutas de poder que se desenvolvem livres das limitações míticas da
natureza. A Grande Divisão desencanta assim o mundo, entronizando o homem como
o único agente ativo do cosmos. Dentro do paradigma da Grande Divisão, a tecnologia
é simplesmente uma ferramenta, uma extensão passiva do homem. Não tem
autonomia própria; ela simplesmente age sobre, mas não muda o mundo da natureza
(Davis, 1998, p. 11, tradução nossa).
Nesse sentido, Davis concorda com Latour (2019) e argumenta que, na modernidade,
utilizamos o truque conceitual da Grande Divisão para negar a existência “[...] dos híbridos,
aqueles “sujeitos/objetos” que atravessam as fronteiras entre natureza e cultura, agência e
matéria-prima” (Davis, 1998, p. 11, tradução nossa), com a finalidade de libertar o Ocidente
dos efeitos sistêmicos que a criação e aceitação desses híbridos poderia propagar por toda a
sociedade. Entretanto, “[...] ao negar os híbridos, a Europa moderna paradoxalmente acabou
LOGEION: Filosofia da informação, Rio de Janeiro, v. 13, n. 1, p. 1-20, e-7892, jul./dez. 2026.