VÍNCULO HUMANO
a
unidade mínima da vida civilizatória
Maria Cristiane Barbosa Galvão
1
1
Professora da Universidade de São Paulo (USP) e Cientista da Informação. Coordena o Grupo CONFLUENCIA,
vinculado ao Instituto de Estudos Avançados da USP, com foco em tecnologia e informação em saúde para
populações vulneráveis. Lidera também o Global Dig
ital Lab:
our lab is here!
e o CBRIS
–
Centro Brasileiro de
Referência em Informação em Saúde. ORCID: https://orcid.org/0000
-
0003
-
3971
-
5743
Universidade de São Paulo
mgalvao@usp.br
______________________________
Resumo
Partindo
de
uma
leitura
de
mundo
sobre
a
fragilidade
contemporânea
dos
vínculos
humanos
em
contextos
atravessados pelos meios de comunicação, pelos impactos climáticos sobre a vida humana e por situações de
violência, objetiva
-
se estudar o termo, o conceit
o, o contexto e as dimensões de intensão e extensão relacionados
ao objeto vínculo humano no subdomínio da Saúde Coletiva, em diálogo com a Teoria Geral da Terminologia e
com princípios de construção de vocabulários especializados, representação e organiza
ção da informação. Para
tanto, emprega
-
se a abordagem de pesquisa qualitativa, teórico
-
reflexiva e conceitual. O principal resultado é a
proposição do vínculo humano como unidade mínima da vida civilizatória, formada por relações interpessoais
qualificadas
nas
quais se
estabelecem
reconhecimento
mútuo,
responsabilidade
recíproca,
ética
do
cuidado
e
sentido compartilhado para a vida em comum. O vínculo humano implica o reconhecimento do outro como sujeito
singular, dotado de historicidade e dignidade, não se
reduzindo ao afeto, à frequência de contato, à proximidade
física, à interação funcional, à troca instrumental, a laços familiares, profissionais ou institucionais, nem a formas
fechadas ou assimétricas de pertencimento, embora tais elementos possam coexi
stir com o vínculo. Ao delimitar
o vínculo humano como unidade analítica relacional e categoria ainda não estabilizada nos Descritores em Ciências
da Saúde (DeCS) como descritor integrador, o estudo oferece um referencial para compreender processos de eros
ão
e recomposição das relações humanas, reafirmando a centralidade da convivência, do cuidado e da escuta como
fundamentos
civilizatórios
da
produção
da
saúde,
especialmente
em
contextos
de
mediação
tecnológica
e
inteligência artificial.
Palavras
-
chave:
vínculo
humano,
saúde
coletiva,
conceito,
representação
da
informação,
organização
da
informação.
HUMAN BOND
t
he minimum unit of civilizational life
Abstract
Starting from a reading of the world concerning the contemporary fragility of human bonds in
contexts traversed
by mass media, by climate impacts on human life, and by situations of violence, this study aims to examine the
term, concept, context, and dimensions of intension and extension related to the object human bond within the
subdomain
of
Pub
lic
Health,
in
dialogue
with
the
General
Theory
of
Terminology
and
with
principles
for
constructing specialized vocabularies, information representation, and information organization. To this end, a
qualitative, theoretical
-
reflexive, and conceptual
research approach is employed. The main result is the proposition
of the human bond as the minimum unit of civilizational life, formed by qualified interpersonal relations in which
mutual
recognition,
reciprocal
responsibility,
an
ethics
of
care,
and
share
d
meaning
for
life
in
common
are
established. The human bond implies recognition of the other as a singular subject, endowed with historicity and
dignity,
and
is
not
reduced
to
affection,
frequency
of
contact,
physical
proximity,
functional
interaction
,
instrumental
exchange,
familial,
professional,
or
institutional
ties,
nor
to
closed
or
asymmetrical
forms
of
belonging, although such elements may coexist with the bond. By delimiting the human bond as a relational
analytical unit and as a category not y
et stabilized in the Health Sciences Descriptors (DeCS) as an integrative
descriptor, the study offers a framework for understanding processes of erosion and recomposition of human
relations,
reaffirming
the
centrality
of
coexistence,
care,
and
listening
as
civilizational
foundations
of
health
production, especially in contemporary contexts of technological mediation and artificial intelligence.
ARTIGO
DOI: https://doi.org/10.21728/logeion.2026v13n1e-7987
Data de submissão: 06/07/2026 Data de aprovação: 17/09/2026 Data de publicação: 17/09/2026
Esta obra está licenciada sob uma licença
Creative Commons Attribution 4.0 International (CC BY-NC-SA 4.0)
.
LOGEION: Filosofia da informação, Rio de Janeiro, v. 13, n. 1, p. 1-25, e-7987, jul./dez. 2026.
Keywords:
human bond; public health; concept; information representation; information organization.
VÍNCULO HUMANO
La unidad mínima de la vida civilizatoria
Resumen
Considerando la fragilidad contemporánea de los vínculos humanos en contextos atravesados por los medios de
comunicación, el cambio climático y situaciones de violencia, este estudio examina el
término, el concepto, el
contexto y las dimensiones de intensión y extensión relacionadas con el objeto vínculo humano en el subdominio
de la Salud Colectiva, en diálogo con la Teoría General de la Terminología y con principios de construcción de
vocabula
rios especializados, representación y organización de la información. Para ello, se emplea un enfoque
cualitativo, teórico
-
reflexivo y conceptual. El principal resultado es la proposición del vínculo humano como
unidad mínima de la vida civilizatoria
, formada por relaciones interpersonales cualificadas en las que se establecen
reconocimiento mutuo, responsabilidad recíproca, ética del cuidado y sentido compartido para la vida en común.
El vínculo humano implica el reconocimiento del otro como sujeto s
ingular, dotado de historicidad y dignidad, y
no se reduce al afecto, a la frecuencia de contacto, a la proximidad física, a la interacción funcional, al intercambio
instrumental,
a
los
lazos
familiares,
profesionales
o
institucionales,
ni
a
formas
cerradas
o
asimétricas
de
pertenencia, aunque tales elementos puedan coexistir con el vínculo. Al delimitar el vínculo humano como unidad
analítica relacional y categoría aún no estabilizada en los Descriptores en Ciencias de la Salud (DeCS) como
descriptor integrador, el estudio ofrece un marco para comprender procesos de erosión y recomposición de las
relaciones humanas, reafirmando la centralidad de la convivencia, del cuidado y de la escucha, especialmente en
contextos de mediación
tecnológica e inteligencia artificial.
Palabras clave:
vínculo humano; salud colectiva; concepto; representación de la información; organización de la
información.
ARTIGO
LOGEION: Filosofia da informação, Rio de Janeiro, v. 13, n. 1, p. 1-25, e-7987, jul./dez. 2026.
2
1
INTRODUÇÃO
Partindo de uma leitura de mundo
(Freire, 1981),
este estudo reconhece que
a vida
contemporânea tem sido atravessada por múltiplas situações nas quais os vínculos humanos se
fragilizam, se rompem ou se tornam eticamente opacos, produzindo sofrimento e diluição da
responsabilidade ética.
No plano das relações entre pessoas, essas rupturas tornam
-
se visíveis em fenômenos
como operações policiais em territórios vulnerabilizados, conflitos urbanos, disputas associadas
ao tráfico de drogas e à ocupação desigual dos espaços das cidades, nos qua
is crianças, jovens,
mulheres e trabalhadores são expostos cotidianamente à violência, ao sofrimento e à morte
(Mbembe
,
2016;
Kaminski,
2025).
Tais
cenas
são
frequentemente
registradas
por
câmeras
portáteis,
celulares,
drones
e
helicópteros,
amplamente
difundidas
nas
plataformas
digitais,
compartilhadas de forma massiva e, não raro, rapidamente esquecidas, sem que se prod
uza
reflexão social consistente ou elaboração ética coletiva (Egbuna et al., 2024; Barreto, 2012;
Varma, 2025).
Situação semelhante pode ser observada em contextos de guerra e de conflitos armados,
nos
quais
a
violência
extrema
entre
seres
humanos
passa
a
ser
mediada
por
dispositivos
técnicos, sistemas de vigilância e estratégias comunicacionais que, ao mesmo tempo
em que
ampliam a visibilidade dos acontecimentos, tendem a reduzir a singularidade das vidas afetadas
e a naturalizar o sofrimento humano (Egbuna
et al., 2024; Barreto, 2012). A circulação contínua
dessas imagens e narrativas, desacompanhada de espaços institucionais de escuta e reflexão
(Barreto, 2012; Varma, 2025; Riddle; Martins, 2022) contribui para a banalização da ruptura
dos vínculos humanos
.
As fragilizações dos vínculos também se expressam na relação entre seres humanos e
natureza. Eventos climáticos extremos, como enchentes, deslizamentos e incêndios de grandes
proporções,
têm
destruído
cidades
inteiras,
deslocado
populações,
rompido
redes
d
e
convivência
e
comprometido
condições
básicas
de
sobrevivência
(Marengo
et
al.,
2024).
Embora
os
impactos
desses
eventos
sobre
a
saúde,
o
território
e
a
vida
cotidiana
sejam
amplamente documentados (Marengo, 2024; Araújo; Costa; Gonçalves, 2022), muitos s
etores
sociais
ainda
os
tratam
como
acontecimentos
excepcionais,
desconsiderando
seu
caráter
recorrente
e
suas
implicações
éticas
e
coletivas,
especialmente
para
as
populações
mais
vulneráveis.
No âmbito institucional, os vínculos humanos
manifestam
-
se de forma sensível nas
instituições responsáveis pelo cuidado (Organização Mundial da Saúde, 1978), pela formação
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LOGEION: Filosofia da informação, Rio de Janeiro, v. 13, n. 1, p. 1-25, e-7987, jul./dez. 2026.
3
e
pela
transmissão
intergeracional
de
saberes.
Em
serviços
de
saúde
nos
quais
pacientes
enfrentam longas esperas, os atendimentos são acelerados, fragmentados, descontinuados e há
dificuldades
de
acesso,
certamente
a
confiança,
o
vínculo
e
o
respeito
mútuo
ficam
comprometidos.
Do
mesmo
modo,
em
instituições
educacionais,
a
excessiva
mediação
tecnológica
das
interações
em
sala
de
aula,
com
estudantes
frequentemente
absortos
em
dispositivos móveis, pode dificultar a presença,
a atenção compartilhada e a const
rução de
vínculos significativos (Yildirim; Yilmaz, 2025).
A
mediação
tecnológica,
por
sua
vez,
atravessa
todos
esses
contextos.
Sistemas
de
informação, plataformas digitais, algoritmos e interfaces organizam modos de ver, perceber,
decidir e agir, muitas vezes tornando opacos os processos institucionais, os agent
es envolvidos
e os efeitos humanos das decisões tomadas (Subasri et al., 2025; Huo et al., 2025; Bodner et al.,
2026).
Diante
do
conjunto
de
situações
empíricas
apresentado,
torna
-
se
evidente
que
as
rupturas dos vínculos humanos atravessam diferentes esferas da vida social contemporânea.
Considerando
esta
complexidade,
o
objetivo
deste
artigo
é
resgatar
aspectos
das
relaçõ
es
humanas vivenciadas em contextos históricos, comunicacionais e sociais contemporâneos, e
propor o conceito de vínculo humano no subdomínio terminológico da Saúde Coletiva. Tal
objetivo se justifica porque estudos anteriores esclarecem a necessidade de i
nvestimento no
estudo do termo
vínculo
, uma vez que ele aparece com frequência em pesquisas do campo da
Saúde Coletiva sem a devida conceituação, o que leva a dificuldades interpretativas
(Barbosa;
Bosi, 2017). Além disso, com a emergente digitalização dos sistemas de saúde (Almeida Filho,
2024), em que diversos agentes humanos permanecem invisibilizados ou apenas implicitamente
considerados,
torna
-
se
relevante
delimitar
conceitualmente
o
s
ignificado
do
termo
vínculo
humano para a sociedade e para a Saúde Coletiva.
2
METODOLOGIA
Pela
natureza
do
objetivo
proposto,
este
estudo
adotou
a
abordagem
de
pesquisa
qualitativa, teórica
-
reflexiva e conceitual, por permitir examinar processos históricos, culturais
e sociais complexos, sem a obrigatoriedade de coleta sistemática de dados empí
ricos (Minayo,
2004; Lim, 2025).
Para
a
construção
conceitual,
adotou
-
se
o
aporte
da
Teoria
Geral
da
Terminologia
(Cabré Castellví, 1999), segundo a qual é possível estabelecer, de modo sistemático, as relações
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entre termos, conceitos e objetos antes de sua estabilização no uso social, configurando um
procedimento prescritivo no sentido wüsteriano (Wüster, 1998).
Essa abordagem articula
-
se ao entendimento de que a ciência é constituída por sistemas
conceituais
(Galvão,
2004),
o
que
legitima
a
operação
terminológica
enquanto
método
adequado para proposição de constructos em
estágios iniciais. Também se articula com
os
princípios
da
terminologia
contemporânea
e
consolidados
nas
normas
internacionais
de
trabalho terminológico, permitindo a formulação de denominações e conceitos coerentes com
o
objeto
estudado
(Cabré
Castellví,
1999;
International
Organization
for
Standardization,
2022).
Nesse escopo, foram operacionalizadas ações intelectuais fundamentais: (a) delimitação
do domínio terminológico; (b) delimitação do contexto; (c) identificação do objeto (fenômeno)
a ser descrito, (d) formulação do termo que o designa e (e) formulação do c
onceito que o
representa, incluindo explicações abstratas (intensão) e exemplos trazidos da realidade empírica
(extensão).
Ressalta
-
se que, ao seguir a tradição clássica da Teoria Geral da Terminologia, o método
viabiliza a proposição primária de um objeto conceitual, de sua denominação e de seu conceito,
antes de sua estabilização no uso social. Nesse regime teórico
-
metodológ
ico, não se trata de
descrever ou sistematizar usos preexistentes, mas de instituir uma formulação conceitual, cuja
validação comunicacional e refinamento coletivo podem ocorrer posteriormente no domínio.
Assim, pelo caráter terminológico prescritivo do es
tudo atual, futuramente serão necessários
estudos
complementares
baseados
em
garantia
literária
e
garantia
de
uso
(Galvão,
2004;
International Organization for Standardization, 2022). A Figura 1 sistematiza os elementos
contempladas no estudo.
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5
Figura 1
-
Elementos terminológicos contemplados no estudo
Fonte: Elaboração própria (2026)
3
RESULTADOS
Os resultados foram divididos em: domínio terminológico, contexto terminológico e
proposição conceitual, incluindo a intensão e a extensão do conceito de vínculo humano.
3.1 O DOMÍNIO TERMINOLÓGICO E O OBJETO VÍNCULO HUMANO
Conceitos científicos não surgem e não se sustentam de forma isolada e sim se integram
em um sistema de conceitos em um dado domínio e contexto comunicativo, histórico e social
(Galvão, 2004; Galvão, 2020; Galvão et al., 2023).
Conforme observado na Figura 2, o presente estudo reconhece que o domínio da Saúde
compreende diferentes subdomínios, cada qual associado a linguagens de especialidade que
podem interagir entre si e mobilizar termos e conceitos relacionados ao objeto víncu
lo.
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6
Figura 2
-
Linguagens de especialidade no domínio da Saúde e a delimitação do subdomínio da Saúde Coletiva
Fonte: Elaboração própria (2026), criada a partir de Galvão et al. (2023).
Para justificar este estudo, realizou
-
se consulta aos Descritores em Ciências da Saúde
–
DeCS (BIREME, 2026), identificando termos e conceitos que mobilizam a noção de vínculo
ou de relação em diferentes subdomínios da Saúde. Conforme sistematizado no Quad
ro 1, tais
descritores
referem
-
se
predominantemente
a
relações
específicas
(familiares,
parentais,
profissionais, afetivas, sociais ou humano
-
animal) e não ao vínculo humano como categoria
situada no subdomínio da Saúde Coletiva.
Desse modo, a proposição aqui desenvolvida não pretende substituir esses usos, mas
delimitar um conceito integrador distinto, voltado à compreensão das condições de constituição,
erosão e recomposição das relações humanas no subdomínio da Saúde Coletivo. P
elo exposto,
o presente estudo não se filia aos subdomínios da Psicologia, da Psiquiatria ou da Biologia, nem
tem por objetivo formular teorias psicológicas, psiquiátricas, clínicas ou biológicas. O recorte
adotado situa
-
se na Saúde Coletiva, com ênfase na
dimensão coletiva e social.
ARTIGO
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7
Quadro 1
-
Termos e conceitos relacionados ao objeto vínculo em diferentes subdomínios da Saúde
|
Termo
|
Conceito
|
Subdomínio
|
|
Apego ao objeto
|
Vínculo afetivo, apego emocional a uma pessoa
ou objeto presente no ambiente
|
Psiquiatria e Psicologia
|
|
Integração social
|
Processo dinâmico e de princípios em que todos
os membros participam em diálogo para adquirir e
manter relações sociais pacíficas. Não inclui
assimilação coercitiva ou integração forçada.
|
Psiquiatria e Psicologia,
Assistência à Saúde
|
|
Interação do duplo
vínculo
|
Comunicação simultânea de mensagens
conflitantes, na qual a resposta a qualquer uma
das mensagens provoca rejeição ou desaprovação
|
Psiquiatria e Psicologia
|
|
Interação social
|
Processo que envolve resposta recíproca entre
dois ou mais indivíduos. Isso inclui o
desenvolvimento da cooperação e da competição,
a influência do status e dos papéis sociais e a
dinâmica do comportamento do grupo, liderança e
conformidade. A interação so
cial persistente entre
indivíduos específicos leva à formação de relações
sociais.
|
Psiquiatria e Psicologia
|
|
Ligação do par
|
Vínculo do casal, entendido como a relação social
estabelecida entre um macho e uma fêmea para a
reprodução. Pode também incluir a criação dos
filhotes.
|
Psiquiatria e Psicologia
|
|
Relação entre
irmãos
|
Interações e relacionamentos entre irmãos. O
conceito também se aplica ao estudo dos animais
|
Psiquiatria e Psicologia
|
|
Relação pai
-
filho
|
Interação entre o pai e os filhos.
|
Psiquiatria e Psicologia
|
|
Relações familiares
|
Relações comportamentais, psicológicas e sociais
entre os vários membros da família nuclear e da
família estendida.
|
Psiquiatria e Psicologia,
Antropologia,
Educação, Sociologia e
Fenômenos sociais,
Saúde Pública
|
|
Relações mãe
-
filho
|
Interação entre uma mãe e seu filho.
|
Psiquiatria e Psicologia
|
|
Relações Materno
-
Fetais
|
Vínculo ou ausência de vínculo entre pessoa
grávida e o feto.
|
Psiquiatria e Psicologia
|
|
Relações
profissional
-
família
|
As interações entre o profissional e a família.
|
Psiquiatria e Psicologia
|
|
Relações
profissional
-
paciente
|
Interações entre os funcionários da saúde e os
pacientes.
|
Psiquiatria e Psicologia
|
|
Vínculo humano
-
animal
|
Apego emocional dos indivíduos aos animais.
|
Psiquiatria e Psicologia
|
Fonte: Elaboração própria com dados coletados nos DeCS. (BIREME, 2026)
ARTIGO
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8
Epistemologicamente, o conceito de vínculo humano aqui proposto toma como ponto
de partida o uso do termo “vínculo” na atenção primária à saúde e na Saúde Coletiva, em que
ele costuma designar relações de confiança, continuidade, responsabilização, escuta
e cuidado
entre sujeitos, profissionais, serviços e territórios (Organização Mundial da Saúde, 1978; Buss;
Pellegrini Filho, 2007). Contudo, a proposição aqui desenvolvida amplia esse uso setorial e
assistencial,
compreendendo
o
vínculo
humano
como
uma
cat
egoria
relacional
mais
abrangente,
capaz
de
expressar
as
condições
éticas,
sociais
e
comunicacionais
que
tornam
possível a vida em comum. Desse modo, o vínculo humano é formulado como unidade mínima
da vida civilizatória.
O sistema de
conceitos relacionados ao vínculo humano aqui proposto abarca, pelo
menos,
quatro
dimensões
relacionais
e
mediadoras
que
incidem
sobre
suas
condições
de
constituição, erosão ou recomposição.
A primeira dimensão, denominada
ser humano
↔
ser humano,
abarca a relação entre
pessoas, na qual se constituem o reconhecimento mútuo, a linguagem, a ética do cuidado, sendo
fundamental
para
a
vida
social,
a
produção
de
sentido
compartilhado,
a
convivência,
a
cooperação
e
a
responsabilidade
coletiva.
Encontram
-
se
nesta
dimensão,
por
exemplo,
os
conflitos urbanos (Mbembe, 2016; Kaminski, 2025)
e as guerras.
A segunda dimensão, denominada
ser
humano
↔
natureza
, contempla a relação da vida
humana com os sistemas naturais, envolvendo o uso, o cuidado, a exploração, a preservação do
ambiente,
a
imponderabilidade
de
eventos
e
os
efeitos
diretos
sobre
saúde,
permanência
territorial e sobrevivência. Encontram
-
se nest
a dimensão, por exemplo, a relação humana com
os
eventos
climáticos
extremos
(Marengo,
2024)
e
desastres
ambientais
(Araújo;
Costa;
Gonçalves, 2022).
A terceira dimensão, denominada
ser humano
↔
instituição,
contempla a relação entre
indivíduos e instituições socialmente responsáveis pela prestação de serviços, como assistência
em
saúde,
formação
cognitiva,
ética
e
social,
nas
quais
se
estruturam
processos
comunicacionais, de aprendizagem e de transmissão int
ergeracional de saberes. Encontram
-
se
nesta
dimensão,
por
exemplo,
pacientes
em
atendimento
em
uma
unidade
básica
de
saúde
(Organização Mundial da Saúde, 1978) e estudantes universitários em salas de aula (Yildirim;
Yilmaz, 2025).
A
quarta
dimensão,
denominada
ser
humano
↔
tecnologia,
se
refere
à
mediação
exercida por meio de artefatos técnicos sobre os vínculos humanos, na medida em que passam
a
organizar
as
condições
de
presença,
percepção,
atenção,
afetividade,
temporalidade
e
ARTIGO
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9
responsabilidade
ética.
Especialmente,
neste
artigo,
será
considerada
a
tecnologia
da
informação e comunicação por sua importância relacional nos século XXI. Encontram
-
se nesta
dimensão os
chatbots
(Huo et al., 2025; Bodner
et al., 2026) disponibilizados para pacientes
nos serviços de saúde.
As
quatro
dimensões
coordenadas
entre
si
(isto
é,
sem
hierarquia
ontológica
entre
natureza, instituição e tecnologia), permitem sustentar a tese de que os vínculos humanos são
construídos, afetados e fragilizados em diferentes dimensões, podendo essas ser
simultâneas ou
não,
mas
igualmente
impactantes.
Ainda
assim,
a
relação
ser
humano
↔
ser
humano
é
a
dimensão fundamental do vínculo humano, atravessando e sendo atravessada pelas demais
dimensões, uma vez que toda ruptura ou recomposição em natureza, instit
uição e tecnologia
podem
expressar,
em
última
instância,
alteração
nas
condições
de
reconhecimento,
responsabilidade e cuidado entre pessoas. A Figura 3 sistematiza esta tese.
Figura 3
-
Sistema de conceitos relacionados a vínculo humano
Fonte: Elaboração própria (2026)
As
quatro
dimensões
nem
sempre
são
percebidas
no
cotidiano,
pois
muitas
vezes
operam sob um regime de múltipla cegueira, conforme apresentado na Figura 4. Conceitua
-
se,
ARTIGO
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10
neste trabalho, múltipla cegueira como o regime relacional no qual seres humanos participam
de
sistema
de
mediação
sem
se
reconhecerem
mutuamente,
ainda
que
suas
ações
estejam
diretamente
relacionadas.
Nesse
regime,
alguns
seres
humanos
criam
normas,
regra
s,
tecnologias,
instituições
e
intervenções
sobre
a
natureza
sem
acompanhar
ou
assumir
responsabilidade contínua pelos efeitos produzidos, enquanto outros seres humanos vivenciam
tais normas, tecnologias, instituições e intervenções sem acesso às decisões
que as estruturaram,
aos sujeitos que as conceberam, ou às possibilidades de questionamento e reciprocidade.
Figura 4
-
Múltipla cegueira na mediação entre seres humanos, natureza, instituições e tecnologia.
Fonte: Elaboração própria (2026)
A
múltipla
cegueira
não
decorre
da
ausência
de
informação,
mas
da
fragmentação
produzida pelas mediações institucionais, tecnológicas e naturais, que se interpõem entre os
seres humanos e impedem a configuração do vínculo humano, a imputação ética direta e
o
reconhecimento recíproco. Assim, mesmo quando inseridos no mesmo campo de ação, os seres
humanos
envolvidos
operam
em
posições
de
cegueira
distintas,
sustentadas
por
interfaces
síncronas
ou
assíncronas,
transversais
ou
longitudinais,
que
ocultam
a
cadei
a
humana
de
decisões, responsabilidades e efeitos.
A múltipla cegueira pode ser observada em fenômenos empíricos como a mediação
tecnológica de conflitos urbanos, de catástrofes climáticas, interações em sala de aula (Yildirim;
ARTIGO
LOGEION: Filosofia da informação, Rio de Janeiro, v. 13, n. 1, p. 1-25, e-7987, jul./dez. 2026.
11
Yilmaz, 2025) e em
chatbots
para assistência em saúde (Huo et al., 2025; Bodner et al., 2026),
onde a opacidade estrutural afeta o vínculo humano.
3.2 O CONTEXTO TERMINOLÓGICO PARA A CONFIGURAÇÃO DO OBJETO
A
partir
da
delimitação
terminológica
realizada
anteriormente,
foram
organizados
contextos
comunicativos,
históricos
e
sociais
dos
séculos
XX
e
XXI
como
cenário
para
a
configuração do conceito de
vínculo humano
a ser proposto. São eles: contextos pandêmicos
(
ser humano
↔
natureza)
, contextos de guerras mundiais (
ser humano
↔
ser humano
e
ser
humano
↔
instituição)
e o advento da Sociedade da Informação (
ser humano
↔
tecnologia).
Tais contextos não devem ser compreendidos como exaustivos e sim como contextos
suficientes para explicitação conceitual. Logo, o estudo não se propõe a resgatar a história da
humanidade em completude nem oferecer uma análise historiográfica sistemática do
s eventos
mencionados.
Trata
-
se
de
uma
seleção
analítica
e
intencional
de
contextos
emblemáticos,
escolhidos
por
sua
relevância
para
a
compreensão
dos
processos
de
construção,
erosão
e
recomposição dos vínculos humanos. Pesquisas futuras poderão explorar o
conceito de vínculo
humano aqui proposto em outros contextos relevantes.
Adicionalmente, não se estabelece aqui uma relação causal linear ou determinista entre
os eventos históricos mencionados e a fragilização dos vínculos humanos, mas a identificação
de padrões recorrentes de ruptura relacional que atravessam diferentes conte
xtos históricos.
A contextualização do conceito, para fins de explicitação conceitual, se inicia com a
análise da Primeira Guerra Mundial, quando a violência em escala industrial desagregou laços
comunitários e abalou profundamente as estruturas sociais. Estudos históricos
mostram que os
custos sociais da guerra foram vastos e multifacetados: a morte massiva de soldados jovens
alterou a composição demográfica, fragmentou famílias e deixou comunidades inteiras com
déficits
de
apoio
e
proteção;
deslocamentos
populacionais
for
am
intensificados,
fome,
desabastecimento e colapso de serviços essenciais criaram níveis inéditos de vulnerabilidade; e
as experiências prolongadas de insegurança, perda e privação produziram formas de sofrimento
social que ultrapassaram o campo de batalh
a e se instalaram na vida cotidiana. A guerra afetou
não
apenas
indivíduos,
mas
todo
o
tecido
social,
corroendo
mecanismos
de
solidariedade,
interrompendo trajetórias de vida e instaurando um quadro de desordem social cujos efeitos
reverberaram nas décadas
seguintes
(Redding, 2015), sobretudo na dimensão ser humano
↔
ser humano.
ARTIGO
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12
O
trauma
da
guerra
não
encontrou
tempo
para
ser
processado
porque
o
mundo
foi
atingido
pela
pandemia
de
Gripe
Espanhola,
que
matou
mais
de
50
milhões
de
pessoas
e
infectou
mais
de
500
milhões,
alcançando
proporções
globais
sem
precedentes.
Nos
acampamentos
militares e trincheiras da Primeira Guerra Mundial, a doença atingiu milhões de
soldados, causando a morte de cerca de 100 mil combatentes, embora seu impacto direto no
curso
da
guerra
permaneça
incerto.
A
pandemia
impôs
distanciamento
social,
isolamento
extremo e a perda de rituais essenciais como funerais, despedidas e celebrações coletivas. Pela
segunda vez em poucos anos, o vínculo humano foi brutalmente interrompido.
Sem
cura
disponível,
restavam
apenas
tratamentos
sintomáticos
e
remédios
improvisados, enquanto o retorno de soldados, o deslocamento de refugiados e a mobilidade de
mulheres em atividades diversas aceleravam a disseminação da pandemia. A partir de agosto
de 1918, medidas preventivas passaram a incluir notificação compulsória de casos suspeitos,
vigilância
em
escolas
e
quartéis
,
fechamento
de
locais
de
reunião,
limitação
de
encontros
religiosos, práticas extensivas de desinfecção urbana, proibição de aglomerações e de cuspir
nas ruas, distribuição gratuita de sabão e reorganização dos sistemas funerários. A vigilância
epidemioló
gica, o isolamento e a quarentena tornaram
-
se os únicos instrumentos eficazes diante
da ausência de vacinas ou antivirais disponíveis
(Martini, 2019), afetando não apenas a relação
ser humano
↔
ser humano, mas também a relação ser humano
↔
natureza, evidenciando a
dimensão imponderável dos eventos naturais na vida social.
Depois desses dois traumas consecutivos, as políticas de reaproximação humana foram
frágeis. A humanidade aprendeu a se distanciar, mas não desenvolveu de forma sistemática,
instrumentos duradouros de recomposição relacional. Foi nesse vazio relacional que
podem ter
se configurado condições favoráveis para a emergência de movimentos extremistas, observados
em
diferentes
contextos
do
século
XX.
Entre
as
décadas
de
1920
e
1930,
populações
traumatizadas, desenraizadas e sem redes comunitárias tornaram
-
se espec
ialmente vulneráveis
a
discursos
autoritários,
nacionalistas
e
violentos.
Evidências
históricas
mostram
que,
em
regiões mais profundamente
afetadas pela guerra e pela
instabilidade social do pós
-
guerra,
movimentos totalitários encontraram terreno fértil pa
ra se consolidar. Na Itália, por exemplo, o
fascismo se fortaleceu em áreas onde a mobilização militar e as perdas humanas haviam sido
mais intensas, revelando uma potencial relação entre ruptura de vínculos sociais e adesão a
projetos autoritários (Acemog
lu et al., 2020) os quais, no período entreguerras, passaram a
mobilizar de forma mais sistemática tecnologias de mediação do vínculo humano disponíveis
à época, como a propaganda de massa veiculada pelo rádio.
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Em seguida, a Segunda Guerra Mundial, o Holocausto (Landry; Orr; Mere
, 2022) e os
bombardeios em Hiroshima e Nagasaki representaram o ápice da desumanização, com milhões
de mortos e comunidades inteiras destruídas. A ruptura do vínculo humano atingiu seu ponto
mais extremo tanto para aqueles que viveram aquele momento como
para as gerações seguintes,
influenciando profundamente modos de ser, sentir e interpretar o mundo a partir do trauma (Nir,
2018). Para além de seus efeitos demográficos e psicossociais,
esse período evidencia uma
inflexão crítica na relação ser humano
↔
instituição, pois as estruturas estatais, científicas,
jurídicas e administrativas passaram a operar não prioritariamente para a proteção da vida, mas
para a organização racional, técnica e legitimada da morte em escala ampliada.
Mesmo
após
o
fim
da
Segunda
Guerra,
a
reconstrução
social
concentrou
-
se
predominantemente em infraestrutura, economia e geopolítica, mas a recomposição do vínculo
humano
como
política
explícita
e
mensurável
permaneceu
secundária.
A
Guerra
Fria
deu
continui
dade
a
essa
lógica,
reverberando
o
medo,
o
inimigo,
a
vigilância
institucional
e
a
rivalidade permanente entre o eu e o outro. Assim, admite
-
se que ocorreram rupturas profundas
em comunidades e sociedades que ultrapassam em muito a dimensão política de for
ças opostas
entre Estados Unidos da América e União Soviética (Schlesinger Junior, 1967).
Depois da Guerra Fria, a globalização anunciou um mundo interconectado, colaborativo
e
prometeu
proximidade,
mas
essa
interconexão
foi
predominantemente
tecnológica,
dissolvendo
laços
locais,
enfraquecendo
comunidades,
fragmentando
relações,
produzindo
dis
tâncias emocionais crescentes e transformando pertencimento em mobilidade, vizinhança
em fluxo e memória em obsolescência. As pessoas foram inseridas em regimes de mediação
tecnológica antes da consolidação de processos sociais de recomposição dos vínculos
humanos,
resultando em uma universalização relacional potencialmente desumanizada.
Observa
-
se,
assim,
na
globalização
a
continuação
da
erosão
dos
vínculos
humanos,
culminando na criação de uma Sociedade da Informação, projetada enquanto infraestrutura para
intercâmbio de dados, interconexão de sistemas e disponibilização de conteúdos
(Takahashi,
2000), mas caracterizada pelo regime de múltipla cegueira. Tal abordagem faz sentido histórico
porque
tais
tecnologias
de
conexão
foram
desenvolvidas,
especialmente,
por
agências
governamentais com foco em projetos bélicos internacionais que nã
o tinham por objetivo inicial
criar vínculo ou consciência ou convivência, mas prover infraestrutura para fluxo de dados e
mensagens (Santos, 2023).
Foi nesse mundo hiperconectado
tecnologicamente e com fragilidades relacionais já em
curso que a pandemia de Covid
-
19
encontrou terreno fértil, trazendo
consequências para a
relação ser humano
↔
ser humano a partir da relação ser humano
↔
natureza. O distanciamento
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LOGEION: Filosofia da informação, Rio de Janeiro, v. 13, n. 1, p. 1-25, e-7987, jul./dez. 2026.
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social tornou
-
se novamente uma política global, interrompendo laços familiares, comunitários
e profissionais em larga escala e intensificando uma crise de vínculos humanos já observável
em diversos contextos.
Os efeitos psicossociais associados às medidas de
isolamento foram observados em
múltiplos contextos internacionais, revelando prejuízos importantes para a saúde mental e para
a percepção de bem
-
estar. As manifestações mais frequentes incluíram oscilações
de humor,
aumento da ansiedade, sentimentos de tensão, frustração, solidão, irritabilidade e distúrbios do
sono.
A
combinação
entre
o
prolongamento
do
distanciamento,
o
receio
de
infecção,
as
incertezas sobre a evolução da doença, a instabilidade econômica
e a falta de horizonte claro
funcionaram
como
catalisador
do
sofrimento
emocional,
intensificando
a
vulnerabilidade
psicológica da população (Rocha et al., 2021). Assim, a pandemia não apenas instaurou uma
emergência sanitária, mas reeditou, em escala glo
bal, a lógica de afastamento humano que
atravessa o século XX, agora potencializada por uma sociedade que se acostumou à mediação
tecnológica, mas não necessariamente à recomposição dos laços humanos.
Mas, assim como em 1918, a questão decisiva não foi o distanciamento em si, mas a
fragilidade
global
para
desenvolver
políticas
de
recomposição
do
vínculo
humano.
A
humanidade
foi
instruída
a
afastar
-
se
para
sobreviver,
mas
sem
orientação
sistemática
e
dur
adoura para reencontrar
-
se. Exatamente como no século XX, o vínculo humano foi rompido
e
permaneceu
rompido.
Foram
novamente
jogadas
para
debaixo
do
tapete
as
dimensões
antropológicas,
sociais,
psicológicas
e
subjetivas
da
humanidade,
pressupondo
que
a
hum
anidade saberia como recuperar o terreno perdido. Especialmente, não se deu a devida
atenção
aos
jovens
e
crianças
cujos
repertórios
relacionais
são
menores,
situação
que
veio
impactar drasticamente os processos pedagógicos
no contexto pós
-
pandêmico, onde
jovens
apresentam
dificuldade
de
se
desvincular
de
seus
celulares.
Em
vários
países,
também
se
apresentou uma crise na relação ser humano
↔
instituição, visto que não havia organização
necessária e suficiente para a proteção e continuidade de vidas.
Assim, a diferença decisiva entre as pandemias de 1918 e 2020 é que, no século XXI, a
tecnologia
não
apenas
acompanhou
o
processo
de
distanciamento,
mas
amplificou
estruturalmente as rupturas relacionais. Durante o isolamento, as grandes plataformas digita
is
expandiram de maneira inédita seu alcance econômico, político e subjetivo. O vazio emocional
e
comunitário
produzido
pelo
afastamento
físico
foi
rapidamente
ocupado
por
plataformas
digitais,
amplificadas
pelos
diferentes
usos
de
inteligências
artificiai
s,
que
passaram
a
desempenhar
papel
central
na
organização
da
experiência
humana
(Maschewski;
Nosthoff,
2022).
ARTIGO
LOGEION: Filosofia da informação, Rio de Janeiro, v. 13, n. 1, p. 1-25, e-7987, jul./dez. 2026.
15
Dos contextos históricos,
comunicacionais
e sociais selecionados, extraem
-
se traços
relacionais
que
permitem
identificar
padrões
recorrentes
de
ruptura,
enfraquecimento
ou
recomposição
do
vínculo
humano.
Esses
padrões
não
são
tratados
como
relações
causais
diretas, mas como regularidades analíticas para se embasar a construção conceitual.
3.3
A
PROPOSIÇÃO
DO
CONCEITO
DE
VÍNCULO
HUMANO:
INTENSÃO
E
EXTENSÃO
A
repetição
de
ciclos
históricos
recorrentes
de
rupturas
relacionais,
ausência
de
recomposição relacional, fragilização das instituições, aumento do medo, perda da confiança
social,
polarização
extrema,
agora
agravada
pela
velocidade
e
amplitude
das
tecnol
ogias
digitais
(Marques
et
al.,
2025),
reforça
a
leitura
de
que
a
fragilização
do
vínculo
humano
interfere de maneira estrutural no processo civilizatório.
O conceito de vínculo humano aqui proposto é apresentado como a unidade mínima da
vida
civilizatória,
formada
a
partir
de
relações
interpessoais
qualificadas,
nas
quais
se
estabelecem o reconhecimento mútuo, a responsabilidade recíproca, a ética do cuidado
e o
sentido compartilhado para a vida em comum. Trata
-
se de uma forma específica de relação ser
humano
↔
ser humano que não se reduz ao afeto, frequência de contato, proximidade física,
interação funcional, troca instrumental, laço familiar, profissional
ou institucional por si só, mas
implica, sim, a percepção do outro como sujeito singular, dotado de historicidade e dignidade.
Justifica
-
se o traço semântico de “unidade mínima” porque o vínculo humano sustenta
a possibilidade de convivência, cooperação, organização institucional, cuidado, transmissão
intergeracional, produção de sentido social, bem como ações coletivas, tecnologi
as e políticas
orientadas à proteção da vida e à continuidade do processo civilizatório.
O vínculo humano pode ser construído e sustentado em espaços privados (casa, família),
em espaços coletivos humanizantes (vizinhança, instituições de ensino e cultura, unidades de
saúde, centros de práticas esportivas e de encontros sociais) ou em espaços
assíncronos de
convivência
humano
-
humano
(como
mensagens
trocadas
por
carta
ou
email,
exposições
e
arquivos históricos).
Cabe
destacar
que,
ao
contrário
da
lógica
tecnocrática
que
apresenta
espaços
humanizantes
como
despesas
sociais
desnecessárias
ou
estruturas
secundárias,
é
preciso
reconhecer que há espaços civilizatórios, de pertencimento, de reconhecimento, de memória e
de reciprocidade, ou seja, que fundamentam a vida social. É neles que se experimenta a presença
ARTIGO
LOGEION: Filosofia da informação, Rio de Janeiro, v. 13, n. 1, p. 1-25, e-7987, jul./dez. 2026.
16
do outro, que diferenças são acomodadas, que gerações se encontram, que a palavra circula e
que as comunidades reafirmam sua existência coletiva.
No que se refere ao campo da saúde, é importante destacar a unidade de atenção básica,
primária e comunitária como um dos espaços de construção do vínculo humano. Como é bem
apresentado
na
Classificação
Internacional
da
Atenção
Primária
(World
Organization
of
National Colleges, 2009), o motivo da consulta nunca foi apenas um sintoma relacionado à
doença, mas uma série de inquietações humanas que vão desde a gestão do luto até relações
interpessoais e convívio social. Neste sentido, destaca
-
se que a unidade
de saúde tem como
potencial humanizante ser espaço de escuta, de presença, de olhar, de toque, de atenção, de
confiança
construída
ao
longo
do
tempo,
elementos
estes
que
não
podem
ser
delegados
à
interface digital desenhada nos moldes da múltipla cegueira.
Modelos exclusivamente remotos
de assistência podem ampliar acesso em situações
esporádicas ou
em
momentos sanitários
críticos, mas não devem ser vistos como solução permanente, pois não substituem a densidade
relacional que caracteriza o cuidado, a escut
a e a convivência presencial. Preservar a atenção
em saúde como espaço de vínculo humano é reconhecer que o cuidado é, antes de tudo, uma
experiência relacional ser humano
↔
ser humano e não ser humano
↔
tecnologia.
Adicionalmente, observa
-
se que os espaços de convivência como as unidades de atenção
básica operam também como infraestruturas cognitivas e relacionais que tornam a informação
em saúde traduzível, assimilável, compreensível e capaz de orientar a ação dos i
ndivíduos,
família e comunidades do território, reforçando o traço semântico de
sentido compartilhado
para a vida em comum
presente no conceito de vínculo humano.
O
vínculo
humano
não
depende
da
intensidade,
da
frequência
ou
da
quantidade
de
interações,
mas
da
qualidade
da
relação
estabelecida.
Uma
conceituação
por
extensão
(International Organization for Standardization
, 2022) do vínculo humano aqui discutido pode
ser observada em um ser humano que se lança nas águas das enchentes para salvar o outro ser
humano que pede ajuda em processo de afogamento, sem conhecimento, relações de afeto ou
convivência prévia, mas que se
sente responsável pelo outro até que, pelo menos, ocorra a
restauração
do
bem
-
estar.
O
que
torna
este
vínculo
possível
é
a
ética
do
cuidado
e
a
responsabilidade mútua.
A Figura 5 faz uma síntese de vínculo humano. O objeto é representado por duas formas
geométricas distintas, quais sejam, um pentágono preenchido com padrão linear e um hexágono
preenchido com padrão pontilhado, conectadas por um traço contínuo. As formas
diferentes
indicam seres humanos singulares, dotados de historicidade e dignidade. A escolha de figuras
ARTIGO
LOGEION: Filosofia da informação, Rio de Janeiro, v. 13, n. 1, p. 1-25, e-7987, jul./dez. 2026.
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não
canônicas
e
de
preenchimentos
diferenciados
impede
associações
com
convenções
biomédicas ou genéticas consolidadas, preservando a unicidade conceitual da representação.
Figura 5
-
Vínculo humano: subdomínio, contexto, objeto, termo e conceito
Fonte: Elaboração própria (2026)
É preciso destacar que o vínculo humano pode ser fragilizado ou interrompido quando
relações
humanas
são
sistematicamente
substituídas
por
regimes
de
múltipla
cegueira,
mediação
técnica,
organizacional
ou
burocrática
que
reduzem
pessoas
a
funções,
identifi
cadores, procedimentos ou dados, dissolvendo a responsabilidade ética e impedindo a
configuração relacional. O vínculo humano também é corrompido ou não se desenvolve quando
há ausência de convivência mínima e o apagamento do outro
-
humano, como em tensões
sociais
(guerras)
e
conflitos
urbanos,
tensões
ecológicas
imponderáveis
(pandemias
e
catástrofes
climáticas
não
adequadamente
manejadas)
e
tensões
institucionais
(indústria,
empresas
e
instituições de ensino e pesquisa voltadas para a indústria bélica).
Logo, para fins de consistência conceitual, o termo “
erosão do vínculo humano
” pode
ser entendido como o mecanismo relacional observável onde ocorre, por exemplo, a redução
do outro a categoria, função, dado ou inimigo; enfraquecimento de práticas de reconhecimento
mútuo e responsabilização recíproca; substituição persistente de me
diações humano
–
humano
por
regimes
técnico
-
organizacionais
opacos
via
regime
de
múltipla
cegueira;
e
a
perda
da
confiança e da cooperação. Já o termo “
recomposição do vínculo humano
” pode ser entendido
ARTIGO
LOGEION: Filosofia da informação, Rio de Janeiro, v. 13, n. 1, p. 1-25, e-7987, jul./dez. 2026.
18
como o mecanismo relacional observável pelo qual, após processos de erosão, restabelecem
-
se
condições mínimas de reconhecimento mútuo, responsabilização recíproca e ética do cuidado
entre seres humanos, permitindo a reconstrução da confiança, cooperação e
vida em comum,
mesmo havendo contextos prévios de ruptura, assimetria ou dano. O Quadro 2 apresenta, por
extensão, exemplos onde o vínculo humano pode sofrer erosão e ou passar por recomposição.
Quadro 2
-
Exemplos empíricos de erosão e recomposição do vínculo humano no contexto da Saúde Coletiva
|
Dimensão
|
Exemplos de erosão do vínculo humano
|
Exemplos de recomposição do
vínculo humano
|
|
Ser humano
↔
ser
humano
|
Ações policiais violentas televisionadas
em tempo real, bem como guerras e
invasões militares em diferentes contextos
históricos e geopolíticos, nas quais
populações civis são expostas
sistematicamente à morte, ao
deslocamento forçado, à destruição de
terr
itórios e à desumanização do outro.
|
Ações de assistência em saúde que
reconhecem contextos de vida, redes
comunitárias e trajetórias singulares,
promovendo escuta qualificada e a
constituição de redes de apoio
voltadas ao enfrentamento do
sofrimento individual e coletivo.
|
|
Ser humano
↔
natureza
|
Pandemias e eventos climáticos extremos
manejados exclusivamente por medidas
técnicas de isolamento, contenção ou
evacuação, sem estratégias estruturadas de
recomposição relacional, gerando solidão,
ruptura comunitária e sofrimento social
prolongado.
|
Práticas de cuidado que reconhecem
perdas, luto, medo e reorganizam a
vida coletiva no território. Vigilância
em saúde articulada à vigilância
ambiental e territorialização;
estratégias de adaptação climática
com participação comunitária.
|
|
Ser humano
↔
instituição
|
Instituições de saúde organizadas por
metas produtivistas e fluxos mecanizados,
nos quais usuários são reduzidos a
números, fichas ou diagnósticos,
enfraquecendo a confiança e a
continuidade relacional.
|
Instituições que reconhecem pessoas
como indivíduos singulares e
preservam a continuidade da relação.
|
|
Ser humano
↔
tecnologia
|
Uso de
chatbots
, sistemas automatizados e
atendimentos remotos como substitutos
permanentes da escuta humana em
contextos de sofrimento, adoecimento ou
vulnerabilidade; mediação tecnológica
que reduz o sujeito a dados, fluxos ou
respostas padronizadas, fragilizando a
res
ponsabilidade ética.
|
Utilização de tecnologias digitais
como suporte ao cuidado, mantendo
o atendimento humano sempre que
possível; uso de tecnologias em
situações extremas ou
complementares, sem substituição da
mediação humana.
|
Fonte: Autoria própria (2026)
ARTIGO
LOGEION: Filosofia da informação, Rio de Janeiro, v. 13, n. 1, p. 1-25, e-7987, jul./dez. 2026.
19
4
CONCLUSÃO
Este
estudo
propôs
o
conceito
de
vínculo
humano
como
unidade
mínima
da
vida
civilizatória, no subdomínio da Saúde Coletiva, a partir de uma abordagem terminológica e
conceitual fundamentada na Teoria Geral da Terminologia. Ao resgatar contextos históricos,
comunicacionais e sociais dos séculos XX e XXI, buscou
-
se evidenciar padrões recorrentes de
construção, erosão
e recomposição das relações humanas, sem estabelecer relações causais
lineares, mas identificando regularidades analíticas relevantes para a for
mulação conceitual.
A proposição do vínculo humano como unidade mínima da vida civilizatória permite
compreender
que
a
vida
em
comum
não
se
sustenta
exclusivamente
por
estruturas
institucionais, dispositivos técnicos ou fluxos informacionais, mas por relações interpessoais
qu
alificadas que produzem reconhecimento, cuidado e responsabilidade ética. Na ausência do
vínculo
humano,
enfraquecem
-
se
a
confiança
social,
a
cooperação,
a
transmissão
intergeracional
e
a
legitimidade
das
instituições,
comprometendo
a
própria
continuidade
civilizatória.
No campo da Saúde Coletiva, essa perspectiva amplia o entendimento do vínculo para
além de sua função instrumental no cuidado, reposicionando
-
o como fundamento relacional da
produção de saúde e da organização dos sistemas sanitários. Tal abordagem é partic
ularmente
relevante em um contexto de crescente digitalização dos sistemas de saúde, no qual tecnologias
de informação e comunicação tendem a mediar, reorganizar e, por vezes, obscurecer as relações
humanas.
Do
ponto
de
vista
da
representação
e
da
organização
da
informação,
a
análise
terminológica realizada evidenciou que o termo vínculo humano não se encontra estabilizado
nos DeCS
no subdomínio da Saúde Coletiva, nem aparece como termo integrador capaz de
articular
os
diferentes
conceitos
relacionados
ao
termo
vínculo
atualmente
distribuídos
em
outros
subdomínios
da
Saúde.
Na
era
da
inteligência
artificial,
essa
lacuna
adquire
maio
r
relevância,
pois
vocabulários
especializados
e
sistemas
de
organização
do
conhecimento
orientam processos de indexação, recuperação,
interoperabilidade, recomendação
e geração
automatizada de informações em saúde. Nesse sentido, a formulação conceitu
al aqui proposta
pode subsidiar futura avaliação terminológica dos DeCS, especialmente quanto à pertinência
de inclusão de vínculo humano como descritor candidato ou conceito integrador, condicionada
a estudos posteriores de garantia literária e garantia d
e uso.
Como
limitação,
reconhece
-
se
que
o
presente
estudo
se
justifica
pelo
seu
caráter
terminológico prescritivo
-
wüsteriano. Estudos futuros são necessários para explorar a garantia
ARTIGO
LOGEION: Filosofia da informação, Rio de Janeiro, v. 13, n. 1, p. 1-25, e-7987, jul./dez. 2026.
20
literária e a garantia de uso do conceito, bem como para investigar suas aplicações empíricas
em diferentes contextos sociais, institucionais e tecnológicos.
Ainda assim, ao oferecer um referencial conceitual inicial, este trabalho contribui para
o debate teórico na Saúde Coletiva e em áreas afins, reafirmando a centralidade do vínculo
humano como fundamento ético, relacional e civilizatório da vida em comum.
5
FINANCIAMENTO
A autora agradece ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico
(CNPq),
processos
406079/2023
-
4
Grupos
Emergentes
e
309698/2025
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1
Produtividade
em
Pesquisa.
ARTIGO
LOGEION: Filosofia da informação, Rio de Janeiro, v. 13, n. 1, p. 1-25, e-7987, jul./dez. 2026.
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