SOCIOLOGIA DA CIÊNCIA
revisão teórica como aporte para pesquisas em Ciência da Informação
Isadora Victorino Evangelista Geroto
1
1
Bibliotecária do Sistema Integrado de Bibliotecas da Universidade Federal de São Carlos. Doutora e mestre pelo
Programa de Pós
-
graduação em Ciência da Informação da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita
Filho (UNESP)
Universidade Federal de Rondônia
isadora.geroto@unir.br
José Augusto Chaves Guimarães
2
2
Professor Senior e docente permanente do Programa de Pós
-
Graduação em Ciência da Informação da Unesp,
com graduação em Biblioteconomia e Direito, mestrado e doutorado em Ciências da Comunicação e livre
-
docência em Análise Documentária.
Universidade Estadual Paulista
emailAutor1@dominio.com
______________________________
Resumo
Em Ciência da Informação, os estudos sobre Comunicação Científica possuem especial e crescente relevância na
medida em que subsidiam a
análise do
comportamento científico de diversos domínios e, como consequência,
trazem importantes subsídios à produção, à organização, à recuperação e à mediação da informação. Nesse sentido,
objetiva
-
se proceder a uma apresentação e análise de obras seminais no âmb
ito da Sociologia da Ciência, de modo
a
respaldar
teórica
e
metodologicamente
pesquisas
em
Ciência
da
Informação,
especialmente
aquelas
que
envolvem a análise de domínio a partir de seus aspectos bibliométricos enquanto método de pesquisa, como análise
de citação, cocitação e autoria. Para tanto, realizou
-
se um
levantamento das principais obras em Sociologia da
Ciência, a saber: Robert Merton
–
por meio da obra Ensaios de Sociologia da Ciência, em que estão reunidos
alguns de seus principais trabalhos, Bruno Latour e Stevie Woolgar
–
A vida no laboratório, Pierre Bourdieu
–
a
partir de seu livro Para uma Sociologia da Ciência e Thomas Kuhn, baseando
-
se em seu livro A estrutura das
revoluções científicas. Foi possível perceber que essa área de pesquisa possui algumas características
a serem
consideradas nas investigações, como a importância dos registros documentais, da análise dos campos de força e
capital e a percepção que a Ciência não é estática e se evolui diacronicamente.
Palavras
-
chave
: Sociologia da Ciência
;
Robert Merton; Pierre Bourdieu
;
Bruno Latour
;
Thomas Kuhn.
SOCIOLOGY OF SCIENCE
theoretical review as a contribution to Information Science research
Abstract
In Information Science, studies in scientific communications are widely used as a way to analyze the scientific
behavior of different domains. In this sense, the aim of this article is to present the main works in the field of
Sociology of Science, in order to theoretically and methodologically support research in Information Science,
especially those that involve domain analysis from its bibliometric aspects as a method of research, such as citation
analysis, cocitation and authorship. Therefore, a survey of the main works in the Sociology of Science was carried
out, namely: Robert Merton – through the work Essays on the Sociology of Science, in which some of his main
works are gathered, Bruno Latour and Stevie Woolgar – Life in the laboratory, Pierre Bourdieu – from his book
Towards a Sociology of Science and Thomas Kuhn, based on his book The structure of scientific revolutions. It
was possible to notice that this area of research has some characteristics to be considered in investigations, such
as the importance of documentary records, the analysis of fields of force and capital and the perception that Science
is not static and evolves diachronically.
Keywords
: Sociology of Science; Robert Merton; Bruno Latour; Pierre Bourdieu; Thomas Kuhn.
ARTIGO
DOI: https
://doi.org/10.21728/logeion.2026v13n1e-8040
Data de submissão: 11/09/2026 Data de aprovação: 02/11/2026 Data de publicação: 04/11/2026
Esta obra está licenciada sob uma licença
Creative Commons Attribution 4.0 International (CC BY-NC-SA 4.0)
.
LOGEION: Filosofia da informação, Rio de Janeiro, v. 13, n. 1, p. 1-23, e-8040, jul./dez. 2026.
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SOCIOLOGÍA DE LA CIENCIA
revisión teórica como aporte para pesquisas em Ciência da Informação
Resumen
En Ciência da Informação, los estudios sobre Comunicação Científica possuem especial e creciente relevancia a
medida que subsidiam a análise do comportamento científico de diversos dominios y, como consecuencia, trazem
importantes subsídios à produção, à organização, à recuperação e à mediação da informação. Nesse
sentido,
objetivamente-se proceder a una presentación y análisis de obras seminais no âmbito da Sociologia da Ciência, de
modo a respaldar teórica y metodológicamente pesquisas em Ciência da Informação, especialmente aquellos que
involucran a análise de domínio a partir de sus aspectos bibliométricos enquanto método de pesquisa, como análise
de citação, cocitação e autoria. Para tanto, realizou-se um levantamento das principais obras em Sociologia da
Ciência, a saber: Robert Merton – por meio da obra Ensaios de Sociologia da Ciência, em que estão reunidos
alguns de sus principais trabalhos, Bruno Latour e Stevie Woolgar – A vida no laboratório, Pierre Bourdieu – a
partir de su libro Para uma Sociologia da Ciência e Thomas Kuhn, baseando-se em su livro
A estrutura das
revoluções científicas. Foi possível perceber que essa área de pesquisa possui algunas características a serem
consideradas nas investigações, como a importância dos registros documentais, da análise dos campos de fuerza y
capital y una percepción que a Ciência não é estática e se evoluciona diacronicamente.
Palavras-chave:
Sociologia da Ciência; Robert Merton; Pierre Bourdieu; Bruno Latour; Tomás Kuhn.
ARTIGO
LOGEION: Filosofia da informação, Rio de Janeiro, v. 13, n. 1, p. 1-23, e-8040, jul./dez. 2026.
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1
INTRODUÇÃO
De acordo com Barjak
(2006), analisar
as comunicações científicas de determinado
campo é uma condição básica para o desenvolvimento do conhecimento compartilhado por esse
grupo. Para o autor, é por meio dessas análises que se identifica como o trabalho de pesquisa é
dividido,
como os resultados podem ser comparados, e como se pode oportunizar a replicação
e
discussões
posteriores
sobre
os
dados,
o
que
caracteriza
aquilo
que
Guimarães
(2008)
denomina como fluxo helicoidal do conhecimento
que, uma vez produzido, é comunicado,
or
ganizado,
disseminado
e,
por
sua
vez,
subsidia
uma
nova
produção
que
passa
a
ser
comunicada, organizada e disseminada.
Considerando
a
Ciência
da
Informação
como
uma
área
de
pesquisa
construída
coletivamente, concebida segundo Borko
(1968, p. 03) enquanto “[...] a disciplina que estuda
as propriedades e o comportamento da informação, os fluxos informacionais e os meios de
processar a informação para otimizar seu acesso e uso”, o presente artigo parte do pressuposto
de
que
estudos
soc
iológicos
da
ciência
produzida
nesse
campo
pode
auxiliar
a
melhor
compreender suas temáticas de pesquisa, seus pesquisadores mais produtivos e o conhecimento
compartilhado entre eles, e por meio deles.
Para tanto, resgatam
-
se obras seminais da Sociologia da Ciência, de modo a respaldar
teórica e metodologicamente pesquisas em Ciência da Informação, especialmente àquelas que
envolvem
aspectos
bibliométricos
enquanto
método
de
pesquisa,
como
análise
de
cit
ação,
cocitação e autoria.
Dessa forma, o artigo parte da dimensão conceitual da Sociologia da Ciência para, a
seguir, apresentar autores seminais do referido campo, centrando
-
se mais especificamente nas
contribuições de Robert Merton
–
por meio da obra Ensaios de Sociologia da Ciê
ncia, em que
estão reunidos alguns de seus principais trabalhos, Bruno Latour e Stevie Woolgar
–
“A vida
no laboratório”, Pierre Bourdieu
–
a partir de seu livro “Para uma Sociologia da Ciência” e
Thomas Kuhn, baseando
-
se em seu livro “A estrutura das revoluções científicas”.
2
PROCEDIMENTOS
METODOLÓGICOS
O
presente
estudo
caracteriza
-
se
como
uma
pesquisa
qualitativa,
de
natureza
exploratória,
cujo
procedimento
técnico
consiste
em
uma
revisão
de
literatura
de
caráter
teórico
-
narrativo (R
other
, 2007). Diferentemente das revisões sistemáticas, que se pautam por
protocolos rígidos de busca, seleção e síntese de evidências empíricas, a revisão narrativa é
adequada quando o objetivo é discorrer sobre o desenvolvimento de um tema a partir da análise
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crítica e interpretativa de obras reconhecidamente relevantes para um campo teórico (C
ordeiro
et al
., 2007)
. N
o caso deste artigo,
tem
-
se como objeto de pesquisa
o campo da Sociologia da
Ciência e sua interlocução com a Ciência da Informação.
O procedimento de análise consistiu em leitura integral das obras selecionadas
segundo
critérios como reconhecimento consagrado e uso consolidado na literatura da área
, seguida de
leitura analítica orientada pela identificação
d
os conceitos centrais propostos por cada autor
,
a
unidade
de
análise
privilegiada
em
cada
abordagem
(documento,
prática
de
laboratório,
campo/capital,
paradigma
)
e
as
implicações
metodológicas
de
cada
arcabouço
teórico
para
pesquisas empíricas em Ciência da Informação, em especial aquelas fundamentadas em análise
de domínio e em indicadores bibliométricos.
3
RESULTADOS
O conceito de Sociologia da Ciência
é compreendido a partir do pressuposto que a
informação científica é algo de valor, tanto por quem a produz quanto para quem a recebe e a
utiliza em outras pesquisas. Quem a produz recebe prestígio e reconhecimento por m
eio de
revisões por pares ou citações, e essa produção é um fator decisivo no momento de requisitar
auxílio
financeiro
para
o
desenvolvimento
de
novas
pesquisas
ou
ainda
para
o
compartilhamento dessas informações em eventos científicos. Quem utiliza essas
informações
é beneficiado por meio de um “conhecimento acumulado, que poderá subsidiar teoricamente
suas pesquisas” (
Barjak, 2006).
Para González de Gómez (2015), avaliar qualitativamente a informação
científica
produzida
passa
a
ser
uma
necessidade
ética,
uma
vez
que
a
falta
de
integridade
na
pesquisa,
permeada
por
práticas
fraudulentas,
traria
consequências
sérias.
A
autora
pondera
que a
pesquisa
se
desenvolve e
intervém
em
ambientes
complexos, permea
dos por uma série de pontos de vista, teorias e conceitos, devendo
-
se, então, levar em conta o conhecimento em rede e suas formas sociais e epistêmicas.
A autora afirma, que as citações seriam importantes indicadores de validação da ciência,
posto que não basta saber os resultados a que uma pesquisa chegou, mas também o que está
sendo feito em determinada temática e por quem esse trabalho é realizado. Para
cumprir essa
validação,
os
periódicos
constituem
-
se,
hoje,
determinantes
na
produção
e
socialização
do
conhecimento.
Para
tanto,
as
análises
das
formas
de
representação
da
ciência
devem
ser
refletidas,
uma
vez
que
a
“análise
da
inovação
e
aperfeiçoamento
dos
dispositivos
de
representação da ciência, deveria considerar com maior cuidado as mudanças dos contextos
normativos e de validação das práticas de produção científica” (González de Gome
z
, 201
5
).
ARTIGO
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Esse processo de qualificação da produção científica resulta no que a autora determina
como redes: um grupo de relações significativas de modo a demonstrar a interlocução entre
assuntos e questionamentos em um dito estado do conhecimento, ou seja, a relev
ância de uma
determinada investigação se explicita após o surgimento de novas pesquisas e intervenções
epistemológicas e empíricas (González de Gome
z
, 201
5
).
Jarvie
e Agassi (2011) criticam alguns pressupostos que são atribuídos à Sociologia da
Ciência, expondo uma visão oposta ao que até então era compreendido como inerente à área. O
primeiro pressuposto criticado declara que a autoridade, na ciência, é adquirida po
r meio de
uma construção social e que, portanto, deve ser aceita. Os autores ressaltam que embora o
prestígio acadêmico seja atribuído por meio de construções sociais, a autoridade que é atribuída
à ciência também é construída por esses meios, da mesma for
ma que outros sistemas, como o
político e o religioso. É por conta de fatores como esses que muitas vezes a população não
admite as decisões científicas com confiança ou ainda porque muitas vezes prefere priorizar o
financiamento
de
pesquisas
de
natureza
a
plicada,
como
as
tecnologias,
em
detrimento
das
pesquisas em ciências puras e em ciências humanas e sociais.
A crítica atribuída pelos autores a esse pressuposto é que essa autoridade intelectual de
fato não existe. O que deve ser explicado por meio da Sociologia da Ciência é a construção das
instituições sociais que produzem esse conhecimento por meio de esforç
os para refutar ideias e
para criar novas ideias que irão depois fazer parte de um mercado intelectual que pode ser
dividido em: a) mercado inicial, pequeno e reservado, composto por brainstormings, propostas
de pesquisa, preprints
; b) mercado futuro, em que as ideias com grande impacto continuam a
ser difundidas e aquelas com pouco impacto mantêm sua neutralidade ou podem começar a ter
sua
influência
reconhecida;
e
c)
mercado
formado
pelo
público
em
geral,
quando
as
informações dif
undidas pelas pesquisas científicas atingem outras camadas da sociedade, como
as doenças ensinadas em escolas ou hábitos de higiene recomendados. Considerando esses
mercados, para os autores a única autoridade a ser reivindicada é a divisão entre problemas
que
deveriam de fato ser pesquisados e opiniões não testadas (
Jarvie; Agassi, 2011).
O
segundo
pressuposto
criticado
por
Jarvie
e
Agassi
(2011)
declara
que
embora
a
ciência e a tecnologia sejam vistas de maneira conjunta na mente popular, devem ser entendidas
de maneira diferente quando considerados seus objetivos, sua organização social e sua estrutura
institucional.
Para
os
auto
res,
diferentemente
de
pesquisas
em
ciências
humanas,
os
pesquisadores em tecnologia são responsáveis legalmente por seus produtos possuindo, assim,
uma autoridade não somente intelectual, mas também institucional. Dessa forma, os objetivos,
estruturas soc
iais e a ética dos dois grupos são distintas.
ARTIGO
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5
O
terceiro
pressuposto
diz
respeito
à
influência
dos
fatores
socioeconômicos
no
desenvolvimento
científico,
os
quais
não
são
suficientes
para
evidenciar
como
esse
conhecimento social é construído. De acordo com os autores, o cerne dessa influência é como
esses fatores intelectuais se desenvolvem, pois “(…) as deficiências de uma teoria explicam a
negligência para com a mesma; e são os suplementos e modificações que explicam a mudança
para uma recepção positiva” (Jarvie
; Agassi, 2011, p. 54). Uma teoria que é bem recebida não
é garantia de que ela não seja posteriormente considerada um fracasso, da mesma forma que
uma teoria que em um primeiro momento possa parecer frustrada não significa que em algum
momento não seja re
conhecida como um êxito.
Segundo os autores, atualmente a Sociologia da Ciência se revela tendenciosa e não
suficientemente crítica e comprometida com a importância inerente da ciência para a sociedade.
É necessário, assim, que se faça uma sociologia preocupada em evidenciar as ve
rdades do
mundo sem buscar somente interesses institucionais ou prestígio público (Jarvie; Agassi, 2011).
Nesse
contexto
científico
até
então
conceitualmente
discutido,
vale
destacar
um
conjunto
de
autores
cuja
contribuição
revela
-
se
seminal,
precursora
e
fundante,
como
se
apresenta a seguir.
3.1
ROBERT MERTON, “ENSAIOS DE SOCIOLOGIA DA CIÊNCIA”
Embora o pioneirismo da Sociologia da Ciência tenha ocorrido com a Royal Society of
London em meados de 1660, o responsável por sistematizar os estudos desse colégio invisível
e começar a construir um conceito para a Sociologia da Ciência foi Robert Merton na década
de
1930.
O
principal
argumento
do
autor
é
que
os
interesses
religiosos
b
aseados
no
protestantismo foram um fator primordial para os ingleses fortalecerem os estudos científicos
por meio de uma ética puritana, em que pesquisas sobre a natureza
evidenciaram as obras
divinas.
Além desses princípios, a construção dessa Sociedade também fora baseada no bem
-
estar
social,
em
que
o
bem
da
maioria
deveria
ser
considerado
em
todas
as
instâncias,
desenvolvendo
tecnologias
que
pudessem
ser
utilizadas
para
a
dominação
da
natureza.
De
aco
rdo com Merton (2013), esses princípios eram baseados em valores éticos intrínsecos à
sociedade
da
época,
principalmente
apoiados
nas
ideias
do
utilitarismo
e
empirismo,
uma
inovação para o tempo, visto que no período medieval a ciência era repreendida ou
meramente
tolerada.
ARTIGO
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Merton então realiza um trabalho profícuo sobre a origem da Sociedade Real e de como
o
conhecimento
era
ali
construído
e
compartilhado
posteriormente
por
meio
de
seus
ensinamentos. Segundo o autor, os membros do principal núcleo da sociedade eram em sua
gr
ande maioria clérigos e declaradamente puritanos, o que é destacado pelo autor, considerando
que os puritanos não constituíam a maioria da população da época. Esse grupo foi responsável
pela construção de diversas academias pelo Reino Unido, difundindo o c
onhecimento científico
baseado não no conhecimento clássico, até então disseminado pelas universidades, mas naquele
em que era possível verificar seu utilitarismo (Merton, 2013).
O estudo de como o conhecimento foi difundido e compartilhado pela Sociedade Real
realizado por Merton pode ser considerado a investigação pioneira em Sociologia da Ciência.
O autor conseguiu identificar que, ainda que os protestantes correspondessem a um
terço da
população católica, sua presença entre os cientistas era sempre em maior parte (Merton, 2013).
Em
um
novo
estudo,
Merton
buscou
identificar
qual
era
a
relação
entre
o
desenvolvimento científico e tecnológico da Inglaterra, promovido pela Sociedade Real, e como
ele pode ter influenciado a ascensão do país no que diz respeito ao armamentismo. Por meio de
problemas técnicos
–
como fórmulas de velocidade e estabilidade das
armas
–
os membros da
sociedade puderam sugerir soluções efetivas e que levaram o país a ser considerado líder no
setor.
Por
intermédio
desses
estudos,
foi
possível
ainda
chegar
a
novos
problemas
que
despertavam o interesse dos engenheiros da época, tornan
do as investigações cada vez mais
especializadas (Merton, 2013).
Outro estudo de Merton que merece destaque no contexto da Sociologia da Ciência é a
análise, por meio das atas da Sociedade Real, sobre quais temáticas despertavam o interesse de
pesquisa na época e quais eram os fatores extrínsecos para a realização dessa
s investigações.
Mediante essa análise, o autor averiguou que as pesquisas possuíam em sua maioria interesse
em
necessidades
socioeconômicas
e
podiam
ser
divididas
em
grupos
relacionados
com
transporte e navegação marítimos, mineração e metalurgia e tecnol
ogia militar. Ainda que os
interesses parecessem ser de cunho prático, o autor identificou que grande parte das pesquisas
era do campo das ciências puras, com uma minoria de natureza utilitarista. O que cumpre
destacar
aqui
é
que
por
meio
de
uma
análise
ba
seada
em
registros
deixados
por
uma
comunidade como a Sociedade Real, Merton conseguiu identificar quais eram as tendências de
pesquisa
do
período
e
justificar
por
que
determinados
tipos
de
pesquisa
eram
utilizados,
claramente uma decisão de autoafirmação
necessária na época (Merton, 2013).
Além dos estudos realizados, Merton buscou definir o conceito de Sociologia da Ciência
afirmando ser a “(…) dependência do conhecimento em relação à posição social e, em um nível
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excessivo e estéril, às implicações epistemológicas de tal dependência” (Merton, 2013, p. 95).
Como justificativa da importância desse conceito, o autor afirma que o desenvolvimento do
conhecimento muitas vezes não pode ser explicado por leis baseadas na o
bservação e na lógica,
mas por fatores extrateóricos
, que podem determinar a percepção do problema, a formulação
teórica, a escolha dos materiais, entre outros.
Para tanto, o autor propõe alguns paradigmas para a Sociologia
da Ciência
: onde está
localizado o existencial das produções mentais
–
bases sociais (como posição social, classe,
geração, entre outras) e bases culturais (valores, ethos
, clima de opinião etc.); quais são as
produções
mentais
sociologicamente
analisadas
–
esferas
de
crenças
morais,
ideologias,
categorias de pensamento, entre outras e aspectos como focos de atenção, nível de abstração,
pressuposições etc.; como as produçõe
s mentais relacionam
-
se com a base existencial
–
por
meio de relações causais ou funcionais, como determinação, causa, condições necessárias e
assim
por
diante,
ou
relações
simbólicas
ou
orgânicas,
como
harmonia,
coerência,
compatibilidade etc.; porque fun
ções latentes e manifestas são imputadas a essas produções
mentais existencialmente condicionadas
–
para manter o poder, promover estabilidade, fornece
motivação etc.; e ainda, quando se estabelecem as relações imputadas à
base existencial e ao
conhecimento
–
por meio de teorias historicistas e analíticas gerais (Merton, 2013).
O
autor
destaca
ainda
que
mudanças
na
estrutura
institucional
podem
afetar
o
desenvolvimento
científico,
sendo
muitas
vezes
responsável
por
bloquear
seu
avanço.
De
acordo com Merton, a hostilidade à ciência pode vir de dois grupos: o primeiro diz respeito
à
conclusão
lógica
de
que
conclusões
científicas
podem
acometer
valores
importantes
da
sociedade
e
o
segundo
conjunto
aborda
o
―sentimento
de
incompatibilidade
entre
os
sentimentos
incorporados
no
ethos
científico
e
aqueles
encontrados
em
outras
instituições‖
(Merton, 2013, p. 160).
Conforme o autor salienta, todas as revoluções contra a ciência tiveram por base esses
dois grupos, ainda que em diferentes graus e da mesma forma, o reconhecimento científico por
parte da sociedade também levou em conta esses fatores. Como exemplo de como
essa alteração
na estrutura pode afetar o desenvolvimento científico, Merton cita os estados dominantes
–
em
especial o estado nazista na Alemanha
–
em que caso o conhecimento científico entrasse em
conflito com os interesses do estado, suas investigações
eram censuradas ou proibidas (Merton,
2013).
Outro conceito de destaque atribuído a Robert Merton é a definição do Efeito Mateus,
que
é
definido
pelo
autor
como
o
―reconhecimento
pelos
pares
dos
cientistas
de
grande
reputação por suas contribuições particulares em contraste com a minimização ou recu
sa deste
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reconhecimento para os cientistas que ainda não deixaram sua marca‖ (Merton, 2013, p. 206).
Basicamente, o autor faz uma relação com o versículo bíblico de Mateus (13:12 e 25:29) e
afirma que aquele pesquisador com maior prestígio acadêmico está suscetível
a ter cada vez
mais
reconhecimento,
enquanto
o
pesquisador
que
ainda
não
está
em
evidência
pode
ser
ignorado
ou
esquecido.
A
melhor
forma
de
analisar
esse
efeito
é
por
meio
de
citações
e
qualidade dos artigos de periódicos científicos.
3.2
BRUNO LATOUR
E STEVIE WOOLGAR, “A VIDA
DE
LABORATÓRIO”
Outra obra de grande importância para a Sociologia da Ciência é a do etnólogo Bruno
Latour e Stevie Woolgar,
A vida de laboratório
. A pergunta inicial é apresentada pelo primeiro
autor, que questiona a falta de uma análise sobre o discurso científico baseada nos princípios
etnológicos. Para Latour, as relações compartilhadas no laboratório deveriam ser estudadas
considerando sua “(…)
cultura, as sociedades e os discursos pré, para ou extracíentificos
” e que
embora o interesse dos etnólogos tenha sido o estudo sobre costumes exóticos, a técnica da
cientificidade ainda é pouco estudada (Latour; Woolgar, 1997).
A análise foi realizada no Instituto Salk, nos Estados Unidos, liderado pelo pesquisador
Roger Guillemin. Os recursos do instituto são financiados pelo governo
–
por meio de agências
como
National Institutes of Health
(
NIH
)
ou National
Science Foundation
–
e sua legitimidade
deve
-
se ao fato da descoberta de aspectos relacionados a um hormônio denominado TRF (H).
Latour passou dois anos realizando a investigação, avaliando qual era a dinâmica de trabalho
no laboratório e então se juntou
a Woolgar, também pesquisador da etnometodologia, para
elaborar a obra.
De acordo com os autores, o livro pretende ser uma observação de primeira mão do
trabalho
do
saber,
que
utiliza
pesquisadores
como
informantes
–
com
certeza
informantes
privilegiados, sem usar o que eles dizem para explicar o que fazem. E, no entanto, o li
vro não
se contenta em tratar dos erros ou dos trâmites de suas condutas, mas esforça
-
se para mostrar,
por meio de explicações simétricas, porque, muitas vezes, eles estão certos (Latour; Woolgar,
1997, p. 25).
O livro é dividido por estilos de observadores, desde aquele completamente alheio ao
trabalho realizado em laboratórios científicos, passando por um historiador preocupado
em
estabelecer
o
fato
científico,
um
etnometodólogo
investigando
as
linguagens
espec
íficas
utilizadas, um sociólogo clássico e o discurso reunido de todos esses observadores, retratado na
última seção.
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LOGEION: Filosofia da informação, Rio de Janeiro, v. 13, n. 1, p. 1-23, e-8040, jul./dez. 2026.
9
É salientado pelos autores o conceito de identificação em um campo. Para eles essa
compreensão é equivalente a participar de um grupo que possuí afinidades como “(…) crenças,
hábitos, tradições orais e práticas” (Latour; Woolgar, 1997, p. 48).
Esse ―conjunto de atributos‖
–
ou cultura, na linguagem antropológica
–
poderia ser
entendido
ainda
como
um
paradigma,
conforme
evidenciado
por
Kuhn
(1998)
e
que
será
descrito detalhadamente mais à frente.
Os autores ainda evidenciam sobre a importância de os instrumentos utilizados para o
desenvolvimento
das
pesquisas
–
denominados
por
eles
como
―inscritores
–
não
serem
adequadamente levados em consideração. A partir do momento que os processos de elaboração
dos
produtos
são
concluídos,
não
se
atenta
para
os
instrumentos
necessários
para
essa
conclusão. Na verdade, o que torna esses instrumentos tão important
es “(…) é o fato de que
nenhum
dos
fenômenos
aos
quais
eles
se
referem
existiriam
sem
eles
(…),
os
fenômenos
dependem
do
material,
eles
são
totalmente
constituídos
pelos
instrumentos
utilizados
no
laboratório” (Latour; Woolgar, 1997, p. 61).
Isso acaba determinando uma configuração particular de utilização desses utensílios,
embora existam ferramentas mais necessárias que outras, o que representa a essencialidade
desse material é sua utilização em conjunto. É por conta desses fatores que quand
o um desses
equipamentos
se
danifica
ou
não
há
verba
suficiente
para
a
compra
de
novos
materiais,
o
desenvolvimento de pesquisas fica tão comprometido, considerando ainda que muitas vezes
alguns desses inscritores
são os únicos exemplares em todo o país. Esses inscritores possuem
importância
ainda
mais
extrema
quando
se
considera
que
eles
mesmos
são
produtos
de
pesquisas anteriores (Latour; Woolgar, 1997).
Outro
ponto
destacado
pelos
autores
é
o
fato
da
imprescindibilidade
dos
artigos
científicos, entendidos como muito além de meros relatórios das evoluções da pesquisa, e que
podem ser definidos como produtos dessas investigações. Uma das habilidades desses
produtos
é seu caráter de persuasão: eles são necessários para convencer sobre a importância da pesquisa
desenvolvida, e muitas vezes convencer os próprios pesquisadores da sua legitimidade
–
não
porque estão convencendo outros, mas porque acreditam estar
seguindo uma linha de raciocínio
e análise de dados sólida (Latour;
Woolgar, 1997).
São
esses
documentos
a
finalidade
do
trabalho
do
pesquisador
e
que
irão,
posteriormente, legitimá
-
los enquanto autores. As listas de publicações também possuem sua
notoriedade, visto que no laboratório analisado eram proporcionalmente divididas de acordo
com o objetivo a ser atingido: em publicações de medicina, quando o objetivo era se conseguir
financiamento
por
conta
da
credibilidade
das
fontes;
um
segundo
gênero
voltado
a
ARTIGO
LOGEION: Filosofia da informação, Rio de Janeiro, v. 13, n. 1, p. 1-23, e-8040, jul./dez. 2026.
10
pesquisadores
não
especializados,
com
publicações
em
manuais
de
nível
superior
ou
conferências ministradas; e um último tipo, caracterizado por possuir um grande número de
coautores e responsável por resumir o “estado da arte”, geralmente apresentado em co
ngressos
científicos da área (Latour; Woolgar,1997).
É geralmente nesse último tipo de publicação que são apresentadas informações inéditas
e, por meio de uma conclusão tautológica dos autores, foi possível perceber que o retorno desse
financiamento para a publicação de artigos é calculado por meio do intere
sse nesses materiais
por parte dos pesquisadores externos ao laboratório (Latour; Woolgar, 1997).
Outro
aspecto
evidenciado
pelos
autores
é
o
conceito
de
crédito,
que
pode
ser
categorizado em quatro acepções: uma mercadoria que se pode trocar
–
como exemplo, os
autores citam uma carta de um dos pesquisadores a outro que permitiu o uso de seus slides em
uma conferência; o crédito pode ser dividido
–
quando um pesquisador de maior renome inclui
outro ainda iniciante em seus trabalhos; o crédito pode ser roubado
–
quando pesquisadores não
atribuem o devido crédito a outros que contribuíram para o trabalho;
e ainda o crédito pode ser
acumulado ou desperdiçado
–
acumulado para o pedido de um financiamento, por exemplo, ou
desperdiçado quando publicado em uma publicação de pouca evidência.
Por meio dessas noções, os autores assimilam a ideia com uma série de outros conceitos,
como “(…) concessão de crédito, referências profissionais (em inglês, credential), o crédito
dado às crenças (‘credo’, ‘crível’) e as contas a serem prestadas (‘presta
r contas de seus atos’,
‘prestação de contas’, ‘crédito em conta’)” (Latour; Woolgar, 1997, p. 270).
3
.3 PIERRE BOURDIEU, “PARA UMA SOCIOLOGIA DA CIÊNCIA”
A próxima obra trabalhada
–
Para uma Sociologia da Ciência,
de Pierre Bourdieu
–
inicia com uma crítica aos estudos até então realizados neste âmbito. Para o autor, as barreiras
enfrentadas
para
que
haja
progresso
na
ciência
são
essencialmente
sociais
e,
portanto,
há
necessidade de estudos nessa temática.
Para que haja legitimidade na ciência, é preciso que haja lutas sociais, escapando
-
se de
um discurso justificativo da ciência, em que os discursos dominantes são repetidos e aceitos
sem reflexão (Bourdieu, 2001).
A grande crítica do autor aos Mertonianos
é a crença de que essas relações científicas e
sociológicas estabelecidas nas citações são encaradas de maneira lógica e objetiva: quem é mais
citado possui maior conhecimento sobre o assunto. No entanto, a própria teoria difundida por
Merton não explicit
a como são resolvidos os conflitos científicos existentes nessas relações,
ARTIGO
LOGEION: Filosofia da informação, Rio de Janeiro, v. 13, n. 1, p. 1-23, e-8040, jul./dez. 2026.
11
limitando
-
se apenas à autojustificação, em um sistema de reward
, em que os mais produtivos
são recompensados e aqueles que ainda não tiveram seu trabalho reconhecido podem seguir por
vias alternativas, como carreiras administrativas (Bourdieu, 2001).
Bourdieu (2001) também faz duras críticas aos denominados “estudos de laboratório”,
como
aqueles
preconizados
por
Knorr
-
Cetina
e
o
acima
relacionado
trabalho
de
Latour
e
Woolgar
. Para o autor, o laboratório é um microcosmo social, constituído em um espaço em
que estão presentes outros laboratórios e relações de hierarquias e esse espaço e posição não
devem ser ignorados durante os estudos. Embora as críticas sejam feitas, o autor
reconhece a
importância desses estudos, visto que buscam aproximar a visão da ciência ao seu contexto de
produção e ressaltam práticas condenáveis, como omissão em relatórios, resultados decisivos a
partir de experiências equívocas, ou ainda modificação d
a ordem de realização de experiências,
entre outros.
É
então
que
o
autor
ressalta
alguns
conceitos
elaborados
por
ele
que
devem
ser
considerados
no
momento
dos
estudos
em
Sociologia
da
Ciência.
O
primeiro
deles
é
seu
conceito de campo. Para Bourdieu (2001) faz
-
se necessário levar em conta as relações objeti
vas
existentes entre os laboratórios e seus pesquisadores, em especial aqueles que lideram essas
pesquisas. O campo compreende forças, uma estrutura e relações de tensão para a manutenção
ou sua transformação.
Como exemplo desse conceito o autor afirma que os pesquisadores e outras instituições
envolvidas
–
denominadas como fontes de campo
–
criam, por meio de suas relações, um espaço
condicionante
que
só
existe
por
conta
dessas
relações.
São
esses
indivíduos
qu
e
podem
deformar o espaço que estão inseridos, estabelecendo uma estrutura em que relações de força
são determinadas e exercidas sobre a produção e práticas científicas (Bourdieu, 2001).
Outro conceito determinante para o autor é o de capital científico. Para que essas forças
sejam
atribuídas,
são
necessários
alguns
diferenciais
do
pesquisador
que
garantam
sua
vantagem sobre outros pesquisadores e esses elementos dependem do nível de capit
al que o
cientista possui. Para o autor, esse capital científico pode ser definido como
e
spécie particular
de
capital
simbólico,
capital
fundado
no
conhecimento
e
no
reconhecimento.
Poder
que
funciona como forma de crédito, pressupõe a confiança ou a crença dos que o suportam porque
estão dispostos (pela sua formação ou pelo próprio fato de pe
rtencer ao campo) a atribuir crédito
[...] O dominante é aquele que ocupa na estrutura uma posição tal qual que a estrutura age em
seu favor (Bourdieu, 2001, p. 53).
Nesse contexto, o autor também propõe o conceito de capital social, que diz respeito ao
conjunto de relações relativamente institucionalizadas de compartilhamento de conhecimentos,
ARTIGO
LOGEION: Filosofia da informação, Rio de Janeiro, v. 13, n. 1, p. 1-23, e-8040, jul./dez. 2026.
12
ou seja, o senso de pertencimento a um grupo, composto por usuários que possuem afinidades
entre
si
e
estão
unidos
por
vínculos
permanentes
e
úteis.
O
volume
do
capital
social
de
determinado membro do grupo pode ser medido por meio da extensão dos elos que
ele mobiliza
e o volume do capital pertencente àqueles a quem ele está vinculado (Bourdieu,
2001
).
Destaca
-
se ainda o conceito atribuído pelo autor ao termo disciplina, que consiste em
um campo científico estável e delimitado que já possui denominação reconhecida socialmente
e no nível acadêmico
–
como nas classificações bibliográficas, departamentos un
iversitários ou
em congressos científicos. As disciplinas são constituídas por um capital coletivo em que estão
presentes métodos, teorias e conceitos de determinada especialidade e que possui delimitação
mais
ou
menos
definida,
havendo
ainda
a
possibilida
de
de
intersecções
entre
diferentes
disciplinas (Bourdieu, 2001).
De
acordo
com
o
autor,
a
contribuição
do
cientista
é
manifestada
por
meio
de
publicações, fornecendo bases teóricas mediante as referências utilizadas e que posteriormente
serão
ação
de
reconhecimento
público
por
seus
concorrentes.
A
posição
desse
cientist
a
na
distribuição desse capital é atribuída de acordo com sua contribuição para o avanço da ciência.
Ressalta
-
se ainda que ―o campo científico dá crédito aos que já tem‖, ou seja, aqueles de maior
prestígio receberão maior reconhecimento (Bourdieu, 2001).
O reconhecimento desse capital também recebe influência de alguns fatores como, por
exemplo, a caracterização de seu laboratório enquanto instituição de pesquisa, ou seja, o quão
reconhecida é sua universidade ou instituto. O autor destaca ainda a necessi
dade de recursos
financeiros para o desenvolvimento das pesquisas, em especial em áreas como a física ou a
sociologia e de como o capital também afeta como esses recursos serão distribuídos (Bourdieu,
2001).
O espaço para elaboração de manobras visando ao desenvolvimento de estratégias para
a transformação dessas relações de poder pode ser encontrado, de acordo com o autor, em
diferentes níveis: desde o capital monopolizado, como é o caso de um estudo realizad
o sobre a
Academia de Belas
-
Artes na época de Monet, até um ordenamento mais igualitário, ainda que
ao redor de dominantes
–
que possuem o poder de impor, tendo vantagens sobre os outros
–
e
os dominados
–
que para manter sua posição devem se inovar consta
ntemente. O autor ressalta
que conhecer essas estruturas de poder pode auxiliar a prever comportamentos prováveis entre
esses agentes (Bourdieu, 2001).
Bourdieu
(2001)
evidencia
que
o
pesquisador
é,
de
fato,
a
materialização
de
determinado campo científico. Os ofícios desenvolvidos nesse campo, ainda que permeados por
técnicas
e
esquemas,
possuem
sua
especificidade
declarada
a
partir
do
fato
de
que
essas
ARTIGO
LOGEION: Filosofia da informação, Rio de Janeiro, v. 13, n. 1, p. 1-23, e-8040, jul./dez. 2026.
13
atividades podem ser
aprendidas por meio de fórmulas matemáticas ou
ainda por meio da
formalização de teorias.
O autor também traz seu conceito de comunidade, ou seja, instituições científicas ou
corporativas de dado campo científico que possuem composição social e organizacional, de
maneira a visar a proteção e garantia dos valores compartilhados pela categoria pr
ofissional.
3
.4 THOMAS KUHN, “A ESTRUTURA DAS REVOLUÇÕES CIENTÍFICAS”
Thomas
Kuhn
era
físico
por
formação;
no
entanto,
durante
um
curso
experimental
realizado ao longo de sua pós
-
graduação, teve contato pela primeira vez com a História da
Ciência.
O
curso
visava
apresentar
a
ciência
física
para
não
cientistas
e
o
autor
senti
u
-
se
incomodado com a exposição de ―práticas científicas antiquadas, o que o levou a aprofundar
-
se mais em seu interesse pela Filosofia da Ciência.
O autor inicia sua obra conceituando o que é ciência de seu ponto de vista, definindo
-
a
como o compilado de teorias e fatos que são disponibilizados por meio de documentos atuais
alimentados por cientistas, que com ou sem sucesso formularam elementos para
a construção
desses
documentos.
Essa
é
uma
prática
crescente,
que
exemplifica
o
processo
de
desenvolvimento constante da ciência. A História da Ciência é, portanto, a disciplina que se
dispõe a estudar e registrar esses fenômenos (Kuhn, 1998).
Outro conceito importante na obra do autor é a concepção de “ciência normal”, definida
por ele como “a pesquisa firmemente baseada em uma ou mais realizações científicas passadas”
(Kuhn, 1998, p. 29). Para o autor, essas realizações servirão, por certo per
íodo, como base para
as práticas dessa comunidade científica, que pode ser compreendida pelo autor enquanto um
grupo com treino e experiência comuns, que compartilham regras e critérios de julgamentos,
possuindo
habilidade
para
determinar
problemas
e
métod
os
que
serão
investigados
pelas
gerações posteriores de cientistas. Kuhn considera ainda que essas realizações possuem dois
atributos
primordiais:
são
originais
a
ponto
de
não
haver
pesquisas
anteriores
similares
e,
portanto, atraem um grupo interessado em
dar continuidade, e ainda são abertas o bastante para
deixar problemas que serão resolvidos por esse novo grupo.
Por meio de uma definição mais objetiva, o autor afirma que
Uma
comunidade
científica
é
formada
pelos
praticantes
de
uma
especialidade
científica. Estes foram submetidos a uma iniciação profissional e a uma educação
similar,
numa
extensão
sem
paralelos
na
maioria
das
outras
disciplinas.
Neste
processo absorveram a
mesma literatura técnica e dela retiraram muitas das mesmas
lições. Normalmente, as fronteiras dessa literatura
-
padrão marcam os limites de um
objeto de estudo científico e em geral cada comunidade possui um objeto de estudo
próprio (Kuhn, 1998, p. 220).
ARTIGO
LOGEION: Filosofia da informação, Rio de Janeiro, v. 13, n. 1, p. 1-23, e-8040, jul./dez. 2026.
14
O
autor
denomina
as
realizações
da
comunidade
científica
como
“paradigmas”
compartilhados
pela
comunidade
científica
e
que
irão
preparar
os
futuros
cientistas,
agora
estudantes, para se tornarem parte dessa comunidade. Considerando que esses estudantes ter
ão
contato com pesquisadores consolidados
–
que produzem suas pesquisas tomando por base
essas realizações anteriores
–
suas opiniões sobre pontos fundamentais dificilmente irão entrar
em desacordo. Isso pode ser evidenciado na afirmação de Kuhn (1998, p.
30) “homens cuja
pesquisa está baseada em paradigmas compartilhados estão comprometidos com as mesmas
regras
e
padrões
para
a
prática
científica”
e
é
esse
comprometimento
que
caracteriza
a
propriedade de continuidade da ciência normal.
Kuhn
(1998)
salienta
ainda
que
a
aquisição
de
um
paradigma
é
uma
forma
de
amadurecimento no desenvolvimento dos campos científicos, uma vez que um novo paradigma
é trazido em evidência por um grupo capaz de atrair outros praticantes a seguir essa nova
con
cepção.
Dessa
forma,
as
teorias
mais
antigas
iniciam
um
processo
de
desaparecimento
natural,
sendo
que
aqueles
pesquisadores
que
insistem
na
não
adoção
do
novo
paradigma
acabam por ter seus trabalhos excluídos.
Sendo assim, o paradigma pode ser considerado ―um modelo ou padrão aceito‖ que se
apresentou
como
a
melhor
forma
de
resolução
de
conflitos
encontrados
pela
comunidade
científica até o momento, ainda que haja limitações. A ciência normal passa então a estud
ar
melhor
esses
paradigmas,
buscando
manter
sempre
atual,
além
de
analisar
os
problemas
evidenciados por ele de maneira a garantir um maior conhecimento sobre seus aspectos (Kuhn,
1998).
A resolução dos problemas suscitados pelo paradigma é entendida por Kuhn (1998) por
meio
da
metáfora
de
montagem
de
quebra
-
cabeças.
Esses
problemas
surgem
para
testar
a
habilidade
dos
cientistas
em
encontrar
soluções,
funcionando
inclusive
de
maneira
motiv
acional para a continuidade do trabalho do pesquisador, de forma a provar seu potencial.
Esses problemas que são definidos pelo paradigma
–
como suscetíveis de solução
–
serão os
problemas encorajados a serem estudados pela comunidade científica em que são
apresentados,
outros problemas poderão ser considerados metafísicos ou parte de outra disciplina.
Outra analogia ao conceito de quebra
-
cabeça é a realizada pelo autor no sentido de, da
mesma forma que no jogo, a resolução de problemas possui regras. O quebra
-
cabeça não é
meramente a montagem de um quadro, é necessário respeitar regras como a utilizaçã
o apenas
do lado com figuras e que as peças estejam perfeitamente entrelaçadas umas nas outras. Da
mesma
forma,
o
autor
afirma
que
na
pesquisa
científica
é
necessário
compreender
regras
ARTIGO
LOGEION: Filosofia da informação, Rio de Janeiro, v. 13, n. 1, p. 1-23, e-8040, jul./dez. 2026.
15
enquanto
concepções
prévias
e
estabelecidas,
identificadas
enquanto
teorias
científicas,
conceitos e enunciados de leis aceitos pela comunidade científica (Kuhn, 1998).
Essas
regras
podem
ser
exemplificadas
por
meio
de
uma
rede
de
compromissos,
composta por aspectos conceituais, teóricos, metodológicos e instrumentais. Embora o autor
afirme que essas regras devem ser altamente determinantes no desenvolvimento da ciência
n
ormal, ele também ressalta que a ciência não deve ser inteiramente definida por essas regras,
pois “as regras derivam de paradigmas, mas os paradigmas podem dirigir a pesquisa mesmo na
ausência de regras” (Kuhn, 1998, p. 66).
Para se identificar quais são as regras aceitas de uma comunidade científica, apenas
determinar quais são seus paradigmas compartilhados é insuficiente. Para tanto, é necessário
que o historiador compare esses paradigmas com os relatórios científicos produ
zidos pelo grupo
de investigadores, dessa forma é possível identificar elementos explícitos e implícitos, além de
distinguir paradigmas mais globais (Kuhn, 1998).
Tendo isso em mente, o autor salienta que não é possível identificar os paradigmas
meramente por meio de seu conjunto de regras satisfeitas, e sim analisando as semelhanças que
se moldam ao corpus científico já adotado pela comunidade científica. Para comp
reender como
os paradigmas são determinantes, ainda que sem a influência de regras, é necessário considerar
algumas razões: há uma grande dificuldade em determinar quais foram as regras seguidas pelos
cientistas tradicionais ao longo de suas descobertas; a
s teorias e os conceitos não são aprendidos
de maneira isolada, há sempre um contexto temporal e de aplicação; e ainda a existência de
paradigmas seguros garante seu funcionamento sem que seja necessária uma racionalização
(Kuhn, 1998).
Kuhn
(1998)
também
ressalta
que
os
paradigmas
são
influenciados
pelo
nível
de
especialidade da área do conhecimento. As diferentes áreas do conhecimento possuem fontes
de conhecimento distintas e, mesmo em áreas semelhantes, a forma como esse conhecimento
se dá difere ao longo do processo de aprendizagem, dependendo muito das leituras realizadas
durante esse período e cursos frequentados. Dessa forma, quando um paradigma se mostra
revolucionário, não precisa necessariamente ser para todos os membros do camp
o científico,
apenas para aqueles que compõem a especialidade.
Segundo o autor, a concepção de novos fatos e teorias não ocorre de maneira isolada,
mas por meio de episódios prolongados que possuem um ciclo regular. Tudo se inicia com a
identificação de uma anomalia, definida pelo autor como “o reconhecimento que, de
alguma
maneira, a natureza violou as expectativas paradigmáticas que governam a ciência normal”
(Kuhn, 1998, p. 78). A partir daí, busca
-
se explorar melhor as causas dessa anomalia, até que a
ARTIGO
LOGEION: Filosofia da informação, Rio de Janeiro, v. 13, n. 1, p. 1-23, e-8040, jul./dez. 2026.
16
teoria do paradigma seja adequada e então, caso mude a visão do cientista, essa anomalia passa
a ser um fato científico. É difícil atribuir esses fatos a um único indivíduo ou espaço no tempo,
impossibilitando estabelecer de maneira fixa esses fatores.
De
acordo
com
Kuhn
(1998),
o
surgimento
de
novos
fenômenos
possui
três
características
fundamentais:
o
reconhecimento
da
anomalia,
o
aprofundamento
nos
planos
conceituais
e
de
observação
e
as
possíveis
mudanças
paradigmáticas,
que
podem
vir
acompanhadas de
resistência.
Uma vez que a anomalia persiste por um tempo considerável, inicia
-
se um processo de
crise crescente ocorrida pela frustração na resolução do quebra
-
cabeça. Essa ocorrência precede
o surgimento de novas teorias ou alterações das regras vigentes e é o cerne
do desenvolvimento
de crises científicas. Assim, a crise possui o papel fundamental no desenvolvimento científico,
visto
que
é
responsável
por
forçar
a
mudança
de
percepção
e
a
construção
de
novos
instrumentos de pesquisa, o que não ocorre em momentos de e
stabilidade (Kuhn, 1998).
Ainda que essa sensação de crise constante possa desestabilizar os cientistas, eles não
renunciam ao paradigma que iniciou a crise e nem da busca por soluções. O paradigma só perde
sua
credibilidade
quando
outro
surge
capaz
de
substituí
-
lo.
Assim,
rejeitar
um
paradigma
significa automaticamente aceitar um novo. Essa capacidade de suportar crises é o que mantém
o trabalho dos cientistas. A crise demonstra
-
se ainda mais necessária, pois nenhum paradigma
é capaz de responder a todos os problemas identificados,
uma vez que as poucas pesquisas em
que isso pareceu possível logo perderam sua relevância para a ciência (Kuhn, 1998).
Segundo
o
autor,
a
resolução
de
quebra
-
cabeças
pode
ser
entendida
sob
outra
perspectiva, enquanto um contraexemplo é um importante motivo para o surgimento de crises.
Importantes e tradicionais pesquisas ao longo do tempo foram refutadas, visto que aquilo
que
os cientistas consideravam um quebra
-
cabeça resolvido era na realidade um contraexemplo,
alterando a perspectiva da pesquisa realizada. No momento em que o paradigma manifesta
diversos pontos de vista, o quebra
-
cabeça torna
-
se fraco, facilitando o surg
imento de novos
paradigmas (Kuhn, 1998).
Mesmo
em
se
considerando
que
as
crises
têm
seu
início
por
meio
de
anomalias
persistentes, não é válido que todo o surgimento de anomalia valha o esforço minucioso. É
necessário que se diferencie aquelas que merecem uma atenção e estudo maior por meio de
ex
ames
que
evidenciam
questões
como:
a
anomalia
questiona
as
generalizações
até
então
aceitas no paradigma; ela passa a possuir um importante papel prático; ou, ainda, um fato que
até então era apenas um incômodo. De acordo com o autor, considerando essas ci
rcunstâncias,
ARTIGO
LOGEION: Filosofia da informação, Rio de Janeiro, v. 13, n. 1, p. 1-23, e-8040, jul./dez. 2026.
17
é possível identificar quando ocorre a transição da ciência normal para uma crise ou ciência
extraordinária (Kuhn, 1998, p. 114).
Após demonstrar como as crises surgem, o autor declara três possíveis maneiras de
concluir essa etapa: encontra
-
se a solução para o problema evocado pela crise; determina
-
se ser
impossível
encontrar
a
solução,
deixando
os
dilemas
para
gerações
futuras
com
suficiente
instrumental para a resolução; e a crise termina com a emergência de um novo paradigma. Nesse
último
caso,
o
novo
paradigma
não
se
reconstrói
baseando
-
se
no
antigo,
mas
fazem
-
se
necessárias novas teorias e metodologias a serem utilizadas, ainda
que haja coincidências, a
forma de ser resolver os problemas será substancialmente modificada e é então que ocorre uma
revolução científica (Kuhn, 1998).
A
escolha
do
termo
pelo
autor
justifica
-
se
pelo
seu
sentido
na
área
política:
as
revoluções ocorrem quando as instituições passam a não corresponder de maneira satisfatória
aos
problemas
encontrados.
Da
mesma
forma,
as
revoluções
científicas
ocorrem
quand
o
a
comunidade científica percebe que o paradigma existente já não funciona de maneira correta
na resposta de problemas, esse sentimento “defeituoso” é primordial para que uma crise se
inicie (Kuhn, 1998).
No momento das revoluções, as visões de mundo são alteradas, ainda que se olhe para
os mesmos instrumentos de pesquisa, as perspectivas são outras. Como exemplo, o autor cita a
visão da Lua após os estudos de Copérnico, na qual antes o que se acreditava se
r um planeta
nesse momento passa a ser visto enquanto um satélite. Nesse sentido, as interpretações sobre
fenômenos já identificados são alteradas (Kuhn, 1998).
Um
instrumento
de
autoridade
responsável
por
evidenciar
a
existência
dessas
revoluções são os manuais científicos, textos de divulgação e obras filosóficas, em que são
reunidos ―um corpo já articulado de problemas, dados e teorias e muito frequentemente ao
conjunto particular de paradigmas aceitos pela comunidade científica na época em que esses
textos foram escritos‖ (Kuhn, 1998, p. 174). Esses documentos são responsáveis por registrar
os resultados das revoluções passadas e demonstrar o percurso da ciênci
a natural.
Considerando os aspectos desses materiais, o autor sugere que a partir do momento em
que ocorre uma nova revolução científica, eles deveriam ser atualizados, de maneira a conter
um registro histórico das revoluções ocorridas nesse período, demonstrando que
na maioria das
vezes esse não é um processo linear. Uma vez que essas revoluções não são trazidas à tona por
esses documentos, elas tornam
-
se invisíveis, causando uma falsa impressão de que a ciência
chegou a seu nível atual por meio de descobertas pontua
is e gradativas (Kuhn, 1998).
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18
De acordo com o autor, o progresso da ciência deve
-
se ao trabalho das comunidades
científicas,
ainda
que
em
níveis
dissemelhantes
–
a
Física
tem
seu
progresso
mais
expressamente visto que em áreas de humanas, por exemplo. O progresso científico caracteriza
-
se como o trabalho dessas comunidades por meio do estudo de um paradigma ou grupo de
paradigmas relacionados de maneira rigorosa. No entanto, durante o período revolucionário,
em que as disciplinas são questionadas, esse progresso fica nebuloso, podendo s
er percebido
apenas durante a fase de ciência normal (Kuhn, 1998).
Contudo, o fim das revoluções científicas é justamente o progresso científico, em que
uma das teorias acaba sendo definida enquanto um novo paradigma, triunfando sobre outra
teoria
utilizada
anteriormente.
Dessa
forma,
a
existência
da
ciência
se
deve
à
es
colha
dos
paradigmas por essas comunidades científicas, ou seja, os problemas e tendências de pesquisa
definidos como primordiais naquele momento pelo grupo.
Essas comunidades possuem algumas características que são definidas pelo autor como,
por exemplo, preocupação com a resolução dos problemas da natureza que ainda que possuam
dimensão global, devem ser analisados de maneira muito específica. Além disso, as
soluções
encontradas
não
podem
corresponder
às
expectativas
apenas
do
cientista,
mas
aceitas
pela
maioria dos membros da comunidade composta por profissionais correlatos. Por meio dessas
comunidades,
é
possível
identificar
com
precisão
como
os
problemas
su
scitados
pelos
paradigmas foram resolvidos (Kuhn, 1998).
Outra característica dessas comunidades é o fato de verem a si mesmas e pelos outros
enquanto encarregadas da busca por um grupo de objetivos em comum, como, por exemplo, a
educação das gerações de cientistas posteriores. Essas comunidades são descritas a
inda pelo
autor como produtoras e legitimadoras do conhecimento científico (Kuhn, 1998, p. 222).
3.5 SISTEMATIZAÇÃO DAS IDEIAS
No quadro abaixo, buscou
-
se fazer uma sistematização das ideias apresentadas pelos
diferentes autores analisados.
ARTIGO
LOGEION: Filosofia da informação, Rio de Janeiro, v. 13, n. 1, p. 1-23, e-8040, jul./dez. 2026.
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Quadro 1
–
Sistematização das ideias dos autores
|
Autor
|
Objeto de estudo
|
Papel do registro
|
Visão sobre o
crédito científico
|
|
Merton
|
A
Royal
Society
of
London
e a origem da
Sociologia
da
Ciência
|
Atas
da
Royal
Society
usadas
para
identificar
temáticas
e
tendências
de
pesquisa da época
|
Citações
são
indicadoras
de
validação
da
ciência
e
a
produtividade
é
recompensada
pelo
sistema
(como
por
meio
do
efeito
Mateus)
|
|
Latour e Woolgar
|
O
cotidiano
do
Instituto
Salk,
observado
etnograficamente
|
O
artigo
científico
é
um
produto
do
laboratório,
com
função persuasiva
|
Crédito
é
multifacetado
,
não se
resume
a
mérito
lógico
ou
objetivo
|
|
Bourdieu
|
As relações de poder
dentro
das
instituições
de
pesquisa
|
Publicações
são
manifestação
do
capital
do
pesquisador
no
campo
|
O
campo
científico
dá crédito aos que já
têm
e
a citação reflete
posição de força, não
apenas mérito
.
|
|
Kuhn
|
O
desenvolvimento
histórico
da
ciência
por
meio
de
comunidades
científicas
|
Manuais
e
textos
de
divulgação registram
as
revoluções
passadas
,
além
de
difundirem
novos
paradigmas
científicos
|
A
legitimidade
vem
da
adesão
da
comunidade
a
um
paradigma
,
que
é
difundido
por
meio
de
registros
científicos
|
Fonte: elaborado pelos autores (2026).
Por
meio
dessa
sumarização
dos
dados,
é
possível
inferir
alguns
elementos
mais
evidentes. Para Merton, a citação é visualizada enquanto um indicador de reconhecimento e
validação científica, enquanto Bourdieu se contrapõe a essa visão, afirmando que ela re
força
relações de poder já inseridas no campo. Latour e Woolgar
, por sua vez, não se contrapõem a
essas leituras, mas refletem a respeito da noção do crédito, que se apresenta de modo distinto
de acordo com o seu contexto de uso. Em uma posição à parte do restante, Kuhn vai além da
citação e crédito, girando em torno
da adesão coletiva a paradigmas científicos, demonstrando
como esses elementos influenciam as mudanças do domínio ao longo do tempo.
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4
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O presente artigo teve como objetivo trazer uma reflexão acerca das principais obras no
âmbito da Sociologia da Ciência, como forma de auxiliar teórico
-
metodologicamente pesquisas
em Ciência da Informação, em especial no que diz respeito às pesquisas bibli
ométricas que
possuem como foco análises de citação, cocitação e autoria.
Conforme mencionado, a Sociologia da Ciência surge a partir da necessidade de se
compreender
como
o
conhecimento
era
compartilhado
e
desenvolvido
no
século
XV
em
instituições como a
Royal Society of London
e, a partir das análises dos documentos resultantes
das pesquisas desenvolvidas nesse momento, foi possível identificar temáticas de pesquisa em
evidência na época, instituições e classes sociais dos pesquisadores da época, dentre outros
aspectos sociológ
icos.
Ainda que o conceito tenha sido proposto por Merton há quase 100 anos, suas práticas
continuam sendo amplamente utilizadas quando se analisa o que Hjørland (2002, 2017) situa,
na Ciência da Informação, como “domínio”
–
a análise de uma área científica a pa
rtir de seus
elementos como pesquisadores, instituições e temáticas mais estudadas, assim como Merton
fez com a
Royal Society of London
.
Estudos sociológicos em
ciência podem ainda acontecer a partir de perspectivas da
etnologia
, ou seja,
a observação do fenômeno estudado, como a obra “A vida de laboratório”
de Latour e Woolgar. Faz
-
se importante destacar aqui que ainda que essas pesquisas se baseiem
no pressuposto da observação comportamental, os registros continuam sendo importantes para
essa análise
,
como
por exemplo
projetos de pesquisa, publicações que surgem a partir dessas
pesquisas, cartas trocadas entre os pesquisadores, dentre outros. Essa característica é o traço
distintivo
para
diferenciar
a
Sociologia
do
Conhecimento
da
Sociologia
da
Ciência,
esta
trabalha co
m os aspectos intangíveis enquanto aquela, necessariamente depende dos aspectos
tangíveis.
Outra perspectiva em Sociologia da Ciência é a adotada por Bourdieu e seus conceitos
de “campo” e “capital científico”. Nesses conceitos o autor define quais são as relações de poder
presentes nas instituições de pesquisa
–
quem são e de que forma os líder
es são determinados e
mais do que isso, qual é o capital que eles possuem
–
o que eles têm de valor para oferecer e,
portanto,
serem
definidos
enquanto
líderes.
Nesse
sentido,
as
pesquisas
em
Sociologia
da
Ciência também implicam em evidenciar quem são os
principais investigadores da temática e
quais são seus trabalhos que mais contribuíram para a área.
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Por fim, temos a contribuição de Kuhn para as abordagens sociológicas da ciência, em
especial
seus
conceitos
de
paradigmas
e
revoluções
científicas.
Para
o
autor,
quando
um
problema
na
ciência
é
solucionado
ou
ainda,
não
mais
considerado
um
problema,
é
nes
te
momento
que
ocorre
uma
ruptura
na
área
e
sua
revolução,
em
que
novos
problemas
são
suscitados e suas preocupações se alteram conforme a evolução das sociedades. Sendo assim,
é importante ter
-
se em mente que a Ciência não é estática, ela se movimenta e s
e altera conforme
a sociedade em que ela está inserida também se movimenta.
A partir do levantamento bibliográfico realizado no presente artigo, espera
-
se que as
pesquisas
no
âmbito
da
Ciência
da
Informação
em
análises
de
domínio
sejam
mais
bem
respaldadas por esse campo maior que é a Sociologia da Ciência, de forma a evidenciar
melhor
qualidade e apoio teórico às investigações realizadas.
Cabe
registrar,
como
limitação
metodológica,
que
a
natureza
não
sistemática
desta
revisão não permite reivindicar exaustividade em relação ao universo de autores relevantes para
a Sociologia da Ciência. A escolha recaiu sobre os quatro autores citados por
sua centralidade
consensual no campo e por sua já demonstrada produtividade teórica em estudos de Ciência da
Informação, sem prejuízo de que investigações futuras ampliem esse recorte.
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LOGEION: Filosofia da informação, Rio de Janeiro, v. 13, n. 1, p. 1-23, e-8040, jul./dez. 2026.
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